Memória

Estive andando com as cabeças baixas, mãos no bolso com intuito de protegê-las do frio. Irritei-me com a imagem clichê que estava desenhando e joguei as patas para o gelo, nu de novo e criança outra vez. Foi assim que voltei para o cafuné paterno, a parede amena encostando nas costas meio protegidas com um cobertor fino e vagabundo. A caranguejeira fazendo barulhos insondáveis, inaudíveis, caranguejeando. Não podíamos guardá-la nem espantá-la para fora e viver com a expectativa do incontornável retorno. O menino assassino gritava de medo, então, surgia o homem grande e com a mão do cafuné calejava a vivente. Coitada.
Mas eu estava no cafuné e na tentativa de adentrar no mundo dos sonhos em preto e branco, pois a história contada era antiga.
— A nave ficou perdida no espaço. Um boicotador ficou preso na nave, atrapalhando-se enquanto tentava cumprir sua missão de sabotagem. Portanto, todos perderam-se, vagando pelo espaço. Até que caíram em um planeta com capacidade de suportar vida humana.
— Certa vez, eles encontraram uma voz numa caverna… a voz era uma vida alienígena.
E meus sonhos de meninos era habitado por pessoas do espaço, perdidas, mas vivas.
— Ainda era preto e branco, e quando saiu a temporada em cor, não possuíamos televisores com capacidade de transmitir o colorido.
Depois de alguns anos, já meio crescido, mas ainda bem, jovem, pude assistir em dvd as histórias que me foram narradas enquanto menino assustado com aranhas, alienígenas sequestradores e demônios da escuridão. O quarto muito pequeno, a casa pequena e desorganizada, a cama e a rede em dueto, organizaram todas minhas experiências futuras, e com frio e as mãos balançando na rua, estive triste e conectado com toda a humanidade. Pois a minha melancolia estava construída pelos tijolos mais comuns de todos, os da saudade e da certeza de que memórias são quadros na parede que nos doem.
A morte é logo bem ali. Enquanto isso, pauso a mão em busca do cigarro, recusando ser só mais um fumante migrante no Sul; um pulmão a mais, arrombado pelo capitalismo estético de se ter uma cara de cinema, ou uma face contestadora do politicamente correto.
As aranhas morriam incendiadas, a partir do álcool e do fósforo. Depois disso, a aniquilação pelo medo tornara-se uma canção ininterrupta.

