Falha

Falho como filho, falho como pai, falho como espírito, falho como santo.
Falho como homem, falho como pele, falho como falo, falho como tristeza.
Falho como espécie, falho como átomo, falho como ácido.
Falho como domingo.
Falho como mentiroso, falho como verdade, 
falho como vento, falho como tempestade.

Falho como falha, falho como acerto, falho como adereço, falho com seda.
Falho como soco, falho com absurdo, falho como sensatez.

Falho quando não rasguei tua pele,
estraçalhei teu rosto, trucidei teu peito,
quando rasgastes minhas folhas de libertação,
quando impedistes minha alma de viver minhas vestes de Maria Carupitina.

Pois falho como objeto, falho como estudo, 
falho como mudo, falho como calma e café. 
Como manhã falha como apreço, 
falho como pressa, como mágoa falha, como presa.

Falho como norte suporte, como suportar, 
falho como palavra como som como surdez.
Falho como lucidez, como Lúcifer, 
como loucura falho como sanidade.

Como as folhas tentam rasgadas em vão oxidar o ar,
o concreto ejaculado em minha face açoita o vento gélido,
como as mulheres das esquinas Indianópolis, Augusta e Jockey,
como a dor pelo canal lacrimal anal que insiste em não curar,
a estatística amorosa torta, rota e morta.

Como o peito em remendo em catarro ardendo,
os trilhos dessa glande maltrapilha trapezista,
como a manipulação morta da oposição do polegar.

Falho na espera que cinzas de cigarro homeostasem meu hálux torto,
como a pretensa diferença entre viver e apanhar.
Falho como remédio vencido,
aflição de passear pelo centro,
aromatizante que não cede ao esgoto da República,
bituca a dilacerar cama betulácea,
como nariz escorrendo,
rezando pelo remendo. Como o vômito a esperar o fim do mundo.

Pois na falha não existe diferença,
apenas a homogênica fração que nos amalgama,
em pernas doloridas pela inércia na esteira cordão metalizada.

Fusão fria transforma em degrau rolante,
o passo então é célula deambulando trôpega.

Suado nos capilares,
morto em degraus que rompem a falha óssea,
eclodem lava metálica dessas hemácias humanas

- apoiando-se em corrimões pretensamente seguros -.

Mas o caminhar é falho em todos,
a miséria é amante da falha,
uma única entidade sacra que nos une,
e não o arder do prematuro ao beijo.

E essa falha nos une.
Nos trilhos vivos abaixo dos pés sangrando, 
sangrando e humilhados,
sangrando humilhados e nojentos,
sangrando humilhados nojentos e purulentos,
sangrando humilhados nojentos purulentos e mortos.

Mortos pela miserabilidade que se aproxima aos largos passos,
e galopa mais uma vez em meu útero,
arromba meu próprio meio interno.

Miserabilidade em meu prepúcio colorido em restos de porra triste,
restos de miserabilidade que mais uma vez reside,
resiste,
luta.
Ejacula a vida que encerra no fim dos meus sonhos,
enfim o mundo ejeta o pus,
transborda essa miserabilidade repleta em anonimato do metrô,
nos rostos que vagam por palavras vazias em trens sem pressa
no veludo da voz de fellaccio robótica do metrô.

Miserabilidade Armênia,
Portuguesa e Tietê,
mais uma vez traqueja o que restou de minha doente alma,
sem peso na virilha impotente,
como esse pau murcho alojado em minha calça.

Miserabilidade que bate em êxtase acalmando a morte,
força o caminho da sombra a respirar por entre meus dentes sujos de sêmen,
auto ejaculado na minha faringe — completa em miséria -.

Miséria que atrasa o passo,
torna o presente em dez anos atrás,
sucumbe o hoje por milionésimas acetilcolinases sorumbáticas,
sucumbindo a libido.

Poluente exalada nesse assento na porta do inferno em flexão à zona norte,
conduz o esmegma em meu cérebro,
ao encontro de parentes que escondem opiniões,
sobre minha miserabilidade.

Miséria que me acompanha desde a infância,
por entre os azuis e verdes bolas de resina,
o resquício pedante de meu aprendizado masturbatório,
no feltro verde nojo ardente, nas calças em vergonha do silêncio materno.

As fotos coladas secas,
por entre as folhas duras inexatas repletas sêmen seco,
translúcido e abortado natimorto.

Aleluia!
Aleluia!
Aleluia!

Amém punheta!
Amém fotos corroídas pelo meu pecado original.
Catapultadas no silêncio metabólico de meu pai.
Compradas de maneira simples e decapitadora por minha mãe.
O pôster ilustrando minha miserabilidade do inalcançável.
Minha miserabilidade masturbatória canhota…

Seca minhas bolas do esperma,
auxilia a luz inalatória marcelina de cena sórdida,
do desamor adolescente.

Amém javaronesca castecina sórdida,
que mostrou o sabor do gozo na rede de sinuca.

Assim na masturbação falho,
como todos.
Como todos falhamos,
como caminhamos por entre o desamor do funk metálico,
uma aliança estreita bate o anelar ao redor de um cabo.

Criança de hecatombe boca,
em tosse escorrendo os alvéolos pelas laterais,
que ao meu lado anda.
Caminho por entre os nós da forca, 
na direção do cartesiano preferido rezado pelo laço,
pois não existe o cavalo redentor apenas esperanças em migalhas necessárias.

Espero então esse trem em ombreiras cruas, 
exalando meu sangue por entre os trilhos,
um mamilo em vermelho e azul uma luz sem túnel.

A matriarca de todos os hálux alumia minha vivalma,
transpassa meu odor mórbido de anos a fio,
crava por debaixo de minha unha a lasca da redenção,
eu enfim caminho pelas falhas.

Pelo clarão acima de minha cabeça,
quando atingirmos a estação certa,
primavera periférica viva em inverno cinza.

Caminho por entre os mortos meus pares ateus, católicos,
bucólicos, cólicos, judeus,
muçulmanos, brancos, negros,
por deus [que não existe] e o diabo quimera.

Caminho por jesuítas, indianistas,
Indianópolis traficada pelas ruas e suas poças reflexivas.
Caminho por entre o mormaço dos budistas,
pelas amarras dos holísticos,
nas velas do candomblé.

E meus pés sucumbem à inoperância do vomitar palavras,
do amar até quando o cérebro apodrece.

Do sentir teus lábios frios em cada último suspiro,
de meus ventriculares pseudópodes,
em cada ambição que beija a esquizofrenia.

Pelas calçadas que cheiram fezes humanas,
em cada amém ao caminhar através dos escombros da alma.

Caminho por entre sonhos nada úmidos sem direção,
pelas arestas do que restou de convicções indesejadas.

Caminho pelo resto de pele que despenca nos cantos da máscara,
encomendada através da genética helicoidal do pós-modernismo.

Caminho por entre o nascer de minha dentina suicida hemorrágica,
em cogumelos esverdeados,
transitando pela paz da consciência da guerra inerente.

Caminho para o único caminho que existe,
a única certeza chamada morte.

O pesar por não mais ser e não por não mais existir.
E mesmo assim falho [amos].

Falhamos em mostrar alegria ao sair do escuro poço,
em demonstrar medo através da carne e osso,
falho em sorrir por conseguir,
em chorar de alegria por conquistar,
piedosamente o corpo busca ópio etéreo do incerto,
colapso cerebral que falha,
pela centelha do fazer certo,
o caminhar sem tempo.

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

Pulsa por entre o occipito,
sentindo a lava escorrer a dúvida ao longe,
apertando um clipe no bolso onde a artéria lateja,
o trocadilho metálico rodando sem norte,
profundezas na coxa abrem caminho,
então itálico manto de azul tinta,
em jatos descendentes uma horda,
perdendo-se em gás,
corroendo borracha pneus e seda,

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

A mesma que agora me volta a punir incrédulo calor,
a mesma que me faz segunda nesse corredor de borracha,
a mesma que sucumbe minha dor e coloco sorriso nos trilhos,

que destoa o tortuoso penar do destino cármico,
a mesma que insiste em sugar meus testículos mortos,
que residem eternamente em minhas pernas.

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

Açoita enfim minha morte lúdica,
arrasta essa areia sem tempo,
afasta minha memória do verbo,
anima vivalma em oco pesar,
acalma a artéria teimosa em eclodir,
ajuda no embarque preferencial,

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

Estupenda vontade em renascer,
equivalente intumescer dos dedos que aos poucos,
sentem o pulsar da vida nos poros,
explosão de passos trafegando abertamente,
por entre as velozes máquinas de ATM motorizadas,
deslocando vozes metalizadas,
equinócio da vida que retorna aos mares de calçada,

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

Mais uma vez a voz calada sente,
o pulsar convexo da vida no vapor humano,
transbordando aos poucos a lava alegre,
que aos poucos concreta os resquícios de marasmo,
por entre uma e outra ejaculação de sálica quente,
que aplaca o ácido do estômago,
abençoa assim o jamais abençoar a realidade,
mata assim as marionetes destinadas,
ao cartesiano do mundo poluente,

Ve-lo-ci-da-de,
ve-lo-ci-da-de.

Salve-nos todos,
salve a velocidade do respirar,
e saber que é a única maneira de mudar,
salve a tortura do não querer,
salve a velocidade,
aplaca esse fim,
transforma a vida embutida em podridão no eterno pulsar,
para que enfim o mundo possa abrir-se em velocidade de mudança,
próxima estação Luz.

Sentir-se vivo é eclodir a velocidade do sentir,
cada fase sináptica de tua respiração no asfalto,
rolar dedos nos orgasmos vitalícios,
dentro dessa vagina seca de concreto encanamento e poluição,
sentir cheiros de antigos amores dentro do querosene,
pelo suor de andar como louco,
o amor pelo óleo a escorrer pela testa,
pelas curvas de nível de seu corpo e o óleo em sua testa.

Assim vive-se,
assim liberta-se
assim a redenção torna-se oxidado cobre,
assim a velocidade se faz,
assim se faz a velocidade e a vida.

Pois a vida se nota quando a porta se fecha,
as luzes se apagam em sintonia com a incerteza,
quando nos une a falha e a miséria liberta,
nos une na escravidão do pós-moderno,
porém tilinta a vida pelo gás da chaleira pela manhã,
por teus dedos por debaixo do edredom,
chamando meu sangue espanhol translúcido e quente.

Pois a vida se nota no pior dos dias,
fantasia do suicídio refletida em jaleco branco,
máscara sem herói apenas vilania da alma,
apenas farrapos lutam contra o vento,
pois a vida se nota na bolha do hálux,
água do pisar em lava,
maniqueísta sem querer nada a não ser o que resta da vida,

Pois a vida se nota no desamor,
na redenção na amargura no gozo na merda,
na nascente cristalina do pus no querer,
a vida se nota no brigar com o cartesiano dionisíaco destino amorfo,
por entre as opulentas virgens católicas,
opressoras da consciência humana.

Cortem suas gargantas para que possamos notar a vida,
cortem suas gargantas familiares,
pois não há luz sem a morte paradigmática,
cuspam ácidos por entre as denteadas vaginas,
dos séculos dos séculos dos séculos dos séculos,
eclodir repressão no cerne materno,
atira longe esse leite da teta cabresto,
julgar tua vida como inóspita.

Pois a vida se nota quando sua alma clama o ódio aos pais,
e o amor da ruptura quando o terno férrico torna-se,
na alvorada do jorrar sangue pelas têmporas em desatino de vida,
pois a vida se nota no ardor da loucura,
no suor orgânico cultivado nas ressacas diárias,
no limiar da realidade a bater,
no reprimir a dor do dilacerar amarras,
no fugir em desabalo do vulcão,
no atordoar a glande com saliva anestésica no arfar do coito,
nos seios intumescidos rodeados por uma insana língua,
nos lábios grandes e pequenos a sublimar uma nota em meio tom,
no soco no sangue no oco,
no espaço entre o latejar e a espera,
no impulso do pênis a precipitar nimbos cúmulos,

a vida se nota na falha da vida que acaba cedo demais,
tarde demais atroz demais algoz demais,
acaba nesse estado de falência imunológica,
através da televisão em movimento nas plataformas,
pois a vida se acaba nesse cansaço em descendência,
escorrendo pelos pés na Voluntários,
nas rugas oleosas cobertas por um pedaço de papel azul barato,
nas trêmulas falanges digitais que percorrem ideias imaginárias,
expurgadas como vírus silenciosamente por estrondos faríngeos,
a vida acaba assim em carne semimorta na hora do rush,
parada seca de um saco transgênico e prateado,
suco da saliva sem marca,
bala seminua esquecida na borracha seca e negra e semi única,
fraco braço deambulante auxiliar insípido e sem inércia,
trôpego alívio do arroxeado vitiligo a balbuciar o destino,
sem equilíbrio,
falta de espaço para coagular as sedimentadas células,
de uma clave tossida escarrada e assimétrica,
assimilada nas narinas alheias,
olhar em desencanto vertido pelo amianto em lava,
que escorre por óculos escuros coloridos de acetato vinil,
velocidade da amargura desses trilhos insípidos,
estáticos elétricos semideuses mortos,
má educação gordurosa cheirando a alho,
escorrendo pela epiderme sentada no fundilho da sinapse,
asco sentido como ácaro,
corroendo suas coxas coxas,
masturbando a decepção em ainda persistir em respirar,
oco do olhar de perto transversal raio de Luz Armênia.

A vida acaba na lateral do rio poluente,
abraça o destino escrito e dirigido como se fosse único,
nas paralelas veias do cachimbo a subir pelas rolantes escadas,
em nuvem ocre de gosto metálico,
dai então a final lata perfurada por pequenos garfos,
completa por um berço de cinzas,
a ninar as únicas pedras que dissolvem e não rolam,
e a vida assim se nota,
nas beiradas de uma metamorfose vazia,
em alma sem ecdise na falha de viver assim sem o mim,
assando condimentos aéreos sem gravidade,
em malemolentes males de uma Ulissiana máquina de moer carne,
também chamada de estado,
um martelo dentro do exército de cabos hipnotizados,
caminham na direção do fim,
atemporal miopia de vida que se nota,
assim no pavor feminino,
na tentativa inerte de um cavanhaque semigasto,
em deixar sua loção amanteigada encostar-se aos braços delas,
notas de saliva dele a procurar coincidência que o mantenha ereto,
esperança masculinizada capitalista paternalista fétida,
em pensar que o pavor feminino é a equalização do desejo,
entradas laterais profundas no cabelo,
anel cafetino me enrosca na sujeira do cavanhaque,
esperança machista em cada testículo em ser meramente desejado,
e mais nada.

A vida se nota no vômito feminino apavorado,
por ser encarcerada entre semi-grades da cadeira plástica,
presa pelas células suadas que reluzem poeira,
na falha da sedução no grito de nojo,
feito em silêncio nos grilhões do metrô Neandertal,
entretanto existe a falha na consciência em notar a vida,
reflete o vazio com raiz na alma, e, mesmo assim ela segue,
dentro desse caleidoscópio soturno que enterra fundo as vontades,
o perigoso jogo do não sentir nada,
nuances de um colorido vazio que teima em enganar,
engenhosas entranhas depressivas,
então assim a vida finge esvair-se por entre o medo do escárnio,
escancarado por uma alegria muda,
uma nota trova em clave dolorida,
a sensação do abismo pleonasmo que insiste,
em encobrir os menores sorrisos,
dor do sol pulsando em seu pulmão menor esquerdo,
sangrando esse desejo em explodir [vida],
mesmo suprimido pela lenta órbita,
que se torna descendente e seca,
mas é preciso entender que esse monstro,
existe deve ser ouvido,
sentido,
cheirado,
tateado,
copulado,
mas deixado de lado,
essa indiferença cinza com a vida deve passar,
como tormenta mórbida e resta,
assim suspire a vida,
pulse a vida,
queime a vida,
veja a vida sem desamor,
recorte a vida em feridas,
monte a vida em febre,
equacione a vida sem lógica,
perca epilepticamente a vida pelo caminho,
das sinapses involuntárias do arrebatar,
o coração.

Note a vida em esperança dentro de olhos que não são os seus,
vomite a vida no semblante esquálido e cancerígeno,
que expele fumaça pelos poros da parede,
intoxica a vida nesse pulsar incessante de raiva,
odeie a vida pela inexata compaixão ausente,
amaldiçoe a vida por cada dia onde inspirar,
colaba dissabor,
um odor dissolvido cerebralmente pelos enquadramentos dessa janela,
em movimento,
o ar rarefeito açoitando as gônadas perpetuadas pelo cheiro do desespero,
então socorra a vida pelas convexas claves blacknianas dealizadas,
ignore a vida em duplicidade,
cambaleie a vida egoísta que se esconde nesse par de fones,
encurrale a vida quando deposita suas opiniões moderadas,
pulse a vida como os canos em lava de Crackity Jones,
por fim abençoe a vida em la la la love you,
escorrendo pela dentina um sorriso desavergonhado,
mas antes comprima a vida em um oitenta polegadas dos Pixies,

Mas a vadia vida teima em mostrar o erro da realidade,
gutural seca e gélida como beijo no concreto,
da marquise na estação coberta pela ventania superior,
perceba então a divisão da vida em castas,
castas que revelam a falha dessa realidade pós-moderna,
selvagens e civilizados bucknovikianos,
dividindo não mais ilhas isoladas por dez continentes restantes,
mas o mesmo asfalto abjeto refletor de escaras,
o amálgama dos heteronômios heterogêneos,
não existe mais divisão,
e é tudo divisão,
selvagens vestindo se de retalhos,
em cinza e marrom escuro reconhecendo-se pelo cheiro,
viscerais faringes rasgadas monossilabicamente,
reúnem-se,
usam as vias como altares,
derretem-se pela trama dos cobertores em um dia de sol,
fundem-se ao asfalto dividindo o calor no frio concreto,
formam sindicatos da alma humana em sombra,
não querem o sol monopolista,
católico,
evangélico.
Oxigênio provém alimento,
fotossíntese que redescobre a cadeia genética modificada,
a mais sensível liberdade,
selvagens são deuses pagãos de Galeano,
livres de amarras atreladas aos bocais,
livres em assepsia literal,
livres como dedais soltos multicoloridos no lado escuro da lua,
livres como o idioma,
livres do segredo higienista,
livres para escolherem a paranoia,
ou a morte;

Livres das amarras cristãs e protestantes,
livres para serem tudo o que a sociedade esconde,
no mais fundo sináptico concreto armado,
livres como uma vagina úmida,
livres como uma artéria peniana a latejar,
livres ao relento extravasando os berros pela rua,
pela loucura que é sentir a vida,
pulsam e são livres para pedir doar amar,
livres como cães do mato alados de vivalma.

Selvagem o povo maltrapilho,
é a essência humana pura,
não mais escondidos longe das pinturas dos bairros altamente monetários,
selvagem a ode ao sobreviver aos trancos e barrancos nas marginais,
ensinem ao resto de nós a língua nativa,
do viver em harmonia com o desacato nazista,
criado pelo amante de Maria Madalena,
guiem essa nação cega e falha a degustar,
o cotidiano cercado farpado segregacionista,
pois sois vós selvagens a evolução do vácuo onde se encontra nossa alma,
não mais nas gravatas e discursos,
necessitamos agora do pó calcificado de cor negra debaixo das unhas,
gozando da liberdade do não ser coisifiquem seus algozes,
filósofos detratores elitistas e descolados,
pois são a quimera alquimizada em trovão da evolução,
o polo centrípeto desenhando um raio de salvação em cerebelos brancos,

unam-se selvagens mendigos marginais negros gays lésbicas canabistas cocainômanos, sedentaristas poetas fracassados escritores do caos, malocas favelas comunidades entidades perdidos da psique, periféricos habitantes dos buracos viadutinos mascarados arlequins sem baile, mães órfãs pela estocada do fuzil em seus úteros vazios, sem teto sem lar sem terra sem meio sem começo sem futuro enfim,

porque precisamos do ensinamento dessa brisa de preguiça,
da intermitente chuva ebulição do mormaço posterior na caminhada,
das gotas varrendo os restos de pólvora dominical,
da água embalando o ninar do apocalipse que não chega aos créditos,
das trovoadas que cercam a capela roxa no horizonte,
absorvendo limites destruindo limites do pensar,
dos raios aquosos desmoronando barreiras do inconsciente nas sinapses,
da chuva horizontal antifísica que se aninha no seco peito.

Pois é na chuva que a máscara da falha de desfaz,
a mesma falha que nos une,
a mesma do calçamento podre nas ruas do Baixo Centro,
a que forma insípidas poças onde os focinhos procuram o mictório
a falha que percorre os pictóricos do Elevado,
a cravar seus pseudópodes pela cicatriz ainda aberta no rosto do pastor da Sé,
que reside na merda deixada dormente,
tateando os ósculos nas calçadas dos Campos Elíseos,
a falha que se esconde no concreto do viaduto dos Bandeirantes,
a ruminar a lama do calçamento na República,
a revelar o medo da descoberta quando se abaixa o vidro,
na Avenida Indianópolis,
a falha que desafia a morte estampada no coldre frio da automática dormente,
dona do traficante da Rua Alba,
a rezar pela lama dos pastores da fé na Avenida São João,
a mesma falha que caça os viciados na fonte da rua Ipiranga,
a despejar do centro as vidas que se alojam na esperança.

Falha que não deixará de ser falha,
pois se esquece do estremecer da lágrima sobre o sangue,
esquece que o sentir matará a fisiologia exata do corpo,
esquece que o sorriso destruirá a equação formal.

Então a liberdade será completa,
pois ela só é visceral e selvagem quando,
deixamo nos estuprar pelo sentir.

Venha então pois fálica lágrima e largo sorriso,
amantes do sentir,
roubem essa dentina esquecida,
matem essa ecdise morta e libertem a alma,
deixem esse revés por parecer próximo do absurdo,
essa realidade inexata é mais completa,
humanizem as articulações de outrora que estão podres,
invadam o cartesiano tornem a todos nós selvagens,
loucos com arroubos de pensamentos livres,
como criança a soletrar seus saltos em inglês pelo metrô,
sentir reduzirá a última união mórbida do ser humano,
pois mesmo que ela ainda nos uma ela é o poço
o fundo sem fim desumanizado,

a falha é o resto do nada,
vive nas camadas proteicas e morrerá pelo sentir inexato,
através da metralhadora ventricular esquerda.