Canção à quem já se foi

Casas do Parlamento em Londres — Claude Monet (1903)

E mesmo quando se diz tudo, as coisas mais importantes ainda ficam por dizer. Eu ainda não descobri qual foi a palavra que eu disse, que te fez dar meia volta e partir. Não sei se foi meu cheiro doce que te fez amargar em outros cantos. Doce demais, eu pensei.

Você tinha tanto medo da minha voz, que eu resolvi ter medo também. E presa feito estaca nesse silêncio, te alcancei me caçando por diversas noites com seus olhos flamejantes. A cada passo que eu dava, lá estava, me seguindo e me afastando de você. Talvez, o suor na minha pele, das tardes de verão, tenha te feito esfriar por completo.

Noites em claro procurando um motivo que se fizesse entender. Um sentido que se alcança com as mãos. Voltando mil vezes ao início, rogando e bravejando aos céus, por que num sopro, eu te perdi de vista.

Meu coração entristecido, insistiu em guardar os cacos. Dos que machucavam aos que brilhavam também, não houve desunião. E eu resolvi recolher cada pedaço desses momentos, pra compor essa canção:

No casamento do sol com a lua, 
Em meio a festa mais bonita
Naquele exato e súbito ato,
Nossos olhos se encontraram e eu já não tive mais o que perguntar
O eu que pousou em você 
E o você que se agarrou em mim, 
Agora sabiam.
Mas o incontente vento, célere e fugitivo,
Resolveu cruzar nosso caminho, 
Transformando o que era festa em medo, silêncio e desprezo.
Pergunto aos céus, que feitiço te levou de mim
Ou se é que foi a lua que te trouxe, 
Me enganou com seu dom de iludir.