Me-mó-ri-a

O vento me trouxe uma memória desnecessária
e, enquanto eu subia a montanha,
desejei que ela pudesse ir para outro lugar
embora não soubesse se isso era realmente possível.
As ruas tão cheias de carro me perturbavam
e o tédio desolador do passar dos dias
e a lembrança das coisas que nunca existiram
a estranha nostalgia de tudo que nunca se vai,
porque nunca realmente vieram.
Mas a memória do vento perturba porque é verdadeira —
são os passos de um transeunte na noite escura, atrás de mim —
eu que não tenho medo da noite, passei a ter
das horas que se arrastam durante a madrugada,
das sombras que espreitam no canto da mente.
E eu que tenho medo da morte
percorro a estrada em sua direção à passos largos: autodestruição dolorosa e calculada
que cada parte de mim se desfaça em dor — ainda não será suficiente,
que tudo que há em mim transborde, vaze, inunde, afogue.
Que o desespero e a culpa me queimem: sou álcool, gasolina,
sou fogo e carne e um emaranhado.
Que tudo se desfaça — em mim — menos a memória,
a dor ainda viva, que medo tenho de esquecer tudo
tudo que havia antes da dor — e é o que acontece.
Minhas memórias em um quebra-cabeça em espiral,
os anos não existem: existe um nó, dois, no novelo,
não uma linha, o tempo das linhas acabou
(e ele ao menos existiu?)
junto com o medo do fim
resta o medo de mim e das mãos que podem destruir.
Eu sou vento, tempestade, um emaranhado de novelos,
algo que se arrasta e grita — através do vento, da memória.
Me-mó-ri-a.
A memória que o vento me trouxe numa tarde quente
enquanto andava pelos corredores.
O fim do corredor me assusta, tem cheiro e gosto de perda,
vou sobreviver como, se vivo em pedaços?
Tiraram um pedaço de mim no fim do corredor
Deus, o Demônio, o Tempo,
qualquer um deles pode ser culpado.
A memória que o vento me trouxe tem gosto de dor,
de nó na garganta, de uma linha que se parte,
de braço arrancado, de tesouro que se perde.
É minha culpa — deus, o demônio, o tempo, o vento —
não tem nada a ver com o que restou.
Eu deixei as pegadas e as segui até encontrar a dor,
tão pequena e frágil — mas veja o que se tornou.
O vento me trouxe uma memória
nas horas infinitas da dor — e eu só queria, pelo menos dessa vez —
que ele a levasse para longe e a deixasse no fim do corredor.

