Produtoras negras trilham caminho árduo para fazer cinema no Brasil

Segundo levantamento da Ancine, apenas dois em cada 100 longas lançados têm na direção pretos ou pardos

Amanda Lira
Sep 16 · 8 min read
Crédito: Marcelo Lin

Bruno Greco, Higor Gomes, Jacson Dias e Maick Hannder podem ter se formado há pouco, mas já trilham um promissor caminho no cenário do audiovisual brasileiro. Recém-graduados em Cinema e Audiovisual pelo Centro Universitário UNA, instituição privada de ensino que funciona como importante celeiro de realizadores audiovisuais em Belo Horizonte, os quatro resolveram se juntar para alcançar o disputado sonho de realizar cinema em Minas Gerais.

Em março de 2018, eles formaram a Ponta de Anzol, produtora que acumula não só importantes conquistas, como também já mantém uma agenda apertada entre realizações, exibições e projetos. “A gente sabe que está no caminho certo. O principal desafio é se inserir no mercado. Acho que essa é a grande complexidade”, aponta Jacson Dias, um dos fundadores e idealizadores da Ponta de Anzol.

A “grande complexidade”, no caso deles, possui um agravante: com exceção de Bruno Greco, todos os integrantes da produtora são negros. Isso em um contexto em que, segundo levantamento mais recente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), apenas 2 em cada 100 longa-metragens lançados comercialmente no Brasil têm na direção pretos ou pardos.

Para além das dificuldades que toda produtora jovem enfrenta, Jacson compreende as barreiras estruturais que dificultam seu caminho na área. Por isso, ele argumenta, gosta de “dar nome aos bois e colocar os devidos pingos nos is”. Embora recuse assumir uma posição de vitimismo, sabe o nome daquilo que difere as oportunidades que eles têm das oportunidades oferecidas a seus pares, modo como chama os colegas de formação e profissão.

“Ninguém assume esse tipo de racismo. Ninguém assume seus privilégios”, ele conta. “Como a gente tem que ficar o tempo todo cobrando, às vezes passamos pelo chato, né? Você fala e põe o dedo: vocês estão construindo uma coisa aí, mas tem diversidade na produção?”, indaga, batendo a mão na mesa a cada ponto de interrogação. “Tem pessoas trans? Tem LGBTs? Tem mulheres? Tem negros? Negras mulheres? Então às vezes a gente passa pelo chato, sim”, desabafa.

O mesmo agravante interpela a outros dois cineastas de Belo Horizonte, Marcelo Lin e Marcão da Pesada — este último graduado pelo mesmo curso de Cinema e Audiovisual da UNA. Sócios na produtora audiovisual Estética Urbana, os dois tiveram suas trajetórias marcadas pelos movimentos que colocaram a periferia em evidência na capital mineira: Marcelo com o grafite, Marcão com o hip hop e ambos com uma parceria hoje consolidada por meio do audiovisual.

Tanto para a Ponta de Anzol quanto para a Estética Urbana, no entanto, viver de cinema ainda é um sonho no horizonte. “Às vezes, a gente acha que não está dando conta porque a gente não se esforçou, mas pelo contrário. A gente se esforçou até demais. A gente fica rodeando, mas nunca entra no meio do bolo”, é o que diz Marcão da Pesada. “A nossa forma de acesso é diferenciada. A coisa é dificultada para alguns”, reconhece.

Desafios que configuram uma estética

Em uma cena de “Ostentação”, curta documentário assinado pela produtora Estética Urbana, pedestres pulam as muretas de uma rodovia que separa a Cidade Administrativa, imponente edifício projetado por Oscar Niemeyer que funciona como sede do governo estadual de Minas Gerais, do São Benedito, bairro periférico de Santa Luzia localizado à frente do luxuoso edifício.

Nesse simples trecho de poucos minutos, em que conseguimos inclusive nos divertir torcendo para o sucesso dos “travessantes”, Marcelo Lin cria a imagem da metáfora que vai guiar boa parte da profícua produção do grupo. Ali está representado um olhar atento para a denúncia da desigualdade social e para a valorização da periferia que invariavelmente representa a origem dos cineastas.

“O cinema tá cheio de boy”, reconhece Marcelo Lin. Na contramão dessa realidade, ele faz da aproximação com a sétima arte uma oportunidade para colocar a si e aos seus na tela grande. Morador do aglomerado da Serra, maior conjunto de favelas de Minas Gerais, Marcelo é formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard da Universidade Estadual de Minas Gerais. Mas foi no cinema que o artista e grafiteiro se encontrou. “No cinema as coisas funcionam mais como tribo, como um setor mesmo. Diferente das artes plásticas, onde as pessoas não se identificam enquanto grupo”, explica Marcelo.

Selfie com os cineastas: Marcão, à esquerda, e Marcelo, à direita. Foto: Arquivo Pessoal

Nessa ideia de coletividade, o cineasta esbarrou-se com Marcão da Pesada — codinome de Marcos Donizetti — em um dos muitos corres que os dois realizavam no movimento do hip hop. Marcão, então rapper do grupo “Artilharia Pesada” — daí o apelido — conheceu Marcelo no início dos anos 2000 quando ambos participaram de um processo de formação sobre diversidade cultural. “O [Flávio] Renegado participou também. Foi naquela época que a gente começou a discutir sobre política pública de juventude”, conta.

Mas a parceria oficial se deu apenas em 2013, quando ambos resolveram “juntar as ideias”. Por conta da leva de demissões nas organizações comunitárias em que trabalhavam, Marcelo e Marcão começaram a gravar alguns videoclipes sob encomenda para tentar tirar alguma grana.

De lá para a formação de uma produtora, foi um caminho natural: em pouco tempo, a Estética Urbana surgiu, a partir da necessidade de assinar os trabalhos audiovisuais que, invariavelmente, eram feitos coletivamente. Fundada em 2014, a produtora sempre esteve em diálogo constante com a realidade de seus fundadores. “Estética Urbana tem a ver com o que eu e o Lin acreditamos, que é trazer uma experiência e um olhar da rua. É uma coisa mais marginal e visceral. Nossos trampos são mostrando o urbano, a favela, a cidade”, conta Marcão da Pesada.

Lin concorda: “Nosso trabalho sempre caminhou ao lado do hip hop, auxiliando e fortalecendo o movimento. Por isso pensamos um nome que dialogasse com este nosso parceiro, e Estética Urbana tem muito a ver com o rap, com o pixo, com todos os movimentos que são urbanos e estão na rua”.

A marca dessa estética também está impressa nas recentes incursões do grupo no cinema. O último curta do grupo, “Abdução”, inova por justamente contar a história de um suspense com ares de ficção científica tendo como cenário o próprio aglomerado da Serra e, como personagens, os vizinhos do diretor, Marcelo Lin. Marcão, por sua vez, assina a assistência de câmera e a direção de segunda unidade do curta. A história segue um morador do aglomerado que, desconfiado com as luzes estranhas que o perseguem no morro, decide instalar uma câmera para vigiar os arredores de sua casa.

No filme, Bolão começa a notar coisas estranhas no morro onde vive. Divulgação.

Contemplado pelo edital do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG/FCS) de Estímulo ao Curta Metragem, “Abdução” nasceu como um curta disposto a virar longa. “Pra quem já custa acessar o recurso, essa é a oportunidade. Ou vai fazer só o que foi pedido?”, argumenta Marcelo.

O filme é a aposta dos dois para aumentar a relevância da produtora no cenário local até, quem sabe, ganhar projeção internacional. Marcelo e Marcão miram alto e sonham com uma estreia para o longa no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, um dos maiores festivais de cinema europeu, que abrigou, no início do ano, uma mostra específica do cinema negro contemporâneo realizado no Brasil.

Diversidade à frente e atrás das telas

Maick Hannder, Higor Gomes, Jacson Dias e Bruno Greco: os membros da produtora Ponta de Anzol. Foto: Divulgação/ Ponta de Anzol.

Por destino ou coincidência, os jovens da produtora Ponta de Anzol participaram do mesmo edital que premiou “Abdução”. O projeto “Ocó”, que ficou entre os catorze selecionados para a última etapa da avaliação do prêmio, é o primeiro projeto assinado coletivamente pela produtora. “Ocó é um linguajar do dialeto gay, LGBT. Língua pajubá”, explica Jacson Dias. “Significa ‘homem hétero’. No projeto, a gente fala da masculinidade tóxica”, conta Dias sobre o roteiro escrito por Maick Hannder.

O bom resultado no concorrido edital — 69 projetos competiram pelo prêmio — deu confiança à produtora. Afinal, “Ocó” não é a única conquista do grupo. Com Maick, a produtora foi aprovada no laboratório de desenvolvimento de roteiro do festival carioca Curta Cinema e, posteriormente, em uma iniciativa semelhante da Mostra Universitária Metrô de Curitiba. Já com Higor Gomes, a Ponta de Anzol alcançou vaga no laboratório de desenvolvimento de roteiro do Festival de Curtas Internacional de São Paulo, principal evento do segmento na América Latina. De lá pode sair o projeto do primeiro longa de Higor, “Tempestade Ninja”.

“Eu costumo brincar que a gente é persistente”, reconhece Jacson, o mais velho do grupo, hoje com 41 anos. “Uma pessoa que não consegue compreender profundamente essa palavra vai entender que, quando falo de persistência, trago uma ideia de meritocracia: a gente se esforça, a gente consegue. Não é. A gente se esforça, esforça muito, não consegue, mas a gente continua se esforçando. Então eu vejo mais como uma resistência do que como uma meritocracia”.

Tanto esforço encontra resultado de um modo ou outro. Atualmente, o grupo está na etapa de finalização de Looping, curta filmado sob a direção de Maick Hannder. “O Looping é sobre o primeiro amor de um menino e sobre como idealizamos as relações amorosas — para o bem e para o mal. É um filme repleto de afeto, onde conhecemos melhor o personagem através dos desdobramentos dessa paixão”, adianta o diretor.

“Acho que o filme reflete bem as aspirações adolescentes de adultos LGBTs nascidos até meados dos anos 90”, ele suspeita, evidenciando o diálogo entre o filme produzido e a própria diversidade do grupo que o realizou. “Se apaixonar era uma tarefa difícil porque nossa existência até pouco tempo era um tabu. Ser gay era extremamente solitário e amar envolvia muito medo e negação. Por isso fiz questão de colocar dois meninos vivendo um romance no mundo com total liberdade. Fiz questão também que esses personagens fossem negros. Temos pouquíssimas oportunidades de assistir atores negros atuando como o interesse amoroso de alguém. Indiretamente isso acaba afetando a nossa autoestima a longo prazo”.

Pôster-divulgação de “Looping”, primeiro curta assinado coletivamente pela produtora Ponta de Anzol. Foto: Divulgação.

Looping figura como o curta de estreia do cruzamento de experiências diversas e complementares que, no cinema, encontraram uma possibilidade de trabalho e expressão. Mas não é o único assinado pelos membros da produtora. “Impermeável Pavio Curto”, curta realizado como trabalho de conclusão de curso de Higor Gomes, levou o troféu Zózimo Bulbul na última edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. Outro filme de destaque é “Ingrid”, documentário que aborda, a partir da experimentação imagética, a relação entre uma mulher trans e o seu próprio corpo. Com direção de Maick Hannder e produção de Jacson Dias, o filme ganhou o Prêmio Aquisição SescTV, durante a 16ª edição do Goiânia Mostra Curtas, e chegou ao 44º Festival de Cinema de Gramado, um dos mais importantes do cenário nacional.

A luta pela valorização da diversidade LGBTQ, na Ponta de Anzol, e pela defesa de um cinema pautado por personagens simples geralmente localizados à margem da sociedade, em ambas as produtoras, são características que apontam para os próprios lugares de onde seus realizadores falam. Experiências compartilhadas que trazem à tona um cinema comprometido com as urgentes questões políticas do tempo contemporâneo.


Reportagem originalmente publicada no portal Alma Preta.

Texto: Amanda Lira e Gabriel Araújo

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