A ideia da palavra
Preferia perder a cabeça a perder a ideia. Aquela tal, aquela palavra que surgiu do nada… Como era mesmo?
Antônio era um pesquisador, não comum, um peculiar pesquisador da linguagem. Tentava encontrar palavras impronunciáveis, que às vezes vinham em forma de sonho, às vezes como um susto e a qualquer momento.
Estava em um dia ordinário, no transporte público, acordara cedo com compromisso marcado, apressado. Pois foi, como de costume, atrapalhado e feito bala num rompante pelo corredor pra não perder o elevador. Perdeu, mas por sorte pegou a hora do ônibus. A cabeça ainda vazia, cheia de sono e de lembranças de um sonho recorrente. Ele tentava recordar detalhes daquilo enquanto acenava ao ônibus. Entrara e com pressa se sentou, sem escolher assento, desatento… como quando fazemos aquelas coisas sem importância.
Então veio a tal palavra, que desgraça! como era mesmo? ahhhh… ele tinha a lembrança do som de suas sílabas e nenhum rascunho, nenhum papel nos bolsos, nada onde pudesse registrar! Ele calculava que a palavra tinha aproximadamente 24 sílabas, ficava imaginando qual seria o sentido dela. Pois palavras assim, impronunciáveis , só mostravam seu sentido quando ditas sem nenhum intervalo de respiração, sem erros, sem desvios, era quase impossível, mas ele sempre tinha esperanças de conseguir um dia. Uma vez dita de maneira errada, a palavra desaparece da mesma forma como surgiu, sem explicação.
E ele pensou alto: — “aconteceu de novo!”. Veio a ideia e ele não queria decepcioná-la! Lembrou-se de ter colocado um lápis no compartimento lateral de sua mochila! Desesperadamente tateou até encontrá-lo, mas nada de nenhum maldito pedaço de papel! Pensou em pedir a senhora sentada ao lado, uma criatura que chegou sem ele notar, tamanha preocupação em lembrar-se da ideia em forma de palavra, quase disforme, evaporando! Mas não achou prudente… a senhora rechonchuda e rabugenta já estava balbuciando lamúrias sobre o tempo e sobre o trânsito à quem lhe desse o mínimo de atenção. Antônio se contorceu no assento mirando forte para a janela direita como se procurasse algo perdido na rua, evitando o olhar agonizante à esquerda daquela puxadora de papo em transporte público, que só fazia crescer seu desespero, a distração. Não! Arrepios…
Teve um pensamento estapafúrdio! Achou que podia escrever a palavra impronunciável então em si mesmo, rasgando a pele branca com a ponta do lápis afiado. Vislumbrava a dor de marcar em vermelho a ideia que o assombrava. A ideia da palavra. Era o que importava.
Ele olhou para o próprio antebraço e voltou a imaginar a pele rasgada, gotejando sangue, a ponta brilhante do lápis em sua mão apoiada na cabeceira do assento a sua frente. Sentiu uma certa paz no desespero da única maneira que pensara em poder gravar a maldita palavra. Até que veio primeiro o som, uma buzinada grave e barulhenta, depois o impacto!
O motorista havia freado bruscamente em um cruzamento, fazendo sua mão escorregar e seu lápis cravar com tudo na nuca do passageiro a sua frente, de chofre! Sem brincadeira, foi de amargar, um absurdo! O sujeito começou a gritar e xingar e as pessoas ficaram agitadas tentando compreender o que estava acontecendo! Uma criança no banco ao lado viu tudo, o lápis cravado na nuca do homem e o sangue viscoso escorrendo lentamente por seu pescoço, manchando de rubro o colarinho de sua camisa azul celeste engomada. Começou a berrar, era de enlouquecer. A senhora rabugenta ao lado de Antônio o olhava com perplexidade, com as duas mãos tapando insistentemente a própria boca, meio trêmulas, repetia em tom abafado: — “Ele vai morrer, olha, ele vai morrer! Meu Deus, meu Deeeus!”. Por sorte havia uma enfermeira no ônibus que sabia como proceder e ajudou o sujeito, indicando onde era o hospital mais próximo e que se acalmasse e não removesse o lápis em hipótese alguma, pois seria pior, poderia causar uma hemorragia das brabas! E se tivesse acertado alguma veia?
Bom, enquanto isso no banco de trás, ainda paralisado, tentando mentalizar desesperadamente a palavra, nem cor, nem sangue, nem homem, nem choro, nem berro, nem buzina, nem rosto, nem nome, nem sonho, nem ideia… no que ele estava pensando? Sua viagem estava longe de terminar e diante dos fatos, ficou mais triste por ter pedido seu lápis do que por ter acertado acidentalmente o sujeito que o levara, por questão de vida ou morte, consigo para o hospital. Sua única chance, perdida.
Então não tinha mais jeito… a ideia tinha fracassado, ele se sentiu um tremendo idiota, como pôde estar tão despreparado e ser tão azarado em um mesmo dia? pensara… cansado de perder para as palavras. Como se fosse algo.
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