Glória é uma mulher forte. Letras rígidas, mãos firmes, braços longos, ombros largos, pescoço comprido, lábios densos, nariz arrebitado, olhos castanhos, testa sem sinais, cabelos esvoaçantes.

Glória tem o caminhar altivo.

Pés equilibrados, pernas entrelaçadas, quadril despudorado, cintura esculpida, busto apontando para o céu.

Glória nunca olha para o lado. Sempre em frente, encara, se mostra, procura. Nunca perde. Esquece, deixa pra lá, enjoa, ignora.

Glória economiza gestos. Cumprimenta, acena, lixa as unhas, mexe nos cabelos, mordisca os lábios, coça a ponta do nariz, ajeita o casaco, limpa a maquiagem borrada, abre portas, fecha portas, abre janelas, fecha janelas, abre torneiras, fecha torneiras, arruma o travesseiro, fecha os olhos, dobra os lençóis, vê o relógio.

Glória pouco fala. Dá ordens, faz pedidos, diz sobre o que não quer, agradece com um breve sorriso.

Glória não tem medo. Apaga as luzes, ouve música, telefona aleatoriamente, reza, toma banho, assisti a um filme, desliga a tevê, observa a sombra, olha o céu, aperta os olhos, morde os lábios, sente dores, junta as mãos, olha os pulsos, vê sangue, se deita, se cobre, imagina, sonha, respira, diz que ainda é cedo e sente.

Chora, Glória.
Vanessa Reis