Estava em uma fábrica

Kalew Nicholas
Jul 10, 2017 · 4 min read

Estava sentado. Os olhos estavam fechados e suas mãos repousavam sobre suas coxas. Os pés descalços ardiam no contato com o chão gelado. Uma voz monótona e aveludada ressoava pelo local aberto — anunciava um nome e exigia que alguém comparecesse à recepção. Ouvia o barulho de pessoas se movimentando, para lá, para cá, para lá de novo, e sentia o movimento com os olhos fechados. Tirou suas mãos de suas coxas e arregalou os olhos, assustado. O local fechado era espaçoso e o fluxo de pessoas era contínuo — bagagens, pessoas, bagagens, pessoas. Estava em um aeroporto. Levantou-se rápido e observou por alguns instantes a si mesmo. Via sua roupa, a camiseta preta, a calça jeans azul desbotado. Ao seu lado, uma mochila vazia. Em seu bolso traseiro, uma carteira sem nada. As pessoas ao redor o olharam com indiferença. Olhou para baixo e, encostado em uma coluna, um sapatênis preto.

Calçou o sapatênis e andou um pouco até a vitrine, onde podia observar seu reflexo — via uma barba ruiva bem feita, cabelos ruivos curtos, uma mancha ao redor do olho e um curativo na testa. Havia um nariz afilado, comprido e pontudo, e uma boca pequena e fina. Demorou a assimilar o reflexo ao seu próprio rosto. Chegou mais perto e observou seus olhos — castanhos, profundos, o globo ocular avermelhado. Coçou sua barba e sentiu a textura da própria pele — estava seca, como seu cabelo, sua barba e sua boca. Espirrou e secou o próprio nariz, deixando seca a única parte de seu rosto que restava. Alguém do outro lado do vidro pelo qual se observava riu, virou-se e cochichou algo a outra pessoa.

Afastou-se da vitrine e andou um pouco. Alguém puxou-o pelo ombro e apontou o indicador para a mochila vazia. Negou-lhe o gesto com o indicador balançando negativamente, para lá e para cá, para lá e para cá.

Pessoas, malas, carrinhos, bagagens, livros, celulares, para lá, para cá; homens, mulheres, crianças, meninos, meninas.

Tirou mais uma vez a carteira de seu bolso e desta vez analisou-a com mais cuidado. A voz aveludada repetiu o mesmo dito segundos antes.

— Senhor Pedro Fagundes Melo, favor comparecer à recepção.

Pegou a mochila vazia e colocou-a nas costas. Andou rápido até uma cabine onde havia três pessoas com aparelhos em suas cabeças, tampando-lhes os ouvidos. Guardou sua carteira em seu bolso, sem encontrar nada.

— Ei — disse ele, pela primeira vez ouvindo sua voz. Era grave, aveludada e cansada. Bateu com a ponta do indicador no vidro que o separava da mulher de olhos azuis vibrantes, cabelos loiros, pele branca e maquiagem em demasia.

Ela tirou o aparelho de seu ouvido e dirigiu a palavra a ele.

— How can I help you, sir?

Não respondeu. Fitou-a, confuso.

— Need some information?

— Eu não sei qual é o meu vôo. Vocês não falam português?

— Sorry. Hold on for a moment, please.

Apertou alguns botões e voltou a olhá-lo.

— Qual o seu nome? — perguntou ela.

Ele olhou-a, confuso, mais uma vez. Olhou ao seu redor. Há minutos se fazia a mesma pergunta. Deu dois passos para trás e esbarrou em uma mala; tropeçou e caiu por cima de uma criança, que irrompeu em choro. O dono da mala virou-se para ele, seguido pela mãe da criança.

Correu. A mochila ficou para trás e a carteira despencou de seu bolso com o movimento de suas pernas. Chegou ao local onde lia em letras grandes: EXIT. A porta abriu de forma automática com sua aproximação. Olhou para trás e, em meio ao movimento constante de pessoas, dois homens apontaram em sua direção. Eram altos e vestiam terno e gravata. Andaram em passos largos, comunicando-se com pequenos aparelhos. Um homem à sua frente, escorado em um carro amarelo com uma faixa azul e vestindo a mesma roupa, pegou um aparelho semelhante e fez um gesto para que parasse. Os dois homens o alcançaram e apalparam-no todo, passando por sua calça, sua cintura e sua camiseta. Deram-lhe um empurrão e saíram andando, apontando e correndo mais uma vez. Deu mais três passos longos, correu e sentiu algo bater forte em sua têmpora esquerda.


Estava sentado. Seus olhos estavam fechados e suas mãos repousavam sobre suas coxas. Os pés descalços ardiam no contato com o chão quente. Uma voz monótona e áspera ressoava pelo local aberto — anunciava um nome e exigia que alguém comparecesse à direção. Ouvia o barulho de pessoas se movimentando, para lá, para cá, para lá de novo, e sentia o movimento com os olhos fechados. Tirou suas mãos de suas coxas e arregalou os olhos, assustado. O local fechado era espaçoso e o fluxo de pessoas era contínuo — materiais, pessoas, materiais, pessoas. Estava em um fábrica.


Originalmente publicado no blog www.insanidadesliterarias.com.br em algum momento inespecífico de 2015.

Ensaios sobre a loucura

Puxa uma cadeira e senta no chão. Não tem chão (capa: erikjo.com)

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Escrevendo coisas de qualidade duvidosa desde que aprendi a escrever meu nome. | kalewnicholas.com

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