As engrenagens da felicidade

O cardiologista do Heitor disse que ele precisava correr pelo menos duas vezes na semana para baixar suas taxas de triglicerídeos e, assim, ter uma vida mais longa. Deveria ficar longe das gorduras saturadas, das novas e ameaçadoras gorduras trans, dos condimentos, das frituras, massas, doces e alimentos industrializados. Heitor sabia que aquele era um bom médico e suas palavras passavam segurança quando afirmava que “a longevidade é reservada a quem pratica esportes e se alimenta bem”. Segundo o doutor, “as engrenagens da felicidade estão montadas sobre a boa saúde”.

Tendo seu norte nas palavras de um profissional da medicina, que preconiza como as pessoas devem se comportar para terem uma vida feliz, Heitor viu que era hora de dar um basta no sedentarismo. Então, nem a ameaça de chuva daquela noite dissuadiu sua vontade de iniciar um exercício leve no calçadão da praia. Calçou o tênis, entrou no carro e foi para a praia correr, criar o hábito que, segundo o cardiologista, manter-lhe-ia vivo por mais tempo. Procurava contar com a ajuda do estimulante aparelhinho MP3 que, nesta ocasião, apresentava o Lulu Santos dizendo, colado ao seu tímpano, que via um novo começo de era. Assim como acreditava no médico, Heitor também nunca desconfiou que o Lulu pudesse estar mentindo para ele, apesar de saber que artistas muitas vezes se enganam, ou, até de propósito, enganam os outros, quase sempre com a melhor das intenções, como a de agora, em que o cantor tinha a missão de vivificar um preguiçoso.

A garoa se confirmou e os primeiros pingos surgiram no pára-brisa. Mas, Heitor estava determinado a iniciar sua jornada atlética sob qualquer clima. Um atraente outdoor na avenida principal surgiu vivo, imperativo na promoção de um carro sofisticado: “Seja feliz hoje!”. Hoje, obviamente, já estava tarde para ser, mas Heitor vinha juntando uma grana fazia algum tempo para deixar o que tinha e comprar aquela máquina de design arrojado. Faria parte da tal engrenagem da felicidade ter um carro como o do anúncio? Heitor acreditava que sim. A mensagem era clara: não devemos deixar nada para amanhã, principalmente se você for um sedentário, pois pode acabar morrendo com uma veia entupida e vai perder a oportunidade de dirigir um belo veículo. Heitor estava ali, fazendo a parte dele, fazendo as coisas que lhe mandavam para criar sua poupança de dias, anos, e, assim, poder desfrutar por mais tempo do conforto que o dinheiro, quando existisse, proporcionaria.

O ilustre cardiologista falava sobre ser feliz através da manutenção da saúde, o incisivo anúncio seduzia pelo requinte, e a afirmativa de que eram as ações generosas que causavam felicidade partia de Soraia, uma vizinha com quem Heitor chegou a trocar olhares mais demorados numa determinada época de sua vida. Pela timidez de ambos, entretanto, nunca chegaram a namorar. A jovem morreu atropelada numa noite de garoa fina como aquela, em um incidente em que um carro, sem cuidado, atravessou a faixa de pedestres e o motorista não prestou socorro. Certamente quem o dirigia não o fazia dentro daquele possante de 16 válvulas da propaganda. Pessoas daquela estirpe costumam ser solidárias, têm classe, entendem o sofrimento alheio, pensou Heitor. Sendo o condutor de um carro como aquele uma pessoa feliz, por que não iria ajudar alguém a quem causou tamanha dor? Não fazia sentido.

No sinal do último cruzamento antes da orla, Heitor fechou os olhos e deu um suspiro com as duas mãos pousadas no volante até ser surpreendido por uma pedinte que apareceu para intimidar seus pensamentos, batendo com os dedos no vidro lateral. “Um trocado, pelo amor de Deus”. As gotas deixavam turva a imagem da mulher, como se ela não passasse de uma mancha esquecida na noite. Era uma mendiga com um pano roto amarrado à cabeça que, não obstante não livrá-la de ter os cabelos molhados, lhe conferia uma aparência melancólica. Ela não tinha um headphone onde pudesse ouvir o Lulu prevendo um futuro com gente fina elegante e sincera e não parecia estar disposta a dar uma corridinha para entrar em forma. “Estou sem comer desde ontem”. Também teria ela de se alimentar com saladas e sucos detox conforme determinava o senso saudável? Sim, com certeza, pensou Heitor. Entretanto, logo após abaixar o vidro e dar algumas moedas, ele ponderou sobre a vida e as misteriosas taxas glicêmicas daquela mulher e, com algum constrangimento, concluiu que ela poderia ter uma licença para ficar de fora do rol dos que consomem uma alimentação balanceada, tida como a ideal.

Exceto por um cão andarilho, o calçadão da praia estava deserto. Um vento frio procurava inibir a intenção atlética do ex-sedentário Heitor. Corpos inertes refugiados em seus apartamentos apreciavam as televisões aparentemente sintonizadas em um mesmo canal. Um aposento destoante no cenário concentrava um grupo de amigos festejando.

No poste próximo, um cartaz atraiu a atenção de Heitor. Mostrava a foto de um garoto de seus vinte anos, sorriso estático. Fazia um sinal positivo com a mão. Letras negras e grandes apareciam sobre a foto que revelava seu nome: “Leonardo Zanotti”. Logo abaixo, o texto: “O homicídio não pode ser banalizado! Amanhã poderá ser seu filho. Confiamos na Justiça”. Triste era perceber que, mesmo com uma possível alimentação adequada, Leonardo não garantiu sua longevidade.

Aquele rapaz engrossava as estatísticas de assassinatos na cidade e a família agora parecia querer incomodar os atletas da orla, longevos ou não, com o assunto. E o objetivo estava sendo alcançado. Pelo menos com Heitor, que para não ficar impressionado, desviou novamente os olhos para os prédios e casas ao redor. Notou que o carro que tanto desejava, o mesmo do outdoor, passava agora pela televisão de um porteiro do edifício de bela fachada. “Se eu morasse naquele prédio bacana, eu nem iria precisar do carro dos meus sonhos pra vir correr”, concluiu. E a festa solitária continuava rolando no apartamento, com as pessoas emitindo o ruído característico de ambientes felizes, desta vez com Tim Maia pedindo um motivo para ir embora. Leonardo e Soraia não precisaram de nenhum, foram embora sem motivo mesmo.

Mexeu no relógio para acertar o cronômetro. Respirou fundo e tentou criar boas vibrações na mente para a corrida fluir bem. Pensou na mendiga que recebeu algumas moedas de suas mãos, a tal generosidade que fazia Soraia feliz. Pensou no carro que a matou. Olhou para o cachorro revirando o lixo junto ao poste onde o finado Leonardo se descolava com os pingos e iniciou uma corrida nervosa, como se quisesse fugir dos fantasmas de todas aquelas tragédias e fixar os pensamentos apenas nas mensagens de alegria que vigoravam no seio social: “seja saudável, seja feliz, seja generoso, corra, compre, confie, alimente-se bem, não morra por qualquer coisa”.

Quanto mais o rapaz corria, mais o som alto do apartamento festivo perdia a briga com o do seu MP3, que agora passava a tocar um rock americano estranho, de letra complicada. Tantas oportunidades para ser feliz, tantos caminhos, tantas orientações e provérbios e as angústias em cascata daquela noite impedindo, de forma egoísta, que Heitor criasse as suas engrenagens.