Carta ao Morto

Um texto com áudio

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Escrevo-lhe para dizer que tenho usado o Tempo a meu favor. É como estar na proa, na dianteira, para entender o próximo passo. É como estar na sela do cavalo e de repente saber que ele pode te impulsionar para frente, e você morrer de susto. Tudo pode dar errado. Tudo pode dar certo. Nas possibilidades de fogo, seja pólvora ou cinza.

Eu achava, quando pequena, que o livro surgia do nada, que o livro era uma espécie de deus. O poeta era senão um sacerdote. Era tão esquisito constatar que algo eterno poderia sair do homem, que era, indiscutivelmente, mortal. O livro era deus, mas eu não acreditava num deus maior que intervinha nas nossas vidas miúdas. O eterno dentro do etéreo, era o que nós éramos.

Eu, poeta, recém-nascido, habitava uma placenta e depois, o ar. Nunca soube lidar com essa liberdade de se tocar o nada. Por isso, toco-lhe o peito para saber se tem algo mais concreto e bem, teu coração parece muito bem armado em tramas.

E como eu soube que o homem é mortal? Aprendi com a TV, com os filmes e a artilharia. Mais tarde, com a própria vida. A morte me parecia uma narrativa. E ainda é, porque ainda não morri. Mas, foi precisamente quando um ente querido se foi, e vi que ele não mais apareceu nos anos seguintes de seu enterramento, que a morte me pegou pelos pés e me fez ajoelhar. Cedi ao desencantamento.

É por isso que ser poeta me faz lidar com a morte todos os dias. Eu sei que o verso me garantirá uma sobrevida. Espero que meu tatatatatatataraneto leia um poema meu e que ainda lhe faça sentido. Talvez me leia e ache esquisito. Será essa palavra, “esquisito”, que usarão? A língua talvez seja outra, e se refiram de um jeito novo. Agora, nesse instante, te acho “bonito”, por exemplo. Esse jeito que você arruma o cabelo, que segura o seu lápis, e franze o cenho encarando o papel. Parece que você está entendendo alguma coisa.

Escrevo-lhe para dizer que comprei flores. E parece uma bobagem porque hoje não se compra mais flores. Tudo tem a ver com a durabilidade. Elas logo morrem. Mas eu quero me acostumar com a morte, eu te digo. Com a morte de flores e de pessoas — mesmo que elas ainda habitem outros mundos, estarão mortas no meu. O mundo é pequeno, você me dizia. Eu vou encontrá-las uma hora ou outra. Eu digo: não. Não tem a ver com corpos. O que é uma carcaça de carne perto de uma alma que não conversa? Agora estou deixando meu apartamento, depois de dias sem sair dele. É uma forma de nascer no meio da semana. Preciso levar um soco no estômago da realidade. Se bem que ainda não defini o que é realidade. Sequer consigo formular uma hipótese. Agora estou deixando meu apartamento. Até então, todos pareciam mortos, inclusive você. Sei lá se escrevo para um morto nesse instante. No final das contas, estou tão sozinha. Você é uma corrente de ar, um sopro, que passa por mim. Me faz sentir tão bem. Daí lembro que só eu sei o que eu sei. Que escolher palavras não adianta. Eu sou você, quando você diz que me entende. Eu sou você. Foi por isso que sumi.