Imagem: Egon Schiele

A cama que transbordava

o silêncio das palavras

Me preencha de alguma forma, fique perto de mim um pouco demais, eu permito. Eu abro as minhas pernas, mas não quero abrir o coração. Esse estagnou como relógio quando acaba a bateria.

Mas não importa, só não quero ficar só hoje à noite, então façamos assim uma troca. Nos beijamos e transamos, sem danos, na cama do teu quarto, que é grande demais pro meu gosto.
O que não importa. 
Quero isso, isso que também está no meio das tuas pernas.

Eu quero provocar a sensação de qualquer sensação, porque não sei viver sem fazer sentir. Então sigo o rastro, beijo tua virilha e a extensão de teu desejo. Vejo teu rosto contorcendo a cada movimento, meus olhos sempre abertos nos teus.

Quero que saiba que sou eu quem provoco o que sentes, te proíbo fantasias sobre o corpo que te empresto. 
E prudentemente tento ter o mínimo de intimidade, assim deixo você penetrar em mim enquanto tento não pensar em mais nada. E em uma investida com as mãos em tuas costas me constranjo, parece um abraço, eu penso. A escuridão não permite ver o vermelho no rosto.
Que alívio!
Lado, quatro, usual, vamos de a à z em busca do mesmo prazer, talvez com o mesmo pesar no final. 
Mas não me nego ou renego o que faço. Sinto coisas que jamais senti com outro, sinto o corpo vibrar com uma facilidade absurda, espasmos transbordam de tua cama e sufoco a voz no lençol. 
Te vejo, te provo, te enrolo com as pernas, mas contenho os braços.
Apenas eles.
E no fim peço pra sair lá pelas cinco da manhã, quando finalmente clareia o dia e não há vivalma nas ruas. 
É uma desculpa pra andar no meio da avenida e fingir que sou a única pessoa no mundo. E não pensar em nada além do silêncio, do vazio de palavras que pela primeira vez não me incomoda.


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