É hospital abandonado na sua cabeça.

Escrever é doença

Escrever não é para os fracos, de coração facilmente abalável, de mente acomodada. Escrever é para quem tem o diabo no corpo, mesmo o mais puro dos cristãos. Escrever é para aqueles atacados pela cólera da ideia, que, febrilmente, escancaram a vilania da vontade aguda de passar algo para outro, ainda que se caia em deslembrança e seja lido por ninguém menos que seu próprio ego. Pois não é força de vontade, empreendedorismo ou a porra da palestra motivacional. Nada disso. Escrever é para quem tem fogo no coração.

Veja lá, há técnicas e artimanhas para o bom texto, caminhos e atalhos, esquemas, mapas astrais e o caralho a quatro. Eu sei. Mas quando os dedos ferrenhos dançam sobre as teclas, não é só conto, romance ou textão no Facebook que você traz a vida. Nesse momento, você dá cria ao monstro da inquietação, o mesmo que te atinge quando o sono desce a cancela da leitura mais emocionante. O mesmo da eletricidade que, farsante, vai embora e desliga o jogo antes mesmo de chegar ao checkpoint. Pois o checkpoint da escrita é mental, e você só o alcança depois de marcar sua vida com muita, muita frustração.

Então, meu amigo, largue as canetas, afaste-se do teclado. Isso não é vida, isso não presta. Vá viver são e saudável, vá curtir o aroma das festas e a vitória dos likes. Vá saber o que é vida, dormir e acordar sem saber como é a frustração apoiar-se, pesada, no seu peito pela noite, sussurrando naquela puta voz rouca: você ainda não acabou.

Vá, vá enquanto é tempo. Não tenho mais a felicidade da escolha. A desgraçada da doença me alcançou. Mas não é tarde. Um dia, todas as canetas vão deitar-se, os caracteres irão reduzir-se e ninguém mais precisará sofrer desse mal. Então, eu te suplico, meu amigo. Escrever é para os fortes, sim, mas não é força de bater, é força de apanhar. Me deixe aqui e vá, corra enquanto ainda é tempo.


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