Prazos

Na Tribuna o sentimento sempre foi de tensão

Daniel Pasini
Sep 4, 2018 · 5 min read
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Eu falhei por dois marcos, se eu não cumprir mais um; contrato suspenso.

Quando não entrego os textos, pegam do estoque de segurança, devem ter pelo menos três meses de publicações guardadas, as vezes eu gostaria de usar esses textos, mas quando fiz o contrato estava precisando de dinheiro, não pude exigir nada.

Três semanas sem texto novo: sem pagamento. Demissão após cinco semanas seguidas sem entregas.

Após demissão, eu ainda teria textos publicados semana após semana, de graça, eles deviam estar loucos para que eu parasse de escrever.

Contrato de produtividade é uma desgraça.

A torcida deles para que isso acontecesse era palpável e tinham pernas, andavam por aí, implorando para que eu não conseguisse segurar mais a caneta.

Duvidando da minha capacidade, todos diziam que eu não era tão bom assim. Só uma imitação barata de um pseudo geração beat, que nunca seria comparado e reconhecido, era uma vergonha para a classe.

Eu só não havia bebido o suficiente para sair do bloqueio, a não sobriedade me salvava, mantinha meu emprego. O álcool era o motivo para me pagarem, e com o pagamento eu devia consumir mais para continuar a ser pago, o que eu sempre quis, meu próprio circulo vicioso, patenteado.

Faltavam dois dias para o último marco, eu já estava quase acostumado com a ideia do desemprego, como tinha tempo desde o último. Já não lembrava direito de como era o gosto da cerveja quando não se tem nem um único motivo para rir.

Fui ao bar que apanhei anteriormente, sentei na mesma mesa, para que algo pudesse novamente acontecer, e eu lembrasse como se escrevia. O dono do bar me serviu e fez a mesma sequencia de perguntas que ele fazia todos os dias, rimos das mesmas respostas.

Meu caderno me acompanhava como sempre, folheei para ler os pensamentos antigos, as frases engraçadas, os roteiros de filmes, pequenas histórias que ninguém nunca leu. Um dia, esse caderno finalmente estará na casa de um dos netos, como um livro de recordações da família. Aqueles presentes de aniversário quando não se tem nada para dar para uma criança, pelo menos um incentivo a leitura, vai que vinga.

A cerveja foi reabastecida, houve tempos sem ela, tenebrosos tempos, uma prévia da grande tribulação. Eu precisava escrever, pensei em alguns versos, querendo procurar uma história, eu tinha que achar o cenário, escrevi duas poesias, honestas, sem nenhuma inspiração.

Vi uma sombra se aproximando, achei que era o garçom vindo ficar de papo, olhei pra cima e a vi já bem próxima. Eu estava no topo da escada, ela, um degrau abaixo, mas sua perna direita pisou por entre as minhas, quase tocando no meu caderno apoiado na coxa, com as duas poesias medíocres escritas como que por um menino de vinte e três anos, que não sabe nada sobre a vida.

Me perguntou se eu tinha um isqueiro. Atônito, entreguei. Ela acendeu ali mesmo, me devolveu e se afastou até a sacada, que ficava atrás de mim.

Novamente concentrado na página de papel pólen que estava esperando as palavras que não vinham de jeito nenhum. Jaca e Jorge chegaram sorrateiramente e me deram um susto, não tão grande quanto ela, que por sinal, nunca mais vi.

Enquanto conversávamos, perguntaram o que eu tava fazendo ali aquela hora. Eu respondi o óbvio, que tinha mentido pro chefe, obviamente estava ali foragido da firma.

Quando eu não entregava os textos nos marcos, eu deveria passar o horário comercial dentro da redação para “produzir”, porraniúma rapaz, eu nunca conseguiria produzir nada naquela porra de lugar. Sabia do que precisava, eu precisava era de um bar, um daqueles que te dá motivos pra beber e nunca mais parar, era disso que eu precisava.

A empreitada começou ali, assim como a água, a cerveja não resolveria nada, mas pelo menos, ficaríamos bêbedos o suficiente para ver o mundo sobre novas perspectivas.

13 horas, Quarta-Feira. Seleta branca e Brahma Chopp, uma atrás da outra. Procuramos outro bar, atravessamos a rua, lá estava o próximo. Repetimos o padrão algumas vezes, quando não aguentávamos mais beber, mudávamos de bar. Os ambientes influenciam na inspiração do sujeito, com novos estímulos produzimos mais coisas, nossas conversas também ajudavam a encontrar mais motivos para a busca da embriaguez completa.

Andando por Icaraí, paramos no Bar Guanabara, e continuamos a saga. Um grupo de mulheres gritava na mesa ao lado, começamos a ouvir suas conversas mesmo sem a intenção, ou talvez com um pouquinho. Elas riam descontroladas e nós ríamos daquelas risadas histéricas. Estavam completamente felizes, nos contagiaram.

Eram 22h, os três não conseguiam mais se comunicar.

Andando até São Francisco para ver se algo acontecia, mas todos pareciam ter medo de nós, nossa cara entregava a embriaguez. Jorge começou a me aconselhar sobre meus textos, o que eu deveria fazer para voltar a escrever.

Segundo ele, eu também deveria lançar pequenos compilados de contos, com o intuito de encontrar uma outra parte do público, aqueles que não leem jornais. Concordei, mas obviamente descartei a ideia por não ter dinheiro para torná-la possível.

Chegamos ao último bar da noite, já nos aproximávamos da meia noite, o ritmo da bebedeira já estava juvenil, nos reduzimos a conversar sobre modos de tornar possível a publicação dos livros. Até porque poderíamos publicar as histórias deles também, que com certeza eram melhores que as minhas.

-Pelo visto a gente vai ter que assaltar um banco pra poder publicar essas porras

Jaca falou rindo e Jorge respondeu:

-Rapaz, pra que assaltar banco se a gente pode assaltar a gráfica do jornal e imprimir tudo?

Pedi a conta.


Acordei no meu quarto com meu chefe me ligando, minha cabeça estava explodindo. Corri para o banheiro, vomitei durante o caminho. Voltei, era a quarta chamada dele, atendi.

Perguntou o que foi que eu tinha feito, por que apareci as duas da manhã na gráfica e obriguei os operadores a imprimirem meus livros ao invés do jornal de hoje, e por que eu havia usado os contos do estoque de segurança. Aos gritos, disse que eu precisava ir lá para ele me dar uma excelente noticia.

Suando frio por causa da ressaca, respondi

-Não lembro de ter publicado nada não, chefe, e estoque de segurança é o caralho, grande abraço, mais tarde chego na firma

Desliguei o telefone

Abri as caixas, peguei um exemplar de cada livro, coloquei na bolsa e fui para padaria rir dos meus textos.


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