Minha alma foi embora

Eu tentei impedi-la.

Fiz questão de agarrá-la pelo pescoço e mantê-la por perto. Queria obrigá-la a compartilhar suas benesses com outros, ciente de que ela só me presenteara com tanta coisa especial por uma mistura bem equilibrada e raríssima de pura sorte, habilidade e privilégio. No último voo, o que me trouxe ao voltar já foi quase incompreensível. Demandara trabalho demais destrinchar seus achados e aprender a cozinhá-los para torná-los palatáveis aos outros.

Tinha medo da próxima vez que fosse ao céu. Sabia que não traria nunca mais algo que, no tempo limitado de minha vida, eu fosse ser capaz de compartilhar. Os outros tinham fome. Novas viagens não trariam nada de útil para eles.

Assim, dei meu máximo para retardá-la o quanto pude. Não permitiria que me trouxesse inutilidades incompreensíveis a terceiros. Precisava dela aqui.

Primeiro, eu mesmo precisara absorver o que ela trouxera. Retirara todos os nutrientes que me eram necessários. O excesso não me faria mais nada e, já saciado, em seguida soube que podia compartilhar daquilo com outros. Montei então um mutirão no deserto. Uma multidão logo veio, ansiosa por provar as novidades vindas de terras distantes. Meu oásis logo tornou-se popular. Mas, ao contrário do que acontecera comigo, ninguém mais se satisfez. Lá ficaram, por meses, a esgotar tudo que eu oferecia.

Quando enfim acabou o material estrangeiro, eu me desesperei: prostituí minh’alma que os trouxera. Fiz com que desse ovos que distribuí aos outros. Provei o primeiro para garantir que era comestível e, apesar da culpa, em efeito retornei a ficar repleto daquele calor interno, da mesma sensação de paz. Os outros, ao prová-los, ficavam corados e ganhavam peso, o que me convencia mais ainda da importância de minha tarefa, mas seguiram sem jamais se darem por satisfeitos; tampouco pareciam absorver a mesma serenidade que eu retirara daquele alimento, para mim sagrado, para eles banal.

Acreditava que lhes faltava mais. Mesmo que pouco tivesse sido mais do que o suficiente para mim, quis empanturrá-los. Quando estivessem bem, imaginei, parariam de comer. Mas nunca pararam.

Ela, com tudo isso, emagreceu. Ficou murcha, fraca. Seus ovos vinham cada vez menores e, ao fazer uma prova, vi que vinham também cada vez mais sem gosto. Os outros também começaram a reclamar. Insatisfeitos, aqueles já empanturrados, obesos pelo banquete que tanto durara, foram embora sem agradecer, preparados para buscar alguma especiaria exótica em outro lugar.

Sobraram aqueles ainda de costelas à mostra, desesperados por qualquer coisa; estes seguiam a sorver dos ovinhos mirrados que ela chocava.

Até que a fonte secou. Em uma tarde de sol maldoso, ela deu um longo e último piado triste, totalmente exausta e vazia; eu sabia que ela morreria se eu não a soltasse. Sabia também que aqueles que dependiam dela e de mim talvez logo morressem. Sabia, ainda, que minha vida também estava em risco.

Tive que soltá-la; encarou-me em uma mistura de pena, gratidão e mágoa. Levantou voo e perdeu-se no meio das nuvens.

Saí pelas redondezas, desesperado em busca de algo. Volta e meia encontrava penas dela, aqui e ali. Não sabia se eram recentes ou se estavam jogadas já há muito. Catava-as todas e, no desespero, engolia. Pareciam ter algum valor e, por algum tempo, suavizavam minha fome. Envergonhado, compartilhei-as com os outros que, na falta de algo melhor, conseguiram seguir sobrevivendo com aqueles restos.

Muito tempo se passou assim. Os famintos receberam notícias de peregrinos a respeito de outros comícios de doação sendo montados em outras bandas. Passei fome para armá-los com o máximo das desditosas provisões de penas velhas, para que assim viajassem em busca de algo melhor. Foram todos embora de vez em vez, deixando-me por fim sozinho, ansioso por seus destinos que jamais descobriria.

Enquanto isso, daquela que se fora nem ansiedade mais eu possuía. Era puramente amargor da incerteza, volta e meia alternada com o agridoce da substância viciosa da esperança.

Segui na vida de amarga privação, catando penas por aí e usando destes restos, tão pouco afeitos ao estômago, para alimentar-me. Volta e meia algum viajante rico cruzava comigo e, por pena, acabava me dando algo. Às vezes eram migalhas ou alimento estragado; outras vezes, refeições que me mantinham forte por alguns dias. Em contrapartida, às vezes outros mais esfomeados do que eu apareciam. Nestas situações, insistia em sacrificar alguns dias de meu alimento escasso, limitado e incerto, garantindo-lhes provisões para que seguissem em frente.

Comia de pouco em pouco. Sentia a fraqueza, a desnutrição acometendo meus membros que outrora haviam sido tão fortes; minha voz que tão alto já proclamara as mais belas coisas agora era rouca e quebradiça; minha aparência que já fora a daqueles com todas as soluções se transfigurara na figura perdida de um coitado. Não sentia nisso nenhum golpe de ego. Já havia me tornado humilde em uma aventura anterior, antes mesmo da alma voltar de sua primeira viagem, tantos anos atrás. Mas tremia ao enfrentar o fantasma da morte diariamente. A cada pena que achava, cada vez mais longe, cada vez mais desafiando o azar, sabia que existia uma a menos a ser encontrada. Os intervalos entre cada achado se tornavam exponencialmente maiores.

Até que chegou o dia que não encontrei nenhuma. Depois de muito insistir em procurar, desisti e sentei, vencido e entregue. Suspirei fundo e aguardei. Se necessário, teria ficado lá até perecer. Um novo pedinte passou e tive que, infeliz, contar-lhe que não poderia ajudá-lo. Choramos juntos por nossa desgraça partilhada e então ele se foi. Poucos dias depois, outro estranho com fartas provisões apareceu. Deixou-me com muitos bons alimentos.

Por obra do acaso, segui volta e meia tombando com bondosos doadores. Por um tempo, foi isso que me salvou e foi assim que fui me mantendo vivo em minha miserável existência.

Uma vez, um bom tempo passou sem que encontrasse qualquer um. Sozinho, acabei com tudo que recebera em doação do último. Depois, passei a pior de todas as fomes. Olhava às minhas mãos e pernas e pareciam as de um cadáver, sem força nenhuma para seguir. Sabia que morreria logo se nada acontecesse.

Por mais um tempinho, nada seguiu acontecendo; eu segui me deteriorando. Cada dia conversava mais intimamente com o abismo, com o simples morrer. Perguntava para ele coisas como: teria valido a pena? Que diferença faria? Ainda não morreríamos todos de qualquer forma, fosse eu, os que me ajudaram ou os que ajudei? Ela voltaria algum dia? Encontraria-me morto e choraria por mim? Sentiria-se vingada por tê-la aprisionado e usado durante tanto tempo?

Eu não recebia resposta nenhuma; o abismo não é lá muito falante. Os silêncios se reproduziram, sendo cada vez mais só eles, quando nem mesmo meu cérebro tinha mais forças para pensar em perguntas.

E daí ela voltou.

Primeiro, senti o alívio. Estava salvo. Chorei de alegria; com a menor das migalhas fui capaz de nutrir-me e recuperar-me. A cor voltou à minha face e os músculos grudaram de volta em meus ossos. Sentia-me forte como nunca antes me sentira.

Depois, senti curiosidade. Investi muito tempo destrinchando todos os achados, todas aquelas belezas de lugares distantes que ela trouxera. Até para mim, já familiarizado com a viajante, fora extremamente desafiador e penoso, exigindo grande esforço de minha mente. Sabia, ainda mais, que nenhum outro seria capaz de empregar a tarefa por mim. O elo que nós partilhávamos era único. Tratava-se daquele tipo exclusivo (no pior dos sentidos desta ideia tão ambígua proveniente da exclusão) de vínculo poderoso que ninguém além dos envolvidos é capaz de sequer compreender, quanto mais reproduzir ou participar.

Daí, frustrei-me. Como me incomodava esta restrição toda. Por que precisava ser tão particular? Nada ali seria útil para mais ninguém. Quando dois novos indigentes passaram por mim, tentei alimentá-los com algo que ela trouxera. O primeiro achou intragável o que ofereci, garantindo que aquilo certamente não era alimento, mas algo estranho demais, alienígena. O outro nem sequer conseguiu ver o que lhe colocara em mãos, acreditando que zombava dele. Teimoso, não quis aceitar o problema, mas o mesmo se repetiu em outras visitas de mendicantes. Ficavam nervosos comigo. Como eu, claramente tão bem alimentado, podia ser tão insensível e nada oferecer-lhes?

Quando iam embora, eu gritava com ela. “Ajude-me a ajudá-los!”, eu exigia. Ela não me ofertava solução.

Tentava, sem sucesso, aceitar meu estado. Não podia salvar ninguém, mas os ouvia; compreendia suas tragédias e sofria por identificação. Tentado fiquei a isolar-me, a alienar-me para não ver o disparate de minha bonança, mas não permiti nada disso. Se não sofria por mim, sofreria por aqueles que sofriam.

Contrastava este sofrimento, apesar disso, com o desfrutar profundo daquilo que dela recebera. Tudo era tão maravilhoso. Seguia sempre tão desejoso de ser capaz de compartilhar aquele tesouro subjetivo. Quando tentava expressá-lo, eu fracassava. Quando tentava introduzir os outros àquilo com longas contextualizações antes de dar-lhes os divinais frutos em mãos, fracassava também. Toda solução que eu formulava parecia insuficiente. Nada poderia conter aquilo tudo em qualquer forma para passar adiante.

Sabia que, se tivesse duas ou três vidas, poderia decifrar aquele tesouro e partilhá-lo. Mas o códice ninguém entenderia na metade e nenhum outro poderia seguir o trabalho após minha morte. Tudo tinha validade, também, de somente o período de uma vida, a minha. Tudo viraria pó comigo quando eu fosse embora.

Então só me restava gozar sozinho das belezas mais lindas. O êxtase ia cada vez mais embrenhando-se no fundo de mim, tornando cada momentinho um grande prazer. Ébrio, eu ria de cada grão fino de areia, de cada forma boba das nuvens; chorava emocionado a ver o sol, a lua e as estrelas. O mundo fazia carinho em mim e eu o abraçava de volta.

Segui meu caminho assim por muito tempo. Ela me manteve vivo, cada vez mais vivo, mais feliz, mais forte, mais lúcido, mais sábio, mais tomado de energia e contentamento. Rodamos o mundo, simplesmente demonstrando que a existência de tal deleite era possível. Para aqueles dispostos a tentar aproveitar das viagens com asas, demos dicas, alertando não termos garantia alguma de bons destinos ou de retornos.

Minha alma foi embora outras vezes. Algumas viagens foram curtas, durando poucas horas apenas. Outras foram daquelas que se estendem por meses. Algumas foram bem mais demoradas que a da vez em que quase morri no deserto, inclusive. Não só das alegrias do retorno, minha vida seguiu repleta dos sofrimentos da ida. Cheguei bem perto da morte novamente em outras tantas situações, também. Mesmo com o contentamento no fundo da carne, não transcendera a frágil condição humana da dor que às vezes veio, nem mesmo desejava fazê-lo. Nunca alienei-me totalmente do sofrer, fosse meu ou terceiro.

Em todos os retornos, entretanto, o que ela me trazia era cada vez mais repleto de tudo. E cada vez menos eu sentia ser capaz de tornar aquilo compreensível aos outros, até o dia em que desta missão desisti totalmente.

Assentara-me no topo de uma colina nas fronteiras de uma vila. Vivia a vida a brincar de destrinchar os achados cada vez mais maravilhosos que recebia dos voos dela. Já tinha mais para explorar do que teria vida para fazê-lo e mesmo assim novos achados não paravam de vir. Fiz muitos bons amigos neste período, aqueles muito sábios na empatia, capazes de se sensibilizar um ínfimo comigo, mesmo sem entender o que eu era ou acreditar no valor dos tesouros que eu dizia possuir. Quando me visitavam, tentava doar algo para eles. A compreensão que tinham, contudo, era uma experiência limitada e distante. Por isso, recebiam joias que me pareciam tão valiosas como se fossem lembrancinhas e, ao chegarem em suas casas, muitas vezes as jogavam no lixo.

O que eu podia fazer além de ao menos tentar compartilhar meus achados puros, já que assumira meu fracasso em traduzi-los? Pouca coisa, pra falar a verdade. Eu franzia a testa em preocupação toda vez que ela ia embora, deixando sempre escaparem lágrimas; eu batia palmas e gargalhava sempre que voltava. Eu provei gostos inéditos para a vida, tanto bons quanto ruins, daqueles que ninguém topou antes e que, justamente por tamanha inovação, eram tão impossíveis de se reproduzir ou explicar para quem não os teve. Poderia ter inventado novas palavras, mas sem ninguém a partilhar da íntima experiência que as inspirava, as letras seguiriam sendo para todos os outros vazias, também dignas de serem jogadas fora.

Quando me aborreci da rotina, minha alma foi embora uma última vez. Dessa vez, entretanto, fui junto dela. Os lugares que exploro agora são tão inenarráveis quanto eram os artefatos que a alma trazia daqui. Quando viemos juntos, acabamos por nos unir ainda mais, virando verdadeiramente apenas uma coisa. Só por minha pura insegurança de voar, por medo de deixar o razoável, que antes éramos cindidos em dois.

Ainda volto constantemente para a terra, entre uma jornada e outra nas terras distantes. No começo, torcia para que topasse por aí com alguém com a habilidade de tradução das grandes belezas estrangeiras, habilidade esta que em mim sempre foi muito limitada. Nunca mais encontrei algo que para mim fosse possível converter em compreensível aos outros, como fora o material que havia distribuído da primeira viagem d’alma.

Quando comecei a produzir este relato, queria deixá-lo como nova tentativa de presentear os que seguem na rígida e árida terra dura. Entendia que talvez estas linhas fossem tão inúteis quanto as lembrancinhas, quanto as palavras. Contudo, sabia também que, para aqueles a quem for o caso, poderiam levá-las ao lixo também. Ainda mais, torcia para que alguns criassem com isso algo de útil. Não me detinha mais a acompanhar alguém por tempo suficiente para descobrir se decifravam o que eu trazia, nem nunca tentei visitar outros lugares famosos por terem riquezas exóticas, ciente de que não seriam como fora o meu.

Agora, ao chegar ao fim do escrito, percebo estar liberto de qualquer expectativa a respeito de sua leitura por terceiros. Simplesmente decidi semear o mundo, esperançoso de que alguma semente caia em bom solo de humanos habilidosos e que assim desabroche. Seguirei na tentativa de partilhar daquilo que me alimenta, sem ceder ao cinismo desumano. Enquanto não morrer, não deixarei que finde a possibilidade de pequenos paraísos terrenos, nem o fluxo de presentes raros vindos de lugares longínquos que podem ser a matéria prima para que brotem. Algum dia, alguém mais pode precisar de sementes do tipo; até lá, meu vai e volta é a única forma que encontro, em meu atual estado, para contribuir com algo para o mundo do qual vim.

Às vezes, minhas viagens são longas demais e nesse tempo não escutam sobre meu paradeiro. Amigos que me aguardam retornar ficam preocupados com meu silêncio e distância. Peço sempre que sejam pacientes e compreensivos: talvez algum dia retorne uma última vez e aqui pereça, findando a esperança de todos; talvez morra lá longe e mantenha todos numa eterna inconclusão sobre meu retorno.

O que mais me importa agora é o quão gostoso é sentir o vento contra os cabelos. Também gosto muito do calor do sol contra meu rosto. Sobre as delícias que encontro, como já disse, para mim segue sendo muito difícil descrever. Mas guardo um carinho sempre que volto para a terra carregando algo novo para tentar legar a alguém. É uma mistura de nostalgia passada, amor muito presente e fé pelo amanhã. Como voltar para uma casa de infância, ou ir visitar os avós. Minha vida não seria completa sem fazer isso. Amo a areia sobre meus pés. Amo cada perdido desalado que vejo na superfície do planeta. Amo os oásis parecidos com aquele que há tanto tempo atrás montei que, finalmente, começo a ver brotarem, distantes na paisagem, aqui e ali. Tem gente por aí conseguindo realizar aquele milagre que nunca consegui tão bem: esta conversão de incompreensível em compartilhável. Não sei se eu e meus presentes temos algo a ver com isso, nem quero saber. Só saber sobre outros aventureiros compartilhando seus tesouros já me enche de novo ânimo para seguir. Para mim é suficiente.

Amo ir cada vez mais longe e amo retornar para o ponto do qual parti. Amo tanto a ida quanto a volta.

Amo toda plenitude sobre a qual escrevo, mas também amo a ti, que me lê.