Das utopias que quase vivemos

Ilustração de capa em uma edição de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

delirante fábrica de encontros — o mais relevante deles o encontro de si consigo mesmo — , o caderno é uma grande utopia. nele, uma mente singular e singela pode revelar a temerária capacidade de criar e edificar mundos, searas, babilônias.

a cidade que eu invento esta noite é tecida pelos trajetos que você realizou. nada suntuosa, ela é feita sobretudo de sorrisos. aqueles seus involuntários, eu diria, criaram instantâneos pontos de referência. aquele sorriso, seguido de um brilho no olhar, lembra? criou uma praça inteira. aquele beijo-mácula reinventou um velho e tão-conhecido bar. a utopia que translado do pensamento para a folha tão concreta quanto amarela é essa tentativa vã de dar vida e solidificar a cidade que você foi construindo ao redor no meu delírio desejoso.

restam algumas questões de cunho técnico, ladras da minha desalojada paz. se eu arremessar este opúsculo ao mar, a cidade submerge? se eu atirá-lo, senão, em direção ao Sol, a cidade incendeia? quedará arruinada no caso de eu trucidar o libelo e avariar suas folhas? ou nada disso seria preciso para fatalmente vê-la e senti-la pulverizando no intervalo de uma piscadela?

o asfixioso drama de deixar esta cidade aqui, fechar a brochura e encarar o ponto final.

Outra ilustração de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.
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