A indisposição que se dispõe a mudar.

E o que ocorreu com Orfeu? Tudo! Inclusive nada. Perdeu-se pela estrada que ligava o Rio a Minas. Se embragou em um bar de esquina e não voltou mais a falar. 
Foram vários dias de devaneios em busca de entender o que Fernando Pessoas entendera no século passado: A metafísica é a condição de se estar indisposto. Afinal todos somos indispostos com alguma coisa. 
Seja com a pia que não para de pingar no meio da madrugada de uma terça feira ou seja com a observação alheia da vida. Assim como a gota que cai, as ações do outro incomodam.

O incômodo o seguia pela estrada. Ele me disse em cartas que não haveria de voltar para São Paulo. Justificou que não havia motivo mais para morrer. Sim morrer… Me Disse que agora só pensa na vida… Só pensa em descansar em Pernambuco. Confidenciou que achou um casarão na Rua Velha e decidiu refletir sobre a indisposição.

Contudo não achou resposta neste mundo. Nenhuma que lhe desse pista sobre por que transcender é algo inevitável. Pensou em Deus, refletiu sobre o mal e fez caminho que Dante fez. Desceu no inferno dos seus pecados e subiu ao paraíso das suas virtudes. Sabe o que achou? Apenas mais um pecador no meio de vários.

Outro dia me disse que que não consegue olhar para as pessoas do mesmo jeito. Diz que habita entre pessoas egoístas e sem coração. Pois elas se trancam em um individualismo irracional e esperam que o próximo entenda sua vida. Disse-lhe que era besteira e ele retrucou: Besteira é viver uma vida medíocre. Dei-lhe o crédito. 
Escreveu um livro sobre autoajuda e fez algum dinheiro. O suficiente para se aposentar. Plantou uma horta nos fundos do casarão e agora vive pintando cada planta que nasce.

Vinícius Sales

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