Apenas Uma Piada.

“The Man From Another Place” de Twin Peaks.
Other friends have flown before —
On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before.”
Then the bird said “Nevermore”.

Edgar Allan Poe, The Raven.


Estavam apagando as luzes. E Timão estava esperando o senhor Tiago, o dono do lugar. Era na porta dos fundos que dava no estacionamento, e era noite, e tudo que se fazia, ecoava.

— Te pagarei porque foi prometido antes. — Dizia Tiago enquanto contava o dinheiro em sua carteira.

Timão olhou para o dinheiro com uma centelha de vida, que logo se perdeu em seus olhos negros e secos.

— Obrigado Tiago.

Ele já estava de saída quando Tiago avisa:

— Se me procurar semana que vem, eu não sei se te aceitarei novamente.

Timão sabia que não iria mais aparecer ali, nunca mais.


Trancou a porta atrás de si, e pensou em várias coisas, dentre as quais algumas davam até medo, e outras que o deixavam melancólico. Nada que fugia á normalidade. Agora era o momento em que ele poderia respirar por algumas horas aliviado antes da cidade acordar e lembra-lo de que ele existe.

Soltou o dinheiro na mesinha da entrada junto com a chave. Foi a geladeira e a abriu: duas latas de heineken, presunto, e uma caixinha de toddynho. Pegou a última e ligou o computador. Jogou um jogo geométrico no telefone enquanto o computador iniciava.

Não havia internet.

Respirou profundo. Falhando, mas ainda respirando. Falhando, mas ainda vivendo. Falhando, mas ainda tentando.

Sentou no sofá e abriu um livro. Começou a ler. Estava na vigésima página e não sabia o que estava lendo, porque sabia que daqui a dois dias tinha que pagar o aluguel. Voltou as vinte páginas e começou a reler. Percebeu que já havia lido aquelas vinte páginas e sentiu tédio. Fechou o livro e começou a roer as unhas olhando de um lado para o outro.

( pensou em várias coisas, dentre as quais algumas davam até medo, e outras que o deixavam melancólico. Nada que fugia á normalidade.)

Não percebeu mas estava chorando.


— O que vai querer senhora?

— Um quilo de bife de boi.

— Alguma preferencia?

Um não com a cabeça. Ele teria que escrever isso logo após:

( — Um quilo de bife de boi.

— Alguma preferencia?

— Sim. Boi.)

Ficaria bom com a dos rótulos, Timão sabia.

Foi colocando várias tiras uma em cima da outra mecanicamente. Pesou: 1, 02 Kg. Já estava treinado. Já sabia qual era o peso da morte. Deu aquele giro clássico de atendente de açougue para dar o nó, tirou a etiqueta e a colou e entregou para dona Matilda que saiu em seu trote patético.

Viu o velho Samuel. E sabia até o que o senhor ia pedir, e até se não pedisse, saberia que seus filhos estariam visitando-o. Quando se envelhece não se é tão critico com a comida, a Náusea já faz parte até do paladar, é apenas papelão.

— Meio quilo de Fígado Timão. Sorte que ta na promoção.

Não tinha visitas. Timão sorri de canto. Movimentos mecânicos. Tiras e mais tiras. Pesou. Porque pesa? 0, 5 Kg. Porque pesa? Girou. Apertou.

— Obrigado senhor Samuel. Boa semana.

Isso soou como devia soar: patético.


Havia 3 mensagens no Whatsapp. Timão só olhava o celular em seu curto intervalo. Era Ana, um dos únicos motivos que levava ele pensar em continuar ali, e continuar tentando (falhando).

(oi

precisamos conversar, me encontra mais tarde no Único)

Estava escrito exatamente assim. Ele sentia uma pequena pontada abaixo dos intestinos, aquela pressão gelada.


Ela estava bonita. Mas Timão estava apenas como sempre. E Único era um café barato, que ficava no fim de um beco, apenas pessoas viciadas iam lá, para se entorpecer de café, empadas e croissants.

— Oi.

Ele disse enquanto sentava-se, ela estava inquieta. Ele queria algo até que sério, mas ela apenas queria o seu pau e seu ombro. Timão não achava essa atitude ruim, ele até admirava, mas isso não deixa de machucar.

— Olá. Ãhnn… Queria falar sobre Thomas.

— O que tem ele?

— Ele vai me buscar, e eu viajarei para o Centro.

(Centro era uma cidade metropolitana, localizada no centro do estado, por isso Centro)

— Esta bem. Quando volta?

Nunca mais.

Ele sentiu o que já havia sentido, e o que já sentia, mesmo antes do nunca. E depois, do mais.


Foi visitar sua mãe.

Ela morava no asilo que era mais afastado da cidade. Ela era cadeirante. Cansou de caminhar, e quase cansou de viver, quase. Seu nome era Maria, como o da mãe de Jesus, e da puta que rodava a bolsa na esquina da casa de Timão. Pra essa ele rezava, era apenas 150, valia a pena, era menos que dizimo.

Maria Adelaide (não de Amaral, pelo amor de deus).

— Fico feliz que esteja bem.

Dizia Timão. (Isso soou como devia soar: patético.)

— Também meu filho, eu também.

Ele não sabia se isso era para ela mesmo, ou se para ele.

Isso foi a última coisa que sua mãe lhe disse, o resto foi balbucios insanos de uma mente fragmentada.


Era o dia de uma apresentação, na verdade A apresentação. Era apenas essa e nada mais.

Pegou seu celular e enviou uma mensagem para seu único amigo:

(É, eu tentei. Essa é a última apresentação. É apenas isso.

Nunca mais)


Era sua vez. Subiu ao palco. Devia haver umas trinta pessoas, apenas. O foco de luz estava nele. Seu bolso pesava. Mas apenas faria se sua apresentação fosse bem sucedida. Agora era:

— Já pensaram na redundância? Um dia vi um louco que gritava na rua: “EU SOU LOUCO! EU SOU LOUCO! Ele estava apenas de roupão de hospital, e estava desamarrado, suas costas estavam livres. Eu sabia que ele era louco porque ele estava cagado, apenas por isso.

“Mas observem uma coisa: o que faz de um louco, um louco autêntico?”

“Um dia me conceituaram a verdadeira loucura como: ‘O louco só é louco pois age em loucura achando que esta ficando mais são’. É nesse ponto que o louco que falei anteriormente entra como uma grande antítese, ou na verdade, um paradoxo. Se ele berra na rua que ele é louco, ele esta agindo de forma consciente em relação a sua loucura, ou seja, ele esta achando que esta são por afirmar que esta louco. Mas a questão é: ele estava dizendo a verdade. Ele realmente era louco. Então como posso defini-lo como um louco autêntico? Sendo que ele fala a verdade?

“O que eu acho disso tudo é que talvez nós apenas sejamos loucos mais convencidos que ele. Tão convencidos que nem cagamos nas calças.”

A plateia estava em silêncio.

Timão pensou em fazer a piada dos rótulos (que havia incrementado com a da carne), pensou em fazer uma sobre politica, e sobre a moda. Sobre internet e sobre gatos. Sobre times de futebol, e com o próprio nome. Mas porque?

Porque pesa?

Se já sabe o peso?

— Quem cair no chão primeiro ganha!! — Berrou Timão e pegou o revolver do bolso e atirou na cabeça.

Caiu como uma tira no chão. E esse foi o único momento em que a platéia riu.

(por fim Timão teve sucesso em seu Stand-Up. Ele fez o homem rir da própria piada)