ensaio sobre a vida danificada: reflexões a partir da minima moralia

pedro sombra
Nov 6 · 9 min read

Minima Moralia é uma obra de Theodor Adorno escrita entre 1944 e 1947. Aqui, não escrevo minhas reflexões sobre a obra, mas a partir da obra.

Imagem do filme Terra em Transe; direção: Glauber Rocha, 1967

Em sua dedicatória a Hokheimer, Adorno aponta a situação em que se encontra a filosofia, sua redução em método e de como uma “doutrina da vida reta”, antes dentro de um horizonte próximo da filosofia, teria caído em esquecimento.

A “vida reta”, uma “vida ética”, é voltada para a vida humana cuja efetividade é a ação (práxis). No entanto, a própria ação, enquanto efetividade daquilo que nos põe na singularidade daquilo que é humano, é cada vez mais limitada pela ordem que a vida se insere.

A própria vida agora estaria dissolvida dentro da esfera do consumo, cujo processo de produção material torna esta mesma vida apenas uma engrenagem da grande indústria, um apêndice da maquinaria sem substância. Talvez a analogia do homem enquanto apêndice da produção nunca tenha sido tão atual ao lembrarmos que o apêndice é um órgão atrofiado da evolução biológica do homem, usado principalmente para digerir a celulose das raízes que nossos ancestrais caçadores-coletores comiam sem preparo e que hoje o retiramos sem muito prejuízo por meio de procedimentos médicos ao menor sinal de problema. Assim, o homem se torna cada vez mais um apêndice da produção, reificado, cuja tendência é ser cada vez mais descartado à medida que representa um problema ao resto dos órgãos da produção material da mesma forma que uma peça velha da maquinaria é substituída por uma mais nova.

A compreensão do que é a vida, engolida pela esfera do consumo e da produção, só se torna possível a partir do estudo, segundo Adorno, sobre os poderes e carências objetivos que regem a existência individual em sua “configuração alienada”. Se o sujeito moderno se colocava como um sujeito voltado para a ação, o horizonte de ação do homem é cada vez mais limitado pelas balizas do modo de produção capitalista. Entregamo-nos à exploração ou morremos (pela fome ou pelas fardas).

A publicidade de massas nos vende sonhos impossíveis, promete que seremos rockstars se comprarmos determinada marca de refrigerante ou que alguém nos ligará apenas por contratarmos determinados serviços telefônicos. A desigualdade social pode não permitir a universalização do acesso aos bens produzidos, mas permite a universalização do acesso à sua publicidade. Se hoje isso se coloca de maneira mais determinada, cujos tentáculos da produção e da publicidade mediatizam qualquer relação entre os homens, quando chegamos ao ponto de sentirmos mais necessidade de conhecer os direitos do consumidor do que os direitos humanos, lançar um olhar à vida que fuja dessa lógica “necessária-porque-é-real” — se já se tem como dado que o homem, outrora animal político, não passa de um tubo digestivo com entrada e saída — realmente se torna mera “ideologia”.

A própria vida, a ação cujo limite é a “esfera do consumo”, já se tornou mera reflexão e caricatura do modo de produção. Quando Adorno escreve que já não somos sujeitos “em si”, mas ainda somos sujeitos “para si”, a imagem que se faz é similar a de um Raskolnikóv que se vislumbra com a biografia de um Napoleão rasgando o Velho Mundo com seus dragões como se fosse o motor da história e guardião da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Quando o herói dostoievskiano percebe que as ações que permitiram um cabo se tornar imperador envolviam “sacrifícios morais”, encontrou aí a justificativa de que ações visando “grandes fins” estariam acima de quaisquer “pequenos delitos” que porventura surgissem pelo caminho. Quando o herói adoece ao perceber que não passava de um sujeito comum, que estaria longe de ser Napoleão, não poderíamos esquecer que o próprio Napoleão também não passava de um homem comum, que não passava de mais uma peça no tabuleiro da história.

Se o Napoleão de Dostoiévski, bordado pelo herói de Crime e Castigo, é esse ideal de homem moderno a ser seguido — aquele que nasceu plebeu e se tornou imperador, como se todos os homens pudessem vir a ser imperadores; assim como o metalúrgico que se tornou presidente ou o vendedor ambulante que se tornou empresário bem-sucedido –, o Napoleão de Tolstói, em Guerra e Paz, dentro de seu fatalismo, estaria longe de ser esse ideal ou um espírito absoluto andando a cavalo; muito pelo contrário, ao retratar o caos da carnificina da guerra, desmistifica a harmonia da estratégia de um comandante; desmistificando a harmonia da estratégia, desmistifica a necessidade do indivíduo específico, do sujeito singular cuja ação depende a própria história. Não eram as ações de Napoleão que determinavam a história, mas, antes, a história que determinava o horizonte de possibilidade das ações de Napoleão.

Isso não significa que, enquanto sujeitos individuais, não tenhamos escolhas, que não há vítimas ou carrascos (pois ambos existem); mas antes que a própria possibilidade de escolha — a qual alguns chamam de liberdade –, assim como os termos que se submetem a serem escolhidos, nos são dados “a priori” à medida que cada indivíduo nasce em determinado lugar, cultura ou classe que apresentam em sua realidade os próprios termos a serem escolhidos, ou seja, a possibilidade de ação. Uma ação é antes de tudo a efetivação de uma escolha — ou pelo menos deveria ser –, assim como escolher é antes de tudo uma ponderação da razão, da subjetividade humana — ou pelo menos deveria ser.

Aqui, ao falarmos de uma subjetividade humana, já não podemos perder de vista o mantra marxiano: não é a consciência que gera o ser social, mas o ser social que gera a consciência; ou mesmo o próprio Freud ao afirmar que a psicologia individual também é ao mesmo tempo psicologia social. Destaca-se, assim, a própria subjetividade de um indivíduo como fruto de um meio social. No entanto, o que é o processo de desenvolvimento do ser social senão a própria história? Se o indivíduo se forma a partir do meio, ou seja, do horizonte de experiências e possibilidades que se revelam a ele, esse próprio horizonte de experiências e possibilidades são condições historicamente dadas. Deste modo, a balança moral pelo qual se pesa os termos da escolha que precede a ação, isto é, a subjetividade humana, ao se colocar como um produto de determinadas relações sociais, se coloca também como produto de uma determinação histórica.

Se essa determinação histórica que chamamos de modo de produção capitalista nos delega a escolha entre ser explorado ou morrer de fome, e se a ação enquanto efetivação da escolha ponderada pela subjetividade humana é o que dá substância e efetividade àquilo que há de humano no mamífero que se chama homem, ao escrever que o homem se torna um “apêndice sem substância”, Adorno aponta o atrofiamento da possibilidade de escolha dentro do modo de produção capitalista a ponto de deixar de sermos sujeitos “em si”, uma vez que um sujeito “em si” seria aquele capaz de realizar a ação fruto de sua escolha; no entanto, o fato de efetivamente termos nossa possibilidade de escolha e ação podada pela realidade que se impõe não impede a ilusão do ideal moderno de que qualquer um pode ascender de cabo a imperador; eis que, apesar de deixar de sermos sujeitos “em si”, continuamos como sujeitos “para si”. “Seja você mesmo seu próprio patrão”: eis a grande ação ainda permitida, eis a promessa de liberdade, como se isso dependesse de uma simples escolha; assim, quando um gari consegue passar em um concurso público após estudar a partir de livros que achou no lixo, a publicidade trata a exceção como uma regra para fundamentar uma suposta “meritocracia” na ordem da sociedade burguesa (“é só se esforçar que se consegue tudo”, dizem), sem levar em conta de que o fato só se tornou notícia por se tratar de uma exceção.

Se o desenvolvimento da técnica de Gutemberg aos irmãos Lumiére possibilitou um aprofundamento no alcance da comunicação de massas, em um making of da problemática produção de Appocalipse Now Coppola já falava em um futuro que todos teríamos a possibilidade de sermos diretores de cinema na palma da mão. Talvez ele já tivesse em vista o desenvolvimento dos meios de produção do entretenimento, seu barateamento e sua popularização: estamos a um clique para sermos artistas num tempo em que nenhuma agência publicitária pode prescindir de um diretor de arte (como cantava Chico Science, “computadores fazem arte e artistas fazem dinheiro”). Se os meios de produzir esses produtos se popularizaram de tal modo, é porque antes os meios de consumi-los já haviam também se popularizado, seja o rádio, a televisão ou o smartphone. Se a subjetividade se forma a partir de experiências e possibilidades que orbitam nossa existência, à medida que a verticalização urbana nos amontoa em caixa sobre caixa, nos isola enquanto nos amontoa, a pobreza de experiência se revela como uma memória com cada vez menos sensação. Estamos tão perdidos dentro de nós mesmos, de elevadores, apartamentos e smartphones, que tais gaiolas já não parecem mais se tornar o meio cujo fim é a vida; pelo contrário, estar vivo se tornou o meio cujo fim é possuir gaiolas cada vez maiores. Uma memória ilusória construída na superfície da comunicação de massas preenche a percepção de mundo que forma o subsolo da subjetividade humana. A vida, a possibilidade de ação, se torna assim mera aparência, cuja possibilidade de escolha “efetiva”, de ação política propriamente dita, se resume agora a escolher em qual candidato votar nas próximas eleições como se escolhe qual marca de sabão em pó colocar no carrinho de supermercado, ou seja, uma escolha mediada antes pelos marqueteiros de propaganda eleitoral e comerciais no intervalo do jornal.

Porém, o quadro de vidro no qual se pinta essa aparência de vida, a aparência de escolha, a memória ilusória que busca justificar a exploração do homem pelo homem, a narrativa de que “se se esforçar bastante, chega lá”, se quebra na primeira brisa de realidade. Não à toa Adorno escreve que apenas a oposição da vida à produção poderia nos dar uma ordem mais digna. Mas como dar corpo a essa oposição? Como fazer essa oposição aparecer? Como fazer essa realidade brotar na mente dos indivíduos, despir a realidade do invólucro místico dos reclames do plim-plim? Se a história não é conduzida por um espírito absoluto encarnado num único indivíduo, mas pelos próprios homens, não poderíamos negar o próprio poder da comunicação de massas, capaz de manter coesos vários homens numa mesma narrativa. Assim, Glauber Rocha apontava o próprio cinema como uma expressão artística de potência revolucionária: por mais que as armas da arte não substituam a arte das armas, o cinema se colocaria ainda como uma forma de fazer aparecer a “vida real”, uma forma de desmistificar aquilo que já é dado como “natural”. Não à toa Ossessione, do Visconti, foi censurado por Mussolini: num suspense quase dostoievskiano, nos é contada a história de uma mulher casada que se relaciona com um funcionário de seu marido, dono de uma oficina; a mulher, tramando com o amante, assassina o próprio marido; mas não sem, antes, ser mostrado no filme os abusos e maus tratos que ela sofria do marido e que só estava casada por conta de suas necessidades materiais. A trama, desmistificadora do “amor” na sociedade burguesa, isto é, como fundamento da instituição casamento, apresenta como elo da sagrada união as necessidades materiais e os impulsos sexuais.

Assim, a cena da carne podre do Encouraçado Potemkin, de Eisenstein, um cinema essencialmente de propaganda, se coloca como a cena do gado morto no início de Deus e o Diabo na Terra do Sol: a Estética da fome do Cinema novo, inspirado no neorrealismo italiano e no cinema soviético, faz aparecer o quão indigna pode ser a ordem cuja vida se insere. No entanto, se ainda havia um grau de otimismo em Deus e o Diabo, expressado nos cangaceiros que representariam certo banditismo social que se insurgia contra determinada ordem social, a busca por uma “ordem mais digna” pelo menos para si; em Terra e Transe, lançado às vésperas do AI-5, já assumia não apenas um tom mais sombrio, mas também mais pessimista: o poeta revolucionário, no dilema de escolher entre permanecer em sua melancolia de esquerda ou aderir à luta armada por uma “ordem mais digna”, ele, que só queria cantar, parece ter em vista o quão inútil seria sua ação no fim das contas, independentemente da escolha cuja ação seria fruto. Essa inutilidade da ação de um indivíduo específico (que “pensa, logo existe e é o motor da história”) frente ao movimento histórico que se manifesta em sua realidade é o reflexo da supressão da própria ação como princípio da vida humana, assim como essa supressão é o reflexo do fato de que, como escreve Adorno, não há mais vida.

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Ensaios, contos e poesias. Filosofia, cinema e política.

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