CARTA A DOIS

The Love Letter (1750), François Boucher

O mundo parecia preto e branco desde Outubro. Não conseguia sentir seu corpo, todos seus músculos estavam rígidos. Como naquelas fotos da aula de História, tudo parado, antigo, memória.

Ela sabia muito bem o que estava prestes a acontecer: trancou a porta do quarto o mais rápido possível. Um sentimento de melancolia cobriu seu peito. Apenas aquele quarto parecia trazer-lhe paz. Lá ela via aquele sorriso.

Sentiu o toque quente daqueles finos dedos em seu rosto. Tocaram-se as mãos, eram do mesmo tamanho.

Sua pele era macia, e quente. Tudo nela era quente. Aconchego de uma conexão que só dois do mesmo teriam. Por fim suas pernas finas se encostaram, em um beijo. Seus shorts eram apertados e difíceis de tirar, por isso preferiram ficar ali, em inércia, olhando-se.

Há quanto tempo encontravam-se? Entre os olhares nos corredores era difícil de indicar quando exatamente. As duas bem sabiam que, quando acabasse o medo…

“Você ainda tem medo dela?”, perguntou a morena.

“Sim”, respondeu a morena.

Ele nunca vai embora. Ás vezes ele aumenta, e toma conta das nossas decisões. Ser mulher é difícil, as duas sabiam. O tempo parece voltar para nós. O relógio quebrou. Mas cabe a nós consertarmos. Somos a parte mais importante de ambas: a sociedade e a mudança. Quem nos trai e quem nos traz esperança.

Lábio em lábio. Em lábio. Misturavam-se ali as duas singularidades de cabelo, em um. Cachos embolavam-se em lisos. O corpo no corpo igual. Coração no coração que bate ao mesmo ritmo. Sangue, carne e osso.

Meu sangue também é Carmesim.