Precários

Sobre seres de desejo e temor

Imagem retirada daqui.

Existem pessoas que encaram as nuvens do céu; outras gostam de contemplar o sol, a lua, estrelas. Talvez montanhas, lagos e mares, areias de praia. Eu sempre gostei de observar multidões. Encontrava algum ponto como uma quina de andar de passagem na estação de metrô, de frente para escadas rolantes, ou uma esquina de avenida movimentada de frente para uma faixa de pedestres. Sentava sozinho. Lia e observava o ir e vir de nossos peixinhos de sangue vermelho em nossos aquários de concreto.

Quando eu era mais jovem, a primeira coisa que encontrei em todo mundo foi o medo. Eu via medo na escolha de profissão; na escolha de caminho, de roupa, de amizades. Na escolha de sonhos. Eu via medo como o inimigo de incerteza e insegurança, enfrentado sempre com as afiadas convicções e dogmas. Eu via medo no fundo dos olhos do mundo inteiro e como todas as vidas de todos nós eram essencialmente definidas por este primal sentimento. Instintos em ternos e gravatas. Animais medrosos com bonés e óculos escuros. Inseguranças distorcidas em confianças de plástico. Descolados de outlet. Homens de sucesso placebo para homens verdadeiros de fracasso.

Eu achava que o mundo todo se resolveria se todos simplesmente abandonassem o medo.

As rachaduras desta visão imatura não demoraram a vir. Por que eu via isso? Se todos nós nos cegávamos ao medo enquanto éramos escravos dele, por que eu, tão humano e igual a todos, estava sendo capaz de observar este cenário? Será que ninguém antes fora capaz de observar isso? Por que não estávamos nos esforçando em criar a minha tal utopia dos destemidos?

Anos depois, passei para um estágio intermediário deste conflito. Não só medos, eu via em todas as pessoas uma série de mitos. Mitos, aqui, são uma mistura de narrativas, desejos e imagens. Em cada multidão, eu via as histórias que as pessoas compravam. As imagens que queriam alcançar. Garotos franzinos com livros pesados; garotos fortes com garotas entrelaçadas nas mãos; as rainhas da próxima geração com suas coroas de consumismo, suas roupas de realeza vendidas em propagandas inclusivas por algum gordo estúpido de cinquenta anos dentro de um arranha-céu qualquer. As fortes deusas da próxima geração, convencidas pelos produtos dispostos nas prateleiras a projetarem sua força interna e única em quinquilharias produzidas aos milhões por algum escravo de terras subdesenvolvidas.

Todo mundo, de todo lado, comprando histórias. Aprofundado nos meus estudos de linguagem, escrita e psicologia, via egos sedentos por identificação, sempre a procura de alguma forma sólida no mundo externo na qual pudessem se agarrar para não cair ao abismo de sua própria inexistência, de sua própria essência inconcebível diante da ausência de referências.

Meus pensamentos, tanto os simplistas da juventude quanto estes intermediários do início do momento como jovem adulto, não estavam de maneira alguma incorretos. Só incompletos. Se o medo fosse demanda, os mitos seriam a oferta. Éramos todos, ainda, escravos destas duas entidades; filhos do barro feitos de desejo e medo. Preocupados com a possibilidade de nosso frágil castelo de cartas ceder, adicionamos ainda mais cartas à estrutura, a tornando cada vez mais complexa e bamba. Nomes, títulos, doutrinas, dogmas, profissões. Verdades e inverdades. Roupas de médico, roupas de advogado. O corte de cabelo do seu grupo. Nichos. Influenciadores. Sonhos de verão vendidos com desconto. Aliás, compre um sonho, por favor. Eu imploro, sustente meus sonhos com a minha venda da mentirosa resolução para os teus. Não podemos deixar de, nós todos, sonharmos lixo. E produzirmos lixo de sonho uns para os outros.

Uma humanidade viciada no ópio de suas próprias ficções.

Mitos não estão só nas telas e folhas. Estão dentro de nós. O romance da profissão bem sucedida, curando a dor com a letargia dos prazeres do consumo. A história do heroico sujeito filósofo-mítico que enfrenta essa dor e vazio de frente. Mentiras, igualmente. As histórias, reais ou imaginadas, só existem quando as contamos. Além delas, o que há é só um momento. Eterno e incompreensível. Impossível de aprender, de reproduzir. Impossível de controlar. E até esta descrição e nomenclatura sobre ele são só subprodutos. O momento dos livros de auto-ajuda, este aqui conceituado, também é lixo. E é só quando a verdade é dissimulada nesta inverdade da verdade que conseguimos lidar com ela. Com a mentira verbal. Só digerimos palavras sobre as coisas, não as coisas em si. Nosso estômago só consome estas mentiras; só elas nos são palatáveis.

Já esse momento de eterno caos e ordem, da coisa em si em toda sua paradoxal indefinição acima de nós todos, é de plenitude tediosa demais. Queremos ópio. Queremos um começo, um meio e um fim que possamos projetar. Queremos nos convencer de que nosso sacrifício de hoje será recompensado amanhã. Queremos nos convencer de que nossos atos levarão para determinados fins pela mera semelhança com uma biblioteca de causos, reais e fictícios, que reunimos para validar nosso vieses.

É isto que somos. Um gigantesco projeto, individual e conjunto, de vieses contra a amarga percepção de nossa própria fragilidade.

Não temos controle de nada. Não conhecemos nada. Mal existimos: somos um ajuntado de impulsos. Uma coletânea de consequências para incompreensíveis fenômenos causais. E, ao mesmo tempo, nem mesmo isso, pois até a causa e a consequência são só peças que montamos para dar mais nitidez à nossa ilusão. Mas divago… Cair nesse assunto do princípio de incerteza é mesmice. Existem físicos mais sábios sobre isso do que eu.

Mitos, medos. O que faltava? Que peça não enxergava? Pior: por que eu enxergava estas peças que já via, enquanto tanta gente as repelia como um câncer? Por que meus medos iam contra os próprios medos, bases de minha existência? Por que meus mitos iam contra os próprios mitos, meus vícios mais prazerosos?

Quando eu encontrei a resposta, eu não era mais um observador da multidão.

Eu estava no meio dela outra vez. Como nunca antes, estava só lá. Outra cabeça perdida. Outro qualquer subindo e descendo nas filas intermináveis de pobres medrosos viciados em projeções e identificações egóicas pelas escadas rolantes. Outro cosmopolita estúpido e problemático, cheio de minhas próprias mentiras. Meu mitozinho de buscas por verdades; meus medos de enlouquecer ou me perder nas ilusões; de desistir de minha independência mental por um subproduto ideológico fácil. E muito mais: meu legado cultural, familiar. Minha herança do mundo.

A precariedade herdada por nós todos.

Meus dedos batem contra estas teclas financiados pelas esmolas da venda de sangue negro petrolífero dos negócios de meus ascendentes. Não só riquezas e boas coisas, herdamos vícios, fragilidades, herdamos os fracassos e vazios de nossos pais. O dinheiro é uma entidade completamente amoral. Quer saber onde você está posicionado no mundo? Busque o ponto mais sujo pelo qual suas moedas passam antes de chegarem até você. Por que penso nisso tudo? Por que estou escrevendo este texto e não você, que me lê, ou qualquer outra pessoa?

Meu avô materno comia farinha quando passava fome na infância, mas aprendeu a valorizar um livro na mão. Nesta noite que inicia uma nova semana, eu irei para casa ler, mas quero tentar não gastar mais do que R$ 5,00 com comida até quinta-feira. Meu pai nunca teve muitos livros a tiracolo. Este hábito passou para frente em meus primos, que certamente estarão assistindo televisão e degustando alguma refeição bem gourmetizada hoje à noite em seus apartamentos espaçosos de condomínios de luxo, enquanto eu estarei lendo meus livros bobos no meu quarto de cortiço alugado.

Qual de nós é mais miserável? Nenhum dos dois, acredito. Só gozamos de misérias diferentes.

A matéria-prima de toda persuasão é a precariedade. A receita é: descubra o que há de precário em alguém. Os conhecimentos que tal pessoa não recebeu de seus pais enquanto estes trabalhavam alienados para alimentá-la. Explore estes vazios inchando os pontos da fragilidade com ignorância e medos. E venda mitos como promessas para preencher estas lacunas que você mesmo cavou mais a fundo.

Minha precariedade é a singularidade. Sinto-me ser quase um erro do mundo, um caso feito de sortes (será?) e azares bem específicos. As minhas ilusões de identificação passam por incomunicabilidade (que afeta todos, embora tanta gente não se preocupe tanto com este maldito ruído), por sensação de não-pertencimento. Porque não comprei os sabores dos mitos, não tenho um restaurante que goste de frequentar no qual possa fazer amizades com os outros esfomeados no balcão. Porque não tenho a mesma fome de medo, também, me restrinjo numa existência alimentada com migalhas. Sou subnutrido, espécime defeituoso neste ciclo de temores e desejos. Enquanto o mercado desta alimentação se esparrama em leite e queijo, sou intolerante à lactose.

E no fim, mesmo esta intolerância é mito. Mesmo ela é vendida para mim em produtos nichados e caríssimos para intolerantes, somente para que eu tente tapar o buraco da minha precariedade com outros tipos de coisinhas. Alguém em algum lugar está cutucando minhas feridas para infeccioná-las com pústulas de medo e me vender o remédio depois. Não me amarguro com isso somente porque estou fazendo a mesmíssima coisa com bastante gente. E porque, ao mesmo tempo, estou denunciando essa brincadeira toda com estas linhas. Este é meu alívio, esta é minha terapia. Não muda nada, mas ao menos finjo que fiz alguma coisa a respeito.

Meu estudo, minhas observações das multidões, meus livros e palavras bobas, estes textos que redijo aqui, são estes meu leite do mundo, amamentando o disfuncional bebê que sou. Somos todos bebês buscando peito e alento. Durante a vida toda.

Primeiro, o seio da mãe. Depois, o seio daquela menina bonita naquela tela. Ou talvez o seio santo de Maria. De Deus. Ou de algum tipo de deus. Tão frágeis. Queremos esquecer que somos bebês; quando relembrados de nossa fragilidade, choramos. De que adianta? Quando desiludidos de que há adultos, quando lembrados que o peito de quem mamamos é de alguém tão precário e frágil quanto somos, simplesmente nos desesperamos. Porque não há ponto sólido.

Quando eu era menino, achava que adultos sabiam tudo. Meu avô respondia com sorriso no rosto e naturalidade a todas as minhas perguntas sobre os homens e sobre os deuses, sobre a lua e sobre a chuva, sobre como funcionava o carro no qual estes questionários eram feitos enquanto ele me dirigia até a creche.

Hoje, me buscam para responder coisas e sigo sendo tão menino perdido, feito homem simplesmente por ter total convicção disto e de que o homem que foi meu avô era, também, menino perdido. Paradoxalmente, deixamos de ser meninos justamente quando descobrimos que todos os vivos, sem exceção, estão na verdade igualmente perdidos. Não há onisciência dentro de nenhum crânio.

Onisciência seria plenitude. Infinito. O que temos é finito. É limitado. O que existe para desenhar a borda do que temos é a precariedade. E é ela que nos define sendo ao dizer justamente o que somos incapazes de ser. Cada um conta com sua própria. Alguns com precariedades maiores. Algumas mais comuns, outras mais raras. Quer tornar mais fácil controlar alguém? Expanda as precariedades deste alguém; miseráveis de mente são sempre mais manipuláveis mentalmente, miseráveis de carne são mais manipuláveis materialmente. Outros com precariedades menores. Quem sou eu para me dizer precário? Olhe quantas palavras bonitas eu consegui ajuntar para ostentar estas linhas na minha vidinha privilegiada de tempo ocioso para leitura, abstração e acesso ao nível superior (e mesmo este meu dito privilégio é mítico). Tudo para tentar fugir de meu ruído. Infelizmente, quanto mais palavras eu fazia, mais coisas eu via e o buraco foi sendo cavado cada vez mais embaixo em minha impossibilidade de criar mapas verbais dos paraísos e infernos que encontrei. Mas que precariedade tenho em meu estômago sempre forrado de comidinhas? Em minha vidinha, como já disse, tediosamente cosmopolita como é este próprio texto e esse draminha nobre-decadente sobre mapinhas verbais?

Ah. É mais ou menos isso. Já estou passando um pouco do ponto. Desejo, ignorância e vazio. Mito, medo e precariedade. É disso que somos feitos, na minha singela opinião (que não representa, também, nada demais). Na verdade, só queria compartilhar que descobri acreditar nesse elo comum da precariedade como algo que une a nós todos. É um jeito de me sentir mais conectado com o mundo, acho.

Agradeço pela sua leitura até aqui, tomara que tenha lhe proporcionado alguma reflexão valorosa. Se não, peço desculpas, pode voltar para seus mitos lácteos próprios: se não é minha linha de produtos que te alimenta, haverá alguma aí fora que fará isso, com toda certeza. Se encontrar alguma marca com sabor gostoso, inclusive, aceito indicações. Não venho me alimentando direito ultimamente. Não estou indo com a cara das opções disponíveis nas prateleiras.

Agora é chegada a hora de eu sumir de novo no meio do seu mundo, outra cabeça tola entre sua própria e referencial multidão. Mas você não precisa descer de novo, não ainda. Observe mais um pouco daí de fora antes de voltar para o meio dessa nossa muvuca. Aproveite a perspectiva. Olhe para as multidões como se você não estivesse nelas. Faz quase parecer que somos diferentes de algum jeito. É gostoso.