Havia algo do outro lado da ponte

Relato onírico

Paris Bridges — Marcelle Brunswig

Existe algo do outro lado da ponte. Você não sabe bem o que é, mas tem algo do outro lado, e atravessar é necessário — não se precisa entender nada para saber disso.

Existem aranhas na ponte, grandes aranhas. Aquilo é assustador, não se sabe determinar o quanto. Mas há algo de intrigante nas aranhas: elas desaparecem quando você deixa de acreditá-las. É aterrorizante perceber que nada do que se acredita é real, e isso não impeça nada de sua natureza nociva. Mas atravessar ainda é necessário.

É claro que o medo existe, é o mais primordial dos medos: o da loucura, ou ainda da morte. Mas é preciso atravessar — as lembranças mantém isso em sua cabeça. Você já havia atravessado outras pontes antes, com outras aranhas no caminho. Essa é a única coisa que o impede de cair, imergindo nas águas fundas em volta.

Não se trata de coragem em si, mas de confiança, talvez lucidez. Se confiasse na travessia saberia atravessar, você sabe disso. Sabe, pois já atravessou. Sabe, pois possui um corpo. Sabe, pois existe algo do outro lado da ponte…