Fase terminal.

Naquele quarto estávamos só nós dois. O silêncio dividia a mesma fresta e entrava junto com o frio. A luz meio-acesa, a mala aberta em cima da cama e o último botão da camisola solto faziam daquele momento um dos mais tensos que já vivi. Em meio aquele caos, a única saída era tomar partida frente ao acaso e, dentre as opções, escolher a menos prejudicial.
— Tu me perguntas qual o meu problema? Tu perguntas a mim, um cara tão eu quanto eu; tão finito de palavras quanto um dicionário; tão suscetível a erros quanto um cálculo feito a lápis. Tu constantemente questionas o meu erro e achas que eu tenho posse da resposta, mesmo sabendo que eu nunca te julguei, mesmo sabendo que nunca fui passível de conhecer o amor, o verdadeiro amor presente no coração dos inocentes apaixonados. Sou fruto da indecisão, do impasse e da ingratidão, sou filho da esperança, do escopo e da vingança, descendente do penar, do querer e do não-realizar. Faço memória falsa no meu pensamento cego, crio ideia errônea e planejo insucesso antes mesmo de agir. Vivo da sinestesia constante, minha realidade é onírica e de nada me serve o saber empírico. Sou, tu sabes, apenas a raspa do romance literário.
Ela, sem pestanejar, ficou em súbito silêncio e, enquanto eu falava, percebi o quão absorvera cada palavra que eu estava proferindo. Quando ela ergueu a cabeça, continuei:
— Sabes o que é engraçado? Dediquei-me totalmente a ti desde quando prometemos assumir este compromisso fútil que se tornou. Abdiquei dos meus prazeres prévios e esqueci até mesmo quem eu era. Ou seria. Me tornei outro e, pior que outro, me tornei quem eu criticava e jamais pensaria ser, tornei-me o inimigo oculto das minhas falas, a oposição do meu caráter e quem me conhecia, e me conhece, afirma tanta significativa mudança, um mundo inverso.
Após alguns minutos dedicados a vez do silêncio, ela ressaltou:
— Não precisa ser assim. Você sabe que não precisa ser assim. A gente precisa conversar melhor, Cláudio, quando a cabeça esfriar. Vamos dar um tempo e conversar de novo.
— Conversar? Conversar sobre o quê? Conversar ou resolver? Solucionar? Eu não vou voltar, Maria, não vou. Tu sabes que não vou voltar. Por doze anos eu voltei, Maria, doze anos…
Nisso saiu do banheiro o amante, Carlos. Limpou as mãos na calça e tirou o celular do bolso. Viu a hora. Olhou para Maria e saiu do quarto.
— Cláudio, não vá…
— Tchau, Maria. Essa é minha hora. É hora de eu começar a escrever outra história. Este livro termina aqui. Ponto final.
Trombei com o Carlos no térreo. Um mero contato visual foi o suficiente para eu lhe dizer tudo que queria falar. Continuei a minha vida.