Foi por medo de avião

O avião está caindo. A frase — dita assim, crua, sucinta — carregava um quê de fantasia, uma situação cinematográfica que nunca imaginaríamos um dia experimentar, daquele jeito mesmo, um evento real, como se fosse uma turbulência qualquer. O anúncio foi feito pela aeromoça — não daquele jeito, assim, olha só, gente, o avião tá caindo, mas dito de uma forma bonita e com floreios — era meio chique dito daquele jeito, até — , pra ver se prevenia um desespero generalizado.

O que pensa alguém em um avião caindo? Me fiz essa pergunta dias atrás e alguns diriam que foi maldição. Mas aqui estou eu — o avião está caindo e não sei no que pensa uma pessoa nessa situação. O piloto, no que pensa? Nos filhos? Ele tem filhos? Os filhos pediram um avião de brinquedo, disseram que queriam ser iguais ao pai, piloto, e agora ficariam esperando em vão pelo seu retorno — meio melodramático, mas vá lá, o avião tá caindo, é meio difícil não pensar nessas coisas.

Deveria eu pensar em soluções? O piloto, no que pensa? Existe solução pra avião caindo? Avisar à torre pra estender uma cama elástica gigante — ri. Não sei se é adequado aceitar o fim das coisas — me parece conformista, talvez niilista, aceitar que nossa vida não faz sentido, nossa existência muito menos, que não tem por que se preocupar, que uma hora ou outra aconteceria, que todos nós vamos morrer, eu de ataque cardíaco, o passageiro ao meu lado atropelado, o do banco de trás morto por uma bala perdida, o piloto por causa da tampa de um bueiro na Avenida Rio Branco. Era mais fácil morrer todo mundo de uma vez — vai ver a morte só tá economizando tempo.

No rosto do passageiro do meu lado dava pra ver o desespero plácido — ele não parecia sentir nada, mas com certeza sabia que ia morrer, a diferença era que ele já tinha aceitado. E os outros, como estavam? Eu pensei naquele papel que a gente assina quando compra as passagens, o contato de algum parente em terra, aquele documento que já assumia a possibilidade da minha morte, e eu fui obrigado a colocar o número do meu chefe — logo do meu chefe, que certamente vai reclamar que eu tô atrasado pro trabalho, pra só aí ligar a tevê e ver o noticiário, ver que um avião caiu, talvez ele imagine de cara que é o meu, e em seguida ele recebe a ligação informando sobre o ocorrido, e ainda vai reclamar que eu coloquei o nome dele pra segurar esse pepino.

O ruim é esse mesmo, pensar que não vai ter ninguém lamentando a minha morte, que não vou virar trending topic no Twitter, e se eu viajasse com alguma mulher seria até mais tranquilizador, um último beijo antes de queimar na fuselagem do avião — a música do Belchior surgiu inevitavelmente e eu comecei a cantarolar: foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez na tua mão. Não servem conhaque naquele avião e eu não tinha cetim pra tocar — muito menos a mão de alguma moça.

O desespero que se seguiu era o já esperado — o sem-número de pessoas em choque, desesperadas, sem saber o que fazer diante da morte inexorável que espera cada um de nós se deliciando com a exasperação dos passageiros daquele avião de destino infeliz. Eu olhando pro mar que se aproximava, o Rio de Janeiro sorrindo pra mim como se não soubesse o que estava acontecendo, ou sabendo e se deleitando com a minha morte. Lá em baixo estão as pessoas que vão saber da notícia, vão fingir um pesar, vão fazer correntes no Facebook em apoio às famílias das vítimas, e meu nome não vai ser lembrado nem no obituário. Tudo isso culminou no avião chocando as rodas contra o chão e no piloto dizendo com o maior cinismo que eu já ouvi:

— São sete e cinquenta e oito da manhã e fazem vinte e oito graus Celsius. Bem vindos ao Rio de Janeiro.