Iniciativas oferecem aulas de cinema para as periferias

Entre as atividades, realizadas em Belo Horizonte, há projetos para diferentes faixas etárias

Amanda Lira
Sep 16 · 7 min read
Crédito: André Gontijo

Alto Vera Cruz, periferia da região leste de Belo Horizonte. Marcos Donizetti era um jovem rapper quando chegou ao seu bairro um curso gratuito que ensinava técnicas de audiovisual para a comunidade. Nessa época, ele trabalhava como técnico no centro cultural do bairro. “O pessoal propôs uma oficina de comunicação do projeto Fica Vivo, que tentava combater a criminalidade nas periferias. Comecei a gravar as oficinas no centro e fui pegando gosto pela câmera. Larguei o hip hop e fui fazer esses negócios”.

Foi assim que, em 2003, Marcos — mais conhecido como “Marcão da Pesada” em referência ao seu antigo grupo de hip hop, “Artilharia Pesada” — deu início a uma longa trajetória com o audiovisual. Brincando e testando takes com câmeras emprestadas, Marcão consolidou a sua vocação para cineasta. “Quando a gente não tem oportunidade nem perspectiva, é difícil a gente procurar outras coisas pra fazer. O que nos é dado é ir para a escola, concluir determinado tipo de instrução e conseguir um trabalho sem muito reconhecimento. Com essas formações, você aprende a reconhecer o seu potencial e a se dedicar mais”.

Uma década depois, já por volta dos seus 30 anos, Marcão finalmente conquistava o suado diploma de graduação em Cinema e Audiovisual. Co-fundador da produtora audiovisual Estética Urbana, Marcão hoje retribui a oportunidade que teve no início de sua carreira e dá aulas na quarta edição do projeto Horizontes Periféricos ao lado de seu sócio, Marcelo Lin. A iniciativa, fundada em 2011, foi contemplada em 2018 pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura por meio da Fundação Municipal de Cultura (FMC). “Eu procuro inspirar a galera e mostrar que a gente é sujeito múltiplo, que pode dar conta de fazer muitas coisas e não só ser mais uma chave de fenda para apertar parafuso. Quero formar um ser pensante que constrói e que problematiza”.

Desde a fundação, o projeto Horizontes Periféricos já atendeu a mais de 450 alunos. Realizada pela produtora Sarasvati, a iniciativa oferece, ao longo de 12 aulas totalmente gratuitas, noções técnicas sobre cinema e audiovisual. Durante as oficinas, os participantes ainda elaboram dois roteiros de curtas-metragem que são gravados por eles mesmos com base nas lições aprendidas.

Na primeira turma de 2019, iniciada em abril, se inscreveram vinte alunos de idades entre 19 e 59 anos. A diversidade também se refletiu nos bairros de origem, na raça e no gênero dos participantes: na ficha de inscrições, por exemplo, constam 12 mulheres e oito homens.

A oficina de estreia deste ano foi na região da Pedreira Prado Lopes, considerada a favela mais antiga de Belo Horizonte. No vídeo, é possível assistir a trechos da aula inaugural do projeto. Em seguida, a partir de maio, a iniciativa percorre outros dez centros culturais mantidos pela Prefeitura dispersos pelas regionais da cidade.

Elaine do Carmo foi aluna da primeira edição do projeto Horizontes Periféricos, no Centro Cultural do Alto Vera Cruz. Crédito: autorretrato

“Mesmo que não tenha um recorte racial, o curso está atuando justamente onde a maioria da população negra vive”, pontua a assessora de comunicação Elaine do Carmo, que foi aluna da primeira edição do projeto, em 2011. Assim como Marcão, foi na iniciativa que ela teve confirmada a sua vocação. “Antes da oficina eu tinha dúvidas se podia fazer cinema. Depois dela, eu tive certeza de que deveria fazer”.

Hoje, além de trabalhar com comunicação institucional, Elaine atua como assistente de direção em séries audiovisuais e dá aulas gratuitas de cinema para jovens negras. “Um dos propósitos do Horizontes Periféricos é multiplicar. Por isso, hoje falo para as meninas para quem dou aula sobre a autonomia do fazer”.

Com o apoio de professores engajados e com a participação de alunos interessados, a coordenadora do curso, Graziella Luciano, observa, na prática, a consolidação da proposta do projeto. “O ‘periférico’ do nome não é nem porque ocorre em determinado bairro que é periférico. Tem mais a ver com os assuntos que não estão no centro do debate, que estão na periferia”, explica. “Cada um tem a sua visão de mundo e o seu lugar de fala. O aluno negro, por exemplo, vem com um olhar que não é o meu. E essa troca é o mais rico”.

Com diversos alunos da própria comunidade, a turma da Pedreira Prado Lopes decidiu: nesta edição falarão sobre a história do samba local e sobre a vida de uma das moradoras mais ilustres do morro — a dona Antônia. Os resultados serão exibidos em março de 2020 na cerimônia de encerramento do curso. Na ocasião, todos os curta-metragens produzidos em nas oficinas do projeto ao longo do ano serão exibidos no MIS Santa Tereza, cinema mantido pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Imagens em movimento crescente: o cinema na escola

Há algumas iniciativas na grande Belo Horizonte voltadas para a formação audiovisual de grupos periféricos. Embora grande parte delas seja voltada para jovens e adultos, há também projetos que abrangem um público ainda mais novo. Esse é o caso do “Imagens em Movimento”, coordenado pelo antropólogo e documentarista Gustavo Jardim.

Realizado em parceria com o programa internacional “Cinema, cem anos de juventude”, criado na Cinemateca Francesa, o “Imagens em movimento” oferece, desde 2015, oficinas de cinema gratuitas para estudantes de escolas públicas da cidade de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte. A ação ainda promove cursos de capacitação para educadores e realiza eventos de exibição das obras realizadas pelas crianças.

“Todo ano é definida uma ‘questão de cinema’ para ser tratada pelo projeto. Pode ser uma operação técnica, como plano-sequência, ou uma questão cinematográfica, como a influência da ficção no real. A ideia é pensar como o cinema pode entrar nas escolas”, explica Gustavo Jardim. A partir dessa definição é elaborado o material didático que servirá de base para as oficinas. “Sempre é feita uma introdução teórica na formação, que termina com a produção de curtas-metragem. São os próprios alunos que escrevem os roteiros. Essa é uma responsabilidade deles”.

Em 2018, foram promovidas oficinas em três escolas sabarenses por meio de uma parceria com a Prefeitura de Sabará e com a ArcelorMittal. Os resultados das produções foram tão diversos quanto o corpo de alunos. “Existe uma predominância de alunos negros, embora as escolas da cidade sejam bem misturadas. O que temos como constante é que todo mundo é de periferia”, constata Jardim. “No ano passado, a turma mais jovem, com alunos de 11 anos, produziu um curta sobre a igreja dos antigos escravizados da cidade, intitulado Alma das Pedras. O roteiro, feito totalmente por eles, saía do lugar do fantasmagórico e trazia a narrativa para o lugar histórico e para as pessoas que passavam na rua. Gostei muito do recorte”, conta.

Em 2018, sessenta crianças participaram do projeto Imagens em Movimento em Sabará. Nas oficinas, os estudantes aprenderam técnicas de captação de imagens com o cineasta mineiro Higor Gomes. Crédito: André Gontijo

Todos os anos, os filmes produzidos são exibidos no Encontro Internacional na Cinemateca Francesa, para onde são levados alguns alunos, representantes de cada escola, com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura. Além disso, as obras são projetadas na praça Santa Rita, em Sabará, em uma sessão aberta a todos os moradores. “É um envolvimento de toda a cidade. Em 2018, foram exibidos três curtas-metragem na praça histórica, que ficou lotada. A exibição ao ar livre cria novos espaços. É uma relação com a imagem que só o filme tem a capacidade de mobilizar”, reflete Jardim.

Após quatro anos de realização, com o projeto em constante crescimento, o coordenador faz um balanço da iniciativa. “Em geral, a escola tende a privilegiar a eloquência da fala e a desenvoltura da escrita. Quando a gente faz essas formações em cinema, a gente vê que muitas crianças que não se encaixavam nisso se encontram em outra forma de expressão. Elas podem sair do lugar só de consumidoras de imagens e conhecer uma cachoeira de possibilidades”.

Os filmes produzidos pelos estudantes são exibidos na praça Santa Rita, na região histórica da cidade de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte. Crédito: Higor Gomes

Hoje, o projeto “Imagens em movimento” trabalha na educação de base com jovens de 8 a 18 anos. Os impactos dessas formações, Jardim acredita, serão observados ao longo do tempo. “Os projetos sempre causam uma mudança na forma de olhar. O interesse em se tornar um realizador pode acontecer de muitas formas diferentes. Pode ser algo que vai se manifestar de alguma forma só daqui a 30 anos. Ou pode ser alguém que vai querer levar isso pra sempre. O impacto depende de cada pessoa”, pontua. “Nosso objetivo é trabalhar o cinema como uma forma de pensamento. É ajudar as pessoas a aprenderem a criticar e a produzirem suas próprias formas de expressão”.

Potência periférica

“O cinema é um modo de materializar uma forma de ver o mundo”, provocou Elaine do Carmo, ex-aluna do projeto “Horizontes Periféricos”, durante a conversa por telefone. Embora enfrente os desafios de ser uma mulher negra retinta no cenário ainda conservador do cinema, Elaine caminha para a realização de seu sonho: trabalhar com direção de fotografia. Enquanto isso, Marcão, professor do mesmo projeto, tenta se firmar como cineasta, acumulando exibições em festivais e prêmios por suas obras. Se, apesar dos obstáculos, é possível projetar um horizonte, exemplos como os de Marcão e Elaine comprovam: há poder na formação de novos olhares no audiovisual.


Reportagem originalmente publicada no portal Alma Preta.

Texto: Amanda Lira

Revisão: Gabriel Araújo

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