O jardim dos amantes

Lembro dos meus oito anos, quando vi pela primeira vez Samira, a vizinha de frente. Ela tinha o triplo da minha idade, era casada, feições árabes; não era só linda, era encantadora. À noite era o momento de enamorá-la, pela janela, buscando ângulos para melhor admirá-la. Pra mim ela era a fada das histórias infantis que tomou vida, uma entidade que abençoava a todos com seu charme, beleza, carisma. Quando voltava da escola eu passava no jardim próximo à sua casa, arrancava uma flor e parava à porta da minha rainha para ofertar-lhe, como uma inocente oferenda de um guri apaixonado. Muitas vezes o marido atendia e achava graça naquilo. Ele chamava Samira e mostrava a cena. Eu ficava vermelho, mas não perdia a oportunidade de receber um beijinho na testa da minha dançarina. Sim, dançarina. Por vezes a via dançando um ritmo que, muito depois fui saber, se chamava ‘dança do ventre’ para seu marido. Muitos poderiam achar que ele era sortudo por ter aquela dádiva em casa, mas eu, mais que qualquer outro, tinha a certeza de que ela dançava para mim. De meu quarto via seu corpo ondulando, ornado com adereços nos braços, um véu no rosto. Seus trajes reluziam quase tanto quanto sua pele, mas muito menos que seus olhos. Nessas horas eu fazia o jogo das pétalas com alguns crisântemos vagabundos que eu pegara no jardim. O bem-me-quer vencia sempre, mostrando o presságio tão natural quanto a vivacidade daquela dança.

Minha mãe era mulher religiosa, mas não se importava com meu infantil “namoro” com Samira (acho, inclusive, que ela não sabia bem o que era um namoro, pois nunca a via namorando meu pai). Certo dia ouvi uma conversa dela com uma outra vizinha em que ela falava da minha Sam. O som daquele nome despertou minha atenção e parei escondido para tentar entender melhor. Minha mãe falou que Samira tinha um amante. Eu ri baixinho e achei engraçado, porque na verdade ela não tinha ‘um’ amante. Ela tinha ‘vários’. Pelo menos na minha lógica de menino eu pensei assim, achando ingenuamente que a palavra amante tinha a ver com a palavra amor, ou seja, coisa boa. Ora, como Samira era uma pessoa querida por todos ali, todos eram, conseqüentemente, seus amantes! Saí alegre acreditando firmemente que eu também era amante de Samira. Nesse dia eu fiquei feliz, mais feliz que em todos os outros. Então, numa certa tarde em que ela estava conversando com minha mãe, paradas perto do jardim onde colhia as flores, eu corri para perto e disse, todo animado: “Samira, eu também sou seu amante!”.

- Que amante o quê, moleque! — gritou ferozmente minha mãe. Não sei como o safanão que ela me deu não arrancou minha cabeça do pescoço. Rodopiei zonzo. Ao recobrar o equilíbrio, chorando, vi Samira me defendendo, brigando com minha própria mãe, dizendo que ela nunca poderia ter me batido daquele jeito. Corri pra casa, pro quarto, pra debaixo da cama, perdido em meu mundo que, definitivamente, não tinha nada a ver com o mundo adulto. Mas o fato de Samira ter me defendido de uma possível injustiça fez minha admiração por ela crescer e a dor serenar. A partir daquele momento eu tive certeza de que ela era, de verdade, minha amante.

Dez anos se passaram. Durante esse tempo, minha mãe deixou de falar com Samira, de convidá-la para meus aniversários. Ela não fez mal nenhum para Samira, mas fez mal para mim. Não pude mais entregar minhas flores para ela e nem enamorá-la pela janela. Que mundo estranho o dos adultos! Tempo de incongruências onde “amante”, notei, significava “ódio” e “amor” um sentimento proibido, rechaçado na violência ou escondido sob hipocrisias.

Com dezesseis comecei a namorar uma menina da minha idade. Aqueles namoros de mãos dadas, igreja aos domingos, cinema às vezes. Famílias conservadoras, devotas. Aos dezoito, ficamos noivos. Não era o que eu queria, mas era muito mais conveniente para todos. Eu não posso dizer que gostava de Suellen, a minha noiva. Eu saía com ela, mas não a conhecia, não tinha intimidade sequer para ofertar-lhe uma margarida vadia. Seria até traição pegar uma flor do meu santuário e dar para alguém que não fosse a minha Sam. Samira continuava nossa vizinha e, ainda que eu não levasse mais flores para ela, era essa, sim, a minha mulher, não só dos meus desejos, mas da minha vida. Foi então, numa tarde muito chuvosa em que eu estava voltando do trabalho na papelaria, que um carro parou ao meu lado. Eu estava com a mochila sobre a cabeça tentando me proteger inutilmente da água que caía abundantemente do céu, quando vi o vidro do carona descendo. Era Samira.

- Entra! — ela disse.

Meu coração bateu forte ao vê-la. Ela estava linda como sempre num vestido branco que realçava sua pele morena. Perguntou algumas coisas e fui respondendo, alegre por estar perto dela. Indagou se minha mãe estava mais calma. Perguntou por minha noiva, o que me deixou ansioso.

- Nunca mais recebi flores suas — brincou, descontraindo.

Fiquei sabendo que o trajeto que ela fazia para voltar do trabalho passava pelo meu. Então, as caronas começaram a se tornar freqüentes. Ela me deixava dois quarteirões antes de nossas casas para minha mãe não ficar sabendo. Minha mãe não mais me batia, mas qualquer aproximação com Samira era vista como uma tentação diabólica. Tão ingênua a minha mãe! Era Samira, na verdade, meu anjo da guarda e era impressionante como ela me passava vibrações boas, fluidos que traziam calma e, ao mesmo tempo, amor. Eu gostava de estar perto dela, de conversar com ela, de saber sobre sua vida. Numa das vezes em que apareceu para me buscar um vendedor ambulante de flores que passava por perto percebeu e mandou: “não vai levar flores pra sua amada?”. Eu ri da situação e comprei dele aquilo que sempre havia dado pra ela. Quando entrei no carro ela levou um susto, mas vi que adorara a surpresa. O relógio marcava pouco mais de seis da tarde.

- Vamos por um outro caminho hoje. O trânsito por aqui está muito ruim — disse.

Eu não sabia que existia outro caminho. O atalho pareceu longo demais, até que percebi que na verdade ele não existia. Fiquei perplexo quando ela parou o carro na entrada de um motel. Eu não imaginava que aquilo fosse verdade. Talvez fosse mais um outro sonho dos tantos que eu já tivera com ela. Mas se fosse realidade era uma realidade esquisita, porque, para minha eterna angústia, ela era casada.

- Avisei a ele que vou chegar mais tarde. Depois você liga pra sua mãe e pra sua noiva e dá uma desculpa. Você vai aprender que em sua vida íntima ninguém deve se meter, nem sua noiva, nem sua mãe, nem sua futura esposa. Isso se chama liberdade.

Minha cabeça ficou dando voltas. Eu tinha vontade de ter aquela mulher desde meus sete, oito anos de idade, desejos impossíveis de um garoto que finalmente se realizavam. Coisa de difícil compreensão. Tentações, flores, traições, pecados. Liberdade. Suellen não entenderia bem isso. “Bem vindo ao mundo adulto”, pensei, nervoso enquanto seguia cadenciado os passos de Samira até o quarto do motel.

Meu coração batia forte, numa mistura de medo e ansiedade, vontade e repressão. Nunca tinha estado em um quarto daqueles e achei interessante toda aquela sofisticação, a piscina com uma pequena cascata, o teto com iluminação escondida em penumbra. Mas o melhor foi o jogo sensual que Samira fez ao se despir. Parecia dançar para mim a tal dança do ventre que antes eu era obrigado a compartilhar com seu esposo. Seus 34 anos se revelaram juvenis, talvez mantidos pela seiva das flores que eu lhe dava quase diariamente.

- Sou virgem — declarei.

- Eu imaginava — disse ela sorrindo com olhos. Como vizinha de frente ela conhecia minha vida de garoto regrado pela mãe conservadora.

Ela disse para que eu não me assustasse, porque tudo o que iria acontecer era para o nosso prazer. Ela tomou a iniciativa de me abraçar. Pude sentir aquela cintura que por dez anos viviam desfilando em minha frente, separada de mim por uma rua e um jardim. Logo senti finalmente o sabor gostoso de sua boca, com sua língua convidando a minha a um encontro inimaginável, enquanto mãos delicadas varriam minhas costas. Aquilo era uma loucura, sem dúvida! Mas uma loucura da qual eu não abriria mão, não naquele instante. Sentei na cama, orientado por ela. O nervosismo atrapalhava minha concentração e achava que, do jeito que estava, não iria conseguir satisfazê-la, não da maneira como ela merecia.

Sam, vestida apenas com uma fina calcinha azul turquesa, era a representação máxima de meu desejo. Senti um arrepio que percorreu todo o meu corpo quando ela tocou-me com seus lábios. Não tardou para que eu crescesse tudo o que podia dentro de sua boca. Como era gostoso aquilo! O máximo que Suellen fizera comigo foi uma punheta batida rápida e sem direito a gozo na sala de casa. E agora aquela boca mágica, tenra e hipnótica, bailava em mim, tão dançarina quanto sua dona. Não conseguia contemplar bem a face de Samira porque seus cabelos impediam uma visão apurada, mas, isso não importava, pois a magia por trás daquela cachoeira acastanhada por si já dizia tudo. Durante alguns minutos ela me fez viajar devagar no paraíso. Eu estava quase gozando quando, experiente, parou, pressentindo. Fomos para o centro da cama e ela, com uma sensualidade incontestável, tirou sua última peça de roupa. Ficamos vestidos apenas com nossas alianças — a dela na mão esquerda, e a minha, na direita.

De forma instintiva, toquei com a boca seus seios, que eram fartos, do tamanho ideal para meu deleite. Ouvi seus primeiros gemidos quando passei minha mão por seu sexo já bastante úmido, enquanto minha boca descia por seu corpo, sem descolar, passeando por seu tenro dorso e ancorando no umbigo delicado. Mesmo nunca tendo tido um contato com uma mulher daquela maneira, parecia que éramos amantes há muito tempo. Tudo acontecia sem erro, sem interrupção. Os atos eram leves, encaixados, simples, necessários. Não demorou e eu estava passeando com minha língua na periferia de sua virilha, maravilhado. Mesmo de olhos fechados encontrei-a pulsando interessada em minha inocência. O aroma lembrava o das flores do jardim de nossa rua, de nossas vidas. Sorvia aquela carne quente ouvindo os gemidos de Samira, que soavam como canções, ruídos sem nexo que eram mais honestos que um “eu te amo”. Coloquei a língua para dentro sem pressa para retirá-la. Brinquei sem saber se fazia certo, mas o certo nessas horas é um acordo mudo entre os envolvidos.

- Vem que você vai virar homem comigo agora — disse.

Uma revolução que não daria para descrever aconteceu dentro de mim quando entrei naquela mulher, sentindo-a tão desejosa quanto feliz. Samira me abraçava com força ao tempo em que jogava suas pernas por sobre minhas costas. Aquilo fazia com que eu entrasse nela com mais vontade, sem receios nem hesitações. Minha mãe tinha razão: Samira não era minha amante, era muito mais que isso, era a minha mulher, e assim sempre fora. Seus gemidos se transformaram em gritos, ratificando seus sentimentos. Ela não mais mexia, dançava sob mim, rebolando, instigando, querendo tudo, como uma puta totalmente fora de si, o que, ao menos para mim, parecia um cenário fora de série. Sua verve árabe era traduzida no gingado de seu quadril, executando uma dança do véu ou algo parecido. Impregnando o quarto com cheiro de sexo, de alma entregue, passamos a ser um único corpo, onde idades e outras diferenças não passavam de gostosos detalhes. Vê-la minha amante, um sonho infantil que agora se realizava.

- Mete que você é meu, mete que você é meu — gritava ela e eu acreditava mais do que nunca naquilo, pois sentia que ela era minha também, e que sempre havia sido.

Meu primeiro orgasmo com uma mulher foi tão contagiante que acabei perdendo a noção da situação e pedindo-a infantilmente em casamento. Por sorte ela demorou para se recompor, para voltar ao normal e nem entendeu o que eu disse. Casamento talvez fosse uma palavra pesada demais para um momento tão leve e tão cúmplice, porque ali, verdadeiramente, nós éramos mais que amantes ou mais que cônjuges.

Desisti do noivado com Suellen, arranjei um trabalho que me desse maior suporte financeiro de maneira que eu não dependesse tanto da minha mãe. Mantenho o caso com Sam até hoje. A diferença de idade em nada atrapalha e, sempre que possível, nos vemos, apesar de ela continuar casada. Por vezes pergunto se vamos continuar eternamente juntos nessa vida nem tão secreta, mas certamente incrível, no que ela responde:

- A eternidade, meu amor, sempre acaba. Mas, a liberdade, não. Essa só acaba quando não houver mais flores no jardim…