Fotógrafo: Lee Jeffries

A alegria pueril e sincera do asfalto.

Histórias de um bêbado sem nome.

Era mais um adorno daquela avenida. Confundia-se com a parede cinza, fundia-se ao chão frio. Compartilhava as doenças com os cães sarnentos. Comia as sobras do restaurante da esquina. Bebia a pinga barata do Zé, antigo companheiro de estrada. Amenizava o seu tédio ao observar aqueles rapazes e moças andarem apressados na rua. Apressados para o trabalho, apressados para a vida.

Não é que fosse infeliz, até tirava algum prazer desse destino miserável, encontrava cortejo e graça nas ruas. Cantava a todos o quanto era guerreiro de ter sobrevivido a dez anos de asfalto, a cinco brigas de galo, a três golpes de punhal. Tinha que ser sujeito muito homem para experimentar tudo aquilo e continuar de pé. Sentia orgulho da sua história. Só Deus e São Jorge sabem o que tinha vivido.

Nem sempre fora assim. Lembrava-se da vida hipócrita de classe média, do trabalho no almoxarifado, da esposa insuportável que o esperava todas as noites. Fingia felicidade e plenitude naquela rotina execrável. Escondia-se de si mesmo. Riu com gosto. Parecia se tratar de outra vida, talvez uma encarnação cômica, uma expiação sofrida de seus pecados.

O vício na cachaça foi então consequência. Era isso. Precisava de algum ópio para sobreviver. Ou viraria um bêbado ou um beato da igreja da esquina, que aliás tinha um nome bastante esquisito: balcão da benção. Nunca entendera como aqueles cristãos pedantes achavam plenitude na vida medíocre de trabalhar para viver, viver para trabalhar, em um looping contínuo interminável. Só a crença na existência de um deus ajudaria.

Lembrava-se muito bem das três horas em pé no trem para chegar na tortura a que davam o nome de trabalho. Verdadeiro tripalium*. Era impossível que qualquer humano mantivesse a dignidade em meio a tanto papel e burocracia. Como odiava aquela repartição pública. Não enxergava o que produzia, a razão do seu labor. Isso se existia alguma função naqueles carimbos e papeladas às pilhas. Como o homem se enreda em tantos caminhos sem sentido!

Costumavam lhe dizer com frequência que tinha sorte. Que ser trabalhador em tempos de crise era uma graça divina. Gargalhou histericamente. Lembrou o quanto era desvalido e desprezível como um burocrata do governo. Ironicamente só encontrara contentamento na rua, pois via poesia no andar desconectado dos outros. Sentia prazer secreto e silente em não ser notado, em permanecer ignorado e quase camuflado no chão sujo e mal cuidado. A vida não importava, bem sabia.

Era isso: precisava de um ópio para sobreviver. Olhou para as mãos que seguravam um cantil velho e, em silêncio, agradeceu por ter escolhido a cachaça. Maldita, sagrada. Coçou a cabeça enquanto sentia alguns piolhos caminharem ao longo dos fios emaranhados. Esboçou um sorriso tímido para o Zé, aquele bêbado maluco. Sentia-se estranhamente feliz. Pelo menos agora seguia invisível na alegria pueril e sincera do asfalto. Não necessitava mais fugir.

*antigo instrumento romano de tortura