Bernardo, cara de sapato

Bernardo nasceu miúdo, sorridente, um pouco enrugado e com cara de sapato. Depois ele cresceu, mas continuou miúdo, pelo menos por fora. Parecia que Bernardo só crescia por dentro, dia após dia, ia se transformando num gigante apertado num corpo minúsculo. O médico disse que para o menino crescer seria preciso uma injeção. Uma não, várias. Todo dia ele tomava uma na bunda e doía muito. Quando percebia que ia receber a agulhada, Bernardo subia na cama ou no sofá, apontava o dedo para cima e gritava: “Não!”. Parecia um leão, parecia o rei da floresta, altivo e ameaçador, mas a voz era de um gatinho nanico. Bernardo não queria tomar injeção, mas o pai fazia cócegas na barriga e ele começava a rir. Quando menos percebia, pou! Tomava a agulhada. No início ele chorava, depois não mais. Bernardo era forte como um leão, mas a história não é sobre isso… é sobre a cara de sapato. Bernardo tinha cara de sapato e disso ele sabia, mesmo sendo um leão, era um leão com cara de sapato. Era o segredo dele, dele e do tio. O tio perguntava: “Bernardo, você tem cara de sapato?”. Ele respondia balançando a cabeça, dizendo que sim, com um sorriso brilhante que iluminava a sala e uma gargalhada que deixava todo mundo feliz. Quando ficava muito alegre, Bernardo ria e colocava o queixo para frente, mostrando os dentes de baixo, ninguém sabia o porquê. O tio achava que era por causa da cara de sapato. Talvez o queixo fosse o salto do solado ou mesmo o cano alto de um tênis de jogador de basquete ou da bota de um vaqueiro. Os pais de Bernardo não gostavam da conversa de cara de coisa nenhuma. Toda vez que o tio perguntava “Bernardo, você tem cara de sapato?”, eles ficavam de pé, apontavam o dedo pra cima e gritavam: “Não!”. Bernardo ria do mesmo jeito, como se não fizesse diferença ter cara de sapato. Só os outros se afetavam: o tio gostava da cara de sapato, os pais não, por isso gritavam com o dedo para cima. Os pais de Bernardo pareciam leões, era uma coisa de família. Bernardo gostava daquela cena e gostava mais dos pais que do tio, por isso começou a imitá-los. Então, quando o tio perguntava sobre a cara de sapato, ele subia em algum lugar, apontava o dedo para o alto e gritava: “Não!”, mas depois caia na gargalhada, como sempre, porque no fundo ele sabia que tinha cara de sapato. O tio ficava triste, porque não achava que não havia problema algum em ter cara de sapato. E Bernardo nem tinha cara de sapato velho com chulé. Era cara de sapato de festa, engraxado e muito bacana. Tem gente que tem cara de coisas. O tio, por exemplo, tinha cara de bolacha, principalmente quando fazia careta. O vizinho tinha cara de cavalo, era uma cara comprida e com os olhos meio afastados, e o pai tinha cara de burro, todo mundo percebia isso à primeira vista. Mas o tio se conformou. Como o pai e a mãe não gostavam, ele parou de fazer a pergunta, ninguém mais deu bola para o assunto e Bernardo esqueceu que tinha cara de sapato.

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