Carta aberta a Antônio Pitanga

Amanda Lira
Nov 4 · 3 min read

Dois jornalistas dedicam mostra a um dos pioneiros na representação do negro no cinema brasileiro

Foto: Leo Lara/ Universo Produção

Querido Antônio,

Como vai a vida?

Estamos quase certos de que você não se recorda de nós. Afinal, fazem quase três anos do nosso primeiro e único encontro. O papo se deu meio ao acaso, depois da nossa insistente tentativa de chegar ao camarim da Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2017.

Mesmo assim, gostaríamos que você soubesse que sempre lembramos de ti: o encontro com você foi também um encontro que tivemos conosco.

Nós, aos quase 20 anos de idade, pouco sabíamos sobre nossas próprias identidades e, principalmente, sobre nossas referências. Admito que nos sentimos um tanto culpados pela falta: como ainda não conhecíamos sua obra e sua pessoa?

Naquele encontro, você, com sua generosidade e carinho, nos despiu de qualquer peso. “Vocês ainda têm tempo”, disse-nos. E tinha razão. Ali, ficamos fascinados.

Gostaríamos de compartilhar um pouco do que aconteceu conosco desde então. Depois daquela noite, Antônio, voltamos para Belo Horizonte com a missão de assistirmos ao longa-metragem sobre sua vida que tinha sido lançado naquela mesma mostra.

Agora, que já te conhecíamos fora de tela, ao assistir “Pitanga” nos sentíamos parte de sua história. Desafiando etiquetas e sem sermos convidados, nos sentimos à vontade para, naquela sala escura, integrar as suas conversas.

Rimos. Nos emocionamos. E conversamos contigo, mesmo sem você saber.

Aquele filme nos colocou diante da sua majestade e da nossa própria ignorância. As inquietações voltaram: por que não o conhecemos antes? E o que poderíamos fazer a partir de então?

Depois da experiência de te ver, ao vivo e no telão, nos sentimos convocados a agir. Aquela era, de fato, a centelha que faltava.

Você, melhor do que nós, sabe o quanto nossas histórias nos são negadas. Nada é óbvio para a negritude. Conhecer o passado, reconhecer as origens e identificar as referências é um processo constante e, não raramente, inconclusivo.

Mas vivemos em um feliz momento em que, aos poucos, vemos irmãs e irmãos se movimentando para mudar esse cenário. Nós, de certa maneira, também estamos tentando acompanhar esse movimento.

Não pretendemos te enfadar com longas narrativas sobre o que houve desde aquele encontro. Acreditamos que basta dizer que decidimos nos dedicar a estudar e a pesquisar um tal “cinema negro”.

Ah, Antônio, ouvimos tantas histórias, conhecemos tanta gente e assistimos a tantos filmes nesses últimos anos… Hoje, sonhamos alto: quem sabe, um dia desses, a vida não nos proporciona outro encontro para trocarmos figurinhas?

Antônio, deixe-nos te segredar: hoje estamos muito ansiosos. Mais tarde, faremos a estreia da nossa primeira mostra: “Cinema Negro: re-costuras e afetos”. Sentimos um frio na barriga semelhante àquele de quando nos conhecemos. A incerteza, a curiosidade, o desejo de ir e chegar além. Mas, mais do que qualquer um desses sentimentos, chegamos a essa mostra com gratidão. Gratidão a você e aos que nos antecederam. Aos que nos abriram caminhos e aos que, com afeto, nos acolheram e orientaram nossos passos.

Antônio, não poderia deixar de ser: “Pitanga” é o filme que abre nossa programação.

Agradecemos sua história e seu presente.

Obrigada por ser.

Com carinho,

Amanda Lira e Gabriel Araújo


* A mostra “Cinema Negro: re-costuras e afetos” é gratuita e será realizada nos dias 4, 11, 18 e 25 de novembro, sempre às 19h. A programação integra o projeto Segunda tem Cinema do Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3613, Horto — Belo Horizonte).

Enquadro

o cinema negro em retratos jornalísticos

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