Além da Linha Amarela

Um passo à frente, está a morte; um passo para trás, há vida. Nem um, nem outro. Ali estou eu, no meio-termo. Posicionado exatamente em cima da linha amarela, sentindo meu peito tremer um pouquinho.

No fim do túnel, as duas luzinhas nascem e vêm aos poucos crescendo. O metrô aparece pouco depois. Quando ele se aproxima, inclino quase imperceptivelmente o meu corpo para frente. Fecho os olhos um instante antes do primeiro vagão passar e sinto a corrente de ar por conta da velocidade batendo contra meu rosto.

Não foi dessa vez.

As palavras seguem as mesmas, mas a fluência da cadência que destilava experiência com calor se perdeu em algum ponto do processo; onde está aquela ilusão de alma nas entrelinhas? Onde ficou meu filhote de otimismo que eu fora tão competente em adestrar para trazer-me lucros abstratos?

Onde ficou aquele espírito eterno adolescente que magnetizava recompensas em relações fetichistas e mentirosas?

Engasguei com minhas próprias palavras pelas censuras dos contatos próximos que imploravam-me com suas inseguranças para não soltar os verbos e, no silenciamento de minhas verdades (na busca esperançosa por desenvolver “novas verdades”, que jamais vieram a ser minhas de fato, mas que funcionaram como um novo jogo teatral), acabei perdendo o protagonismo que antes interpretava.

Se era tudo cena, que diferença fez? Que diferença fez abandonar o teatro antigo e desenvolver um novo? Talvez, simplesmente, possa significar esta vida como a eterna alternância de papéis, busca insaciável por algum ser mais autêntico que jamais se concretiza. Mas por que aceitaria esta visão horrível? Por qual motivo alguém seria estúpido o suficiente para fazer algo assim?

Se o papel mentiroso antigo me permitia sentir ser mais verdadeiro, mesmo que isso fosse mentira, se me trazia mais alegria e conforto, mesmo na ilusão nostálgica, e se o presente, em contrapartida, sempre resguarda o amargo saber de que a peça já teve cenas melhores… Por que simplesmente não travar esta narrativa e aceitar a estagnação de uma função de palco? Não seria nisso que se findaria a historinha? Nunca vi personagem sem arco dramático, ou peça que se prenda para sempre numa cena só.

Os antigos diriam ser impossível quebrar os mitos. O tempo gosta do teatro: não dá para ignorar o desenvolvimento dos atos e o destino já se fecha no primeiro feito da primeira cena… No maldito e saturado lá e de volta outra vez, um rio no qual se entra duas vezes já não é mais o mesmo rio (e nem o mesmo é quem em suas águas adentra); mas o mundo agora é outro. Se aperto replay eternamente numa mesma música, o álbum não precisa, necessariamente, ir até o fim nunca. E se eternamente der replay no clímax? Quem disse que eu preciso sair do rio, para começo de conversa? Quem disse que preciso ser personagem e que não posso, simplesmente, ser humano?

É assim que vivo aquele momento em que, atrás de mim, há todas as cenas da ficção que a vida é: os amores e dores, os ditos e risos, os bons e os maus dias, alegrias, nostalgias, a rotina e sua monotonia tanto quanto a euforia das raras cenas de magia. Atrás de mim há a família, os estranhos, os amigos, os desconhecidos e conhecidos, o mundo, a política, a ciência, o trabalho, a escrita e até mesmo este texto aqui, assim que colocar nele um último ponto.

Já à frente, há só o nada.

Talvez haja um pequeno segundo de trilho, com luzes e sons, e talvez um último instante infindável da mais agonizante dor, mas, ainda assim, depois disso, num momento menor do que uma piscadela de olhos (e menor do que a leitura sua destes parênteses somente), há o nada.

Diante de um mundo que só me oferece estas duas opções, cada um com seus prejuízos e ganhos, que outra opção me resta que não nenhuma?

Cindido no ser e não ser, entre o consolidado e o etéreo, repouso no meio apertando no fundo da alma aquele replay mental incessante, observando meu corpo sutilmente pendular, ora pra frente, ora pra trás. Entre vida e morte, matéria e espírito, lógica ou irracionalidade, eu escolho nenhuma, oras bolas. Entre sensatez e insensatez, parece-me evidente, óbvio como lição para crianças, que a mais sensata escolha é escolha nenhuma.

Mas o mundo e o tempo em sua parceria perversa seguem me exigindo: escolha, escolha, escolha. Vá para trás, siga sua vida. Vá para frente, termine com isso.

Quando o momento aconteceu e acabou, as portas se abriram e pessoas começaram a entrar e sair dos vagões, apressadas em suas vidinhas. Estático, me mantive um último momento posto no único lugar onde me sinto eu mesmo no mundo inteiro, na linha amarela embolotada que se demarca no chão.

Além da linha amarela, onde havia até um instante antes a sugestão da experiência nunca vivida do nada, as perspectivas se abriram junto com as portas para mais do mesmo, outra vez. Entrar lá, ir embora para outro lugar, fazer outra coisa, e ver o tudo continuar a girar. Assim é que, só por falta de imaginação do mundo real e falta de síntese nesta dicotomia vida-morte, por pura ditadura do tempo que me expulsou de meu atemporal momento de pensamento, sou obrigado pelas circunstâncias inconvenientes da realidade a entrar também no trem.

Saio da linha amarela, mas ela nunca sai de mim. Não a abandono no fundo da alma porque nunca quis abandoná-la. Não quero deixá-la, ainda, e em mim ela segue sendo o único lugar onde repouso. Não quero nada além dela. Não quero ingressar no trem do tudo e não quero, também, o nada que como promessa o antecedia nos trilhos.

Só quero existir no meu lar, o limiar de ambos. Só quero me postar na linha que os divide, o único ponto onde não há cegueira, e ser o estático ermitão paradoxal e sintético da zona neutra. Só quero estar lá, fincado no mesmo lugar, e refletir eternamente sobre os tais aléns da linha amarela, mas sem jamais ingressá-los de fato.