Ativismo: expectativa x realidade

Desde criança sonhei em ser ativista, por mais que eu não soubesse direito o que seria isso. Aos 6 anos, criei com a minha irmã os “Defensores da Natureza”; fizemos uma bandeira e saímos a marchar pelo quintal de casa cantando o hino — que tinha apenas 3 frases. Isso era ativismo? Não sei, mas foi o ponta pé dessa ativista que nascia em mim.

Quando fui para uma conferência pela primeira vez, a minha mãe me alertou: filha, só não vai ser presa. Na cabeça dela, ser ativista devia ser mais ou menos assim:

Algumas vezes, quando me perguntam “o que faz da vida?”, me arrisco a responder (mesmo sem muita convicção interna): sou ativista! E a reação de “UOU” das pessoas deve ser porque elas imaginam isso aqui:

Barco do Greenpeace

Contudo, caros amigos, não foi nada disso que experienciei. Nos espaços em que estive, o ativismo que vivi foi um pouco diferente desse imaginário. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para assumir com convicção ao me apresentar como ativista.

Participei em 2014 e 2015 de conferências de mudanças climáticas (COPs de clima), onde já há uma estrutura que torna bem mais fácil se aventurar no ativismo. O caminho das pedras já foi trilhado pelos vários movimentos que acompanham esse processo. Há grupos ativistas que já se consolidaram e são conhecidos dentro das COPs, como a galera da “Justiça Climática”. Esses grupos sempre articulam espaços de encontro para os ativistas, além de marchas e ações. Rola até um espaço de artes para quem quer fazer cartazes e outros materiais.

Mas agora, na Habitat 3, o desafio foi maior. Saí do universo que já conhecia e fui para Quito pra participar da conferência que trata o desenvolvimento urbano sustentável. Essa conferência só acontece a cada 20 anos… o que, claro, dificulta a articulação de pessoas que acompanham a agenda com foco no ativismo.

Pesquisei ativismo no dicionário e a primeira frase que encontrei foi: transformação da realidade por meio da ação prática. Pois bem, qual o caminho pra quem quer sair das salas de negociação e partir pra prática?

Essa foi a pergunta que me motivou a escrever esse texto para outras pessoas que se interessam por fazer ações de ativismo nesses espaços internacionais. Pra quem tá afim de levar suas demandas de um jeito diferente, por onde começar? Como encontrar as pessoas certas? Sou só eu ou tem mais gente?

Nessa pegada, dou aqui 4 dicas para fazer ativismo nos espaços internacionais:

Dica 1 — Busque outros jovens e qualquer evento organizado por jovens.

Em Quito foi na YoutHab, a pré conferência de jovens, que me conectei com outros jovens que estavam trabalhando com a agenda ou mobilizados pelas mesmas temáticas. Busquei principalmente jovens locais, perguntando sempre sobre os movimentos de ativismo do Equador ou se alguém estava planejando alguma ação. Para todos que respondiam positivamente, passava meu contato e dizia que estava disposta a ajudar.

Não me lembro de ter participado de nenhuma ação de ativismo que não tivesse jovens envolvidos. Jovens são mara!

Dica 2 — Explore o Twitter!

Essa rede social, que sempre passou despercebida por mim, é uma ferramenta incrivelmente útil nos espaços internacionais. Na hora de interagir com outros “migues” ativistas, por exemplo, eu — como boa geração millenial — recorri ao google e busquei por ativistas equatorianos. Encontrei algumas matérias de jornais em que ativistas locais davam entrevistas, peguei os nomes e dei aquela bela stalkeada. Mandei um tweet para aqueles que pareciam ter ligação com o tema, e, surpresa, fui respondida! Essas respostas foram a porta de entrada para a próxima dica…

Dica 3 — Busque eventos paralelos

As melhores conexões são em eventos paralelos, fora dos espaços “oficiais”. Foi em um desses eventos, o Resistência Habitat 3, que conheci muito da realidade local e debati as demandas que não foram ouvidas na conferência. As marchas que levantam diferentes vozes são super necessárias nesses megas eventos de discussão global.

Dica 4 — Ativismo não necessariamente é uma marcha cheia de ação e correria da polícia.

Um outro caminho é usar a estratégia para que sua voz chegue até os tomadores de decisão ou para fazer uma foto correr na mídia, para que mais pessoas se conscientizem do problema. Essa estratégia se chama “foto oportunidade”. Eu usei a estratégia de escrever um cartaz com a minha demanda e levar até dentro do espaço da conferência, em um lugar bem propício, perto de um banner que falava da mesma temática que eu queria discutir.

Ou seja:

Não, você não está sozinhe! Sempre há outros incomodades querendo transformar suas insatisfações em ações. Transforme sua indignação no seu ativismo! Se encontrar outras dicas, caminhos e formas de se conectar, compartilhe. Cada experiência com certeza será um aprendizado diferente.


Por Dari Santos. Originally published at www.engajamundo.org on October 31, 2016.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.