Dionísio, o barman e a ferida.

Merda! Meus cortes abrem cada vez que tusso. Os pontos parecem estourar. Ah, como isto dói. Que ideia estúpida a de ontem à noite. Só de lembrar dá vontade de esmurrar minha cara. Mas, só iria ganhar mais hematomas. O melhor a fazer é tomar mais um gole e acender novo cigarro. Afinal, estes comprimidos demoram demais a fazer efeito. Chega de dor, basta de sentir. E enquanto Dionísio não vem me chamar para uma volta, o tabaco me distrai. — longo gole; intenso trago. Droga! Sabia que acabaria tossindo outra vez. Que vontade de esquentar uma faca no fogão e queimar estes cortes infernais. Gritaria só uma vez mais. Bem, quem sabe faça isso, logo que o álcool bater na minha mente. Com certeza não me acertará como aqueles filhos da puta de ontem. Se bem que acabei com eles. Podiam ser fortes, mas ninguém conta com um louco. Louco. Sou mesmo. Só um louco se irritaria com o que falam de mulher que nem é sua. Se é que alguém pode ser de alguém nesta desvairada vida. E lembrando, nem era propriamente dela que falavam. Só estavam a matraquear. Aquela desgraçada parece ter aprisionado meu juízo. Deve ser. Não posso fazer mais isso. Ela me tira o prumo. Das feridas, a que a odiosa fez é a que mais dói. Besteira. Vai ver que eu só estava entediado mesmo. Precisava de uma boa briga. Às vezes, essa é a única coisa que resgata nosso lado animal. Que põe ânimo nos decaídos. Espero que, ao menos, me deixem entrar no bar de novo. Gosto muito de lá. Caso tenha que pagar por cada garrafa e copo estilhaçados, por todas as mesas quebradas, pelo vidro do balcão, e por ter acertado, sem querer, o barman, vou ter que limpar o banheiro daquela espelunca com a língua, pelo resto da vida. Coitado do Felipe, aquela garrafa não devia ter pegado em cheio seu supercílio. Mas é implacável, o barman sempre paga a conta, de um jeito ou de outro. Enfim, acho que não verei mais aqueles babacas por lá. Um ou dois deles, que moram pelo bairro; pode acontecer. O certo é que mereceram. Por estarem no lugar errado, mereceram. Quem quero enganar, sou um idiota mesmo. Um louco idiota. Um idiota louco. E bêbado — gole; trago. Quantos maldizem loiras bobas, abastadas e mimadas por aí. Eu, aqui, e ela, sem fazer ideia. Na verdade, acho que nem me ofendi. Não ligo de tê-los esmurrado. A bosta foi quebrar o bar, de novo. E o Felipe, coitado. Foda-se. A briga valeu. Foi boa. Foi ânimo. Ruins são as porcarias destas feridas. Quanto a isto, mais um gole — longo — e mais um trago — intenso. Ah! Feridas do diabo! Se engasgar de novo, morro é de dor. Maldita tosse. Merda! Merda, merda… Ah. Morro nada. Morro nada… Dionísio já está chegando, cavalgando em comprimidos. Logo, não estarei mais sozinho. É… Quem sabe volte ao bar hoje. Dionísio, a ferida e eu. Passarei lá. A garrafa já está acabando mesmo. Espero que Felipe esteja bem, mas imagino que não vá trabalhar hoje. No caminho preciso comprar cigarros. Última talagada! E que hoje não ouça nada sobre desgraçadas mimadas.

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