pedro sombra
Nov 6 · 3 min read

(paranóia indiscreta)

As janelas indiscretas me observam. A luz que entra pelo buraco da minha caixa invade meus olhos e me deixa atordoado. Eu sinto as janelas me observando, mas não posso contar a ninguém. Não posso confiar em ninguém. “Você está louco”, foi o que ela disse. Ela disse que eu estava ficando paranoico, que eu estava fora de mim. Mas ela não entende, ela não vê, ela não sente. E eu disse isso a ela, mas pelo visto ela tinha dificuldade de ser racional. Todas elas eram assim, sempre foram, gritando e berrando como loucas antes de fechar a porta na minha cara. Não importa, não ligo mais para elas. Tenho preocupações mais urgentes.

As janelas me observam. Todas as janelas se voltam para mim e os olhos lá de dentro da escuridão esperam que eu faça a próxima coisa vil. Devem ser todos campeões, todos eles campeões em tudo. Julgando cada suspiro do meu corpo, prestando atenção em cada coisa que eu diga ou faça, procurando cada detalhe que possa ser usado contra mim no tribunal da zombaria e do escárnio. Ora, se acham juízes do inferno e profetas do paraíso.

Eles devem estar rindo de mim agora. Podem rir, desgraçados, podem gargalhar com suas bocas cheias de dentes. Eu os odeio, todos eles! Odeio suas janelas, suas risadas, seus dentes! Eles ainda me pagam. Vou arrancar seus dentes, é o que farei com o alicate vermelho que está guardado, está enferrujado mas vai servir. Vou prender cada dente e puxar devagar, para ver o sangue brotar lentamente da gengiva deles, e nessa hora sou eu quem vai estar rindo e eles que terão vergonha de rir, e se algum dia algum deles se atrever a rir novamente a boca banguela representará muito bem a decadência da qual são fruto.

Eu falei isso para ela, mas ela preferiu não me entender. E ainda me chamou de louco. “Louca é você que não entende, que não quer ver”, repliquei. Mas é cada vez mais difícil encontrar alguém com quem se possa ter uma conversa decente hoje em dia, com argumentos plausíveis e racionais. Eu fui ingênuo, achei que ela poderia entender.

Não foi culpa minha. Foi culpa dela! Ela também riu de mim. Ela disse que eu estava doente, que não tinha nenhuma janela olhando para alguém insignificante como eu. Quando eu apontei para as janelas fora da minha caixa de concreto — “veja!” — , ela riu da minha angústia e as janelas riram com ela em um coro de gargalhadas destoantes. “Vou embora, não tenho paciência para delírios”, foi o que ela disse rindo antes de tentar sair. Eu não gosto quando riem de mim, ninguém gosta de ser ridicularizado. “O que é isso? Larga o meu braço, você está me assustando”, ela já não ria.

Agora as janelas saberão do que sou capaz.

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Ensaios, contos e poesias. Filosofia, cinema e política.

pedro sombra

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satanas sum et nihil humani alienum puto

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