15 ministórias de até 140 caracteres

No Vento — canetinha hidrocor + lápis de cor por Thay Petit. Confira a página no Facebook e o Instagram da artista.

Quando quase todos morreram a ingestão de carne humana virou lei. Ele se elegeu para fazer e distribuir os cortes — tudo bem, sou cirurgião.


Dos três tiros certeiros dois foram em si.


Parou a mão próxima da bunda desejada. Nem isso movia mais a alma. Fumou, bebeu cachaça e olhou pro céu sonhando sonhos de fim de mundo.


Depois do grande estrondo só foi possível ouvir um espantoso “eita!”.


Quando lambia aqueles pés, ignorava o microconto enviado via SMS para o celular Nokia.


Antes do terceiro verso:

— Cala boca, não gosto de homem frouxo.


A dúvida cessou quando a bomba explodiu.


– Doutor, tô sempre com essa catinga aqui em baixo.
– Claro, nesse calor dos trópicos, tropical, roupas de baixo são um mal.


– Que você acha dos que reclamam do limite de 140 caracteres?
– Não são escritores. Na escassez do trópico úmido isso é epopeia, romance.


Ignorou as gaivotas. Reclamou do clima, coçou a bunda, chutou o cão, cuspiu a comida fria, xingou a mulher e o Estado. Um dia como outro.


Cruvína olhou a maré, balançou rabo, deu meia volta. Seu dono, contudo, foi nadar. Apesar dos latidos, virou o afogado mais bonito do mundo.


Filip foi nadar em Boa Viagem, mas um tubarão o atacou. Filho de juiz, comoção nacional, logo o animal teve sua sentença.


– Tão bonito de terno.
Beijou-o pela última vez.
– Nunca usou antes.
Despediu-se jogando a primeira mão de terra.


Ao apagarem a parede, mataram sua voz. Nunca mais falou, muito menos grafitou. A cidade ficou cinza, respingando em todos seus habitantes.


– Foi sim, me mandaram zap. Os cara sem cabeça, só tripa.