Papéis que inspiram

A máxima do amor — uma carta

“Bond of Affection”, por Agnes Cecile

Papiers d’inspiration, diz este papel com o qual lhe escrevo. Por alguns segundos, tudo que flui de mim é um ponto.

Papiers d’inspiration, diz o canson. Ainda, em suma, é um simples ponto. Como o poder de inspiração pode resumir um lápis a um ponto? Poderoso, talvez; transformou continente em conteúdo. Intrigante, no mínimo. Mesmo que tudo que lhe transmita seja uma mísera mancha circular cinza de diâmetro ínfimo…

Não vou mentir, querida, não sou acostumado ao ato. Prezo por ser um homem de peito fechado e palavras contidas, pois, assim, não há espaço para excessos. Os excessos muito mal fazem a quem pratica e a quem os sentem. Por isso, talvez, você se resuma a um ponto cinza neste papel, que acabara por se transformar neste avalanche de palavras sem muita conexão com o meu real propósito de escrita. Ao mesmo tempo que me detenho, estimo muito esse ato de abrir-se, mesmo que minimamente, e render-se à beleza de palavras pensadas e cobertas de sentimentos. Assim, é definitivo: você vale um ponto porque esse é a expressão máxima do sentimento belo.

Contudo, simultaneamente, não seria você somente um pingo, o qual é, na verdade, o início de tudo. É o princípio, o momento em que percebe-se que ele tudo significa. Todos os acontecimentos da vida principiam com algo irrelevante à primeira instância, que depois se mostram mais grandiosos que o propósito inicial. As relações humanas se iniciam com um sorriso ou um olhar, sem qualquer necessidade de particularidades, ou seja, de qualquer espécie. Pode, por exemplo, ser um sorriso jocoso, um olhar severo, ou um rosto irônico.

O princípio de nós mesmos foi um trabalho conjunto. Não entrarei em detalhes, porque sabe bem que trabalho é este, mas posso dizer que não há algo que reúne mais pessoas que uma nobre causa, seja ela do âmbito que for. Tampouco mentirei, dizendo-lhe que desde o primeiro encontro seu rosto tomou-me a mente e os sentidos, porque não ocorreu tal coisa. Posso, porém, afirmar que a forma que seus lábios tomavam quando fazia seus discursos fervorosos faziam minha consciência vagar para o seu mais puro local figurativo, o campo que critica, e prevê, e trabalha, e concorda, e discorda. O campo que provoca dores cerebrais e demonstra a necessidade de se argumentar. Seus lábios estavam em perfeita sincronia com sua mente e, naquele momento, eu senti inveja de sua dicção e cognição.

É irônico que o sentimento presente tenha se fundamentado em inveja, veementemente combatida por Deus e pelos que o seguem. Entretanto, tais emoções eram impossíveis de serem evitadas e propagadas, até que, perdoe-me a expressão, ajeitei meus culhões para respondê-la. Sempre lembrarei da resposta brilhante e da destreza por você utilizada para refutar-me. Naquele momento, no princípio de tudo, na partícula originadora de todo o resto, no fragmento insignificante de tempo decorrido, soube que havia algo especial; uma energia divinamente humana que fluía de você para mim e vice-versa.

Igualmente cômico alguém tão aparentemente racional quanto eu sentir, até ver, uma energia nada palpável nem perceptível a terceiros. No mesmo minuto que você reafirmava meu ceticismo, incrementando meus conhecimentos, contestava todas as minhas crenças, ou ausência delas, fazendo-me ver uma parte do mundo invisível, tão aclamado.

A consumação desta relação deu-se por meio de um toque: os seus dedos finos, de unhas feitas e carne endurecida, amolecerem sob o toque torto dos meus, duros e rígidos, calejados. Ali, deixou-se de ser princípio e passou a ser inteira. Deixou de ser parte para ser totalidade. Deixou de ser Anne para ser a minha doce Anne.

Longe de mim por amarras em você, Anne; muito mais distante é querer possuí-la. Não existe tal coisa como amarrar e possuir uma mulher, ou melhor, uma pessoa. Qualquer instrumento (seja o dito ou o feito) que impeça a total liberdade vai contra os princípios da vida e do direito, portanto, nenhuma relação é inteiramente segura e honesta se há a falta, ou a perda, da liberdade — que é um significado muito subjetivo, diga-se de passagem. O meu objetivo com essa frase foi dizer que você deixara de ser uma mulher para ser a mulher.

Logo, você vale um ponto. O ponto nunca é um evento isolado, vem precedido de uma frase. O ponto sozinho é conceitual. O conjunto de pontos é uma nova significação. Nunca ponto é apenas um ponto — em todas as formas, é a expressão máxima do amor e da estima.

Meu peito fechado não é sinônimo de palavras inexistentes. Mesmo breve, é preciso que entenda: qualquer palavra é a máxima da expressão. Se o ponto é a expressão, a máxima da expressão é a palavra.

Se eu sou o máximo da expressão, Anne, você é a máxima da palavra; porque é você quem dá sentido a todo o resto.

Papiers d’inspiration. O meu eu cético diz que não; mas o meu coração prefere acreditar que esta celulose ajudou-me a amá-la um pouco mais.

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