meia-boca

romance de cinco páginas

Foto: Gianfranco Briceño

Vou te contar, caro amigo. Lhe explicar o que ninguém diz, a verdade escondida por trás das páginas, na ponta das canetas. Permita-me ser audacioso e apresentar uma teoria. Gostaria de guardar em segredo, mas não sou capaz.

Vou lhe contar.

Sabe qual é a verdade que todo poeta odeia? Não? Pois eu te digo. A verdade é que todos aprendemos por em palavras a dor de um coração quebrado. Os nossos corações quebrados.

Se tivéssemos que escolher entre o amor verdadeiro e a poesia, escolheríamos o primeiro. Mas nunca foi dado opção, então ficamos com as palavras. É isso que todo poeta odeia admitir.

Odeia admitir que é fruto de um coração quebrado, consequência de planos frustrados. Odeia admitir que se amasse não escreveria e que se escreve é porque não é amado.

Eu não sei você, caro amigo. Quando sou amado não escrevo porque vivo. Não escrevo porque meu tempo é consumido por amar. Não escrevo porque minhas energias extrapolam o papel.

Agora vou te confessar outra verdade.

Gostamos das decepções, dos desencontros e dos poemas. Sentimos prazer na lamentação, na solidão, na saudade. Ontem mesmo, troquei um amor por cinco páginas de um romance meia-boca.