Imagem: Henrik Aarrestad Uldalen

A última vez que falei de amor

E as frases atemporais demais para serem críveis

A última vez que falei de amor pareceu tão real que me deixei levar pela sensação embriagante da eternidade. Mesmo sabendo que todas as semanas eram celebradas missas de sétimo dia da moça que fui. Ela morria na mesma cama, pelas mãos do mesmo homem. Corria distâncias com uma urgência que embaçava os pensamentos e maquiava a realidade. Era o almoço e o jantar, enquanto ele se fazia café, ora quente, ora frio. Mas gostava de café independente da temperatura.

A última vez que falei de amor foi num caderninho caro de nome esquisito que ele tanto prezava pelo preço. Foi numa noite em que bati na porta de madeira do andar de um apartamento que não lembro mais o número, de um edifício que não recordo o nome, mas era de homem. Foi fazendo amor de portas trancadas, vedadas e oca. Quis gritar para ouvir o eco das coisas que sabia, mas fingi o desconhecimento para manter o que nos restava e me consumia.

A última vez que falei de amor foi hoje enquanto escrevia sobre a última vez que falei de amor. Jogada na cama do quarto pensando em tudo que impregna as manhãs em que não consigo preencher a dor com leituras intermináveis, com conversas banais para calar meus silêncios e não permitir que eles falem. A última vez que falei de amor foi no ócio da existência, na folga do trabalho por motivo de doença. Foi quando o medo e a saudade me fizeram ir tão longe a ponto de segurar o telefone e criar coragens absurdas para coisas absurdas que nunca farei.

Enquanto houver uma última vez que recorde ela será sempre a última. Enquanto esse reboliço existir continuarei a falar uma última vez de amor, até que ele se esgote como tudo que o tempo empresta e toma de volta. Até que esqueça não só os números e endereços, mas o sentido de todas as coisas que ainda não esqueço por medo de ser a última vez que falo de amor.


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