Nossos corpos,

revolução.

Rodrigo Dall' Ago
Aug 23, 2017 · 2 min read

O abraço demorado foi motivo de chacota, assunto depois do futebol, brincadeirinha no churrasco. Um olhar direto não passou despercebido e recebeu um assobio, um aceno, um tapinha na nuca.

As mãos dadas na avenida principal da cidade se tornaram alvo de fofocas, pauta jornalística, pregação religiosa, reclusão familiar, marginalização social.

Pegaram uma faca para usar como escudo, martelo justo, pronto para desferir no pecado abominável. A maçã caiu em vão, crucificam um cristo por dia, imploram misericórdia e se alimentam de soberba. E aqui estamos: sendo vistos e odiados, mas resistimos.

Nossos atos são políticos. Nossos corpos, revolução.

O corpo quanto primeiro discurso é dispositivo de poder, campo de guerra, soldado de batalha. Corpo é domínio privado disputado pela ideologia alheia, ambicionado pelo potencial em força, querido quando preciso. Corpo revestido de atos, guiado por passos, perseguido por ódio.

E corpo é resistência de raças, de movimento, de liberdade. Corpo razão de tristezas, se ergue quanto manifestação da diversidade que rege a humanidade. Corpo, unidade mínima social, impacto gigantesco ao institucional.

Corpo não-dócil.

Corpo que sai da restritiva permissão de ser e passa ser o corpo que é. Corpo que se descobre por meio da história, da arte e do amor. Corpo que abriga pessoa, infinita fonte de criatividade e vida. Mais que química orgânica, é discurso, é política, é humano.

Humano indo além da carne, sendo realização de emoção, de sensação e sentimento. Humano sente, corpo luta. Humano que experiencia, corpo que reage e revela. Corpo, instrumento humano de ser humano.

Corpos que dão as mãos, encostam lábios, criam laços. Corpos além da carne, sendo paixão. Na violenta disputa por seus arbítrios, corpos que se entregam a outros corpos por livre condição. E quando a arma aponta, corpos que alojam bala, canivete, comunhão.

Corpo, seu corpo, meu corpo. Revolução.

Ensaios sobre a loucura

Puxa uma cadeira e senta no chão. Não tem chão (capa: erikjo.com)

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Rodrigo Dall' Ago

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já sentiu a ilusão de potência que a caneta te dá?

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