Refletidos Brilhos

Luzes misteriosas, no fundo da minha cabeça e vindas não sei de onde, me gritavam verdades que eu nunca quisera escutar. Minha consciência parecia um show de fogos de artifício.

Dezembro findava quando uma série de epifanias me levou a desejar quebrar meus padrões.

Percebia pela primeira vez meus próprios comportamentos. Entendia enfim como eu funcionava, descobria meus ciclos viciosos, previsíveis, repetitivos, tão padronizados, tão óbvios. Pela primeira vez eu via meus próprios erros, infindavelmente refeitos, vez após outra, sem que eu jamais até então tivesse plena consciência das semelhanças e culpas que de mim provinham.

Entre uma série de ultimatos daqueles tempos, ali garanti: não queria mais me machucar (em raras porém dolorosas ocasiões, que me inflamavam de mágoas duradouras e desejos internos de sutis motivações vingativas) nem queria machucar a mais ninguém (e destas segundas muito mais frequentes, embora meu sofrimento fosse menor, existia sempre um culposo sentimento, uma tristeza pelo mal e dor que eu gerava aos outros). Parece irônico perceber que assim que defini meus novos objetivos, tão simples, o mundo aparentemente tenha decidido colocá-los à prova: as coincidências dos tempos posteriores serviram a testar no plano da realidade se aquelas minhas frases, tão bonitas em teoria, seriam aplicadas na prática.

Assim, mal se iniciou o novo ano e me vi na corda bamba de uma situação onde, se não agisse de forma nova, acabaria por voltar a machucar pessoas disseminando minha toxicidade. Algo da energia magnética e entusiástica do ano anterior, que ainda me infectava, trouxe três novas mulheres à minha vida. Eu, na época decidido a me afastar de envolvimentos por um período, tentei ao máximo contornar as paixões sem causar traumas a ninguém. Resoluto em abandonar meus antigos sadismos, não tirei vantagem ou fiz brincadeira das emoções alheias; não vi a vulnerabilidade que a mim se apresentava como uma chance para ensinar uma lição diabólica àquelas que se atreviam a tentar se relacionar comigo; não considerei a condição de estar indiferente enquanto por mim se apaixonavam como uma posição de superioridade a me permitir praticar maldades.

Quando a primeira das três se declarou, foi com o máximo de cuidado e boas intenções que garanti que não poderia me envolver com ela; diferente do que fizera em situações parecidas do passado, ali não pretendia iludi-la, nem conquistar seu amor para torná-la subserviente; não pretendia maltratá-la, torturá-la ou rejeitá-la pelo simples prazer de rejeitar; não pretendia negá-la como forma de me vingar do universo perante aquelas que antes haviam me negado. Na intenção de ser bondoso, de não machucar, mantive o contato amigável.

Quando a segunda garota, após inúmeras vezes me chamando para voltarmos a sair, enfim conseguiu nos colocar de novo no mesmo espaço, diferente do que fizera no meu sombrio passado inconsequente, não me aproveitei irresponsável do brilho que via em seus olhos; não a usei a suprir meus desejos superficiais, apesar da fortíssima atração física, tendo ciência das nada superficiais intenções dela; não deixei que inchassem seus carinhos por mim que jamais teriam como ser recíprocos. Vi a frustração que gerei nela, senti o clima pesado que pairava sobre nós, mas nada podia fazer que não fosse lidar com as consequências de meu próprio fechamento.

E enfim, quando a terceira garota me garantiu que não poderíamos continuar nos vendo nas desculpas do corriqueiro, do banal, quando ela mesma me alertou de que necessitava de bases mais sérias, então foi triste que, na sinceridade absoluta, garanti que não poderia continuar indo à sua casa vê-la e que eu, ainda ali, não poderia ser aquele que daria qualquer tipo de certeza ou relacionamento sólido para ela. Sem as recorrentes mentiras do passado. Sem as ilusões e manipulações de outrora.

Eu me via num impasse. Não conseguia visualizar qualquer possibilidade de qualquer relacionamento que me envolvesse onde o final não terminasse em um dos dois extremos: de um lado eu me machucando ou, de outro, eu machucando alguém. Tentei sair com mais uma ou duas garotas, mas logo no início sempre via e projetava os trajetos tortos que me levariam, no final das contas, para um daqueles dois tristes fins. Um pessimismo inerente parecia corroer minhas relações, a garantir que meu venenoso jeito de ser nunca poderia ser superado. Entristecido numa certeza amargurada de que não existia boa saída para essa situação, foi aí que me fechei completamente. Não teria como ser machucado por ninguém, ou machucar ninguém, se não me envolvesse com ninguém nunca mais. O afastamento parecia então ser a única solução viável.

Alguns meses se passaram. Enquanto ainda via as três garotas do começo do ano a tentarem ocasionalmente restabelecer nossos contatos, enquanto eu mesmo lambia feridas de malsucedidos contatos passados que não seriam jamais restabelecidos, mais e mais pensei estar fadado a me manter isolado ou então repetir os mesmos erros de antes.

Graças ao já bem antigo receio de me machucar ou machucar aos outros, tenho frequência em tentar me reprimir. Um lado meu, mais racional e sensível, mais preocupado e responsável, com temor olha meu outro lado mais impulsivo, entusiasmado, carismático, animado e elétrico, expansivo e inconsequente. Meu lado responsável tenta sempre domar e encarcerar meu lado impulsivo. Meu lado responsável sempre falha nessa tentativa.

E assim as rachaduras começaram a brotar. De súbito, de um período introspectivo de solidão poetizada, novamente me vi rodeado de gente; de uns três meses ou pouco mais sem qualquer envolvimento, me vi novamente em envolvimentos múltiplos, simultâneos; de meses sem mal sair, sem quase me divertir, me vi novamente saindo com frequência. E a temerosa e receosa característica de responsabilidade dava lugar outra vez para uma perigosa inconsequência irresponsável nos meus relacionamentos com os outros; de sorriso no rosto, falava sem pensar nas consequências; me envolvia sem me preocupar com as dores que geraria; desligava o raciocínio e, tal um vira-lata doido, simplesmente me deixava levar pelo vento, indiferente ao estrago que poderia gerar pelo caminho.

Foi muito difícil para mim superar esse conflito interno; perceber que, mesmo no contraste desses meus dois modos, ainda existiam semelhanças; descobrir que não existiam “pedaços de mim”, personagens diferentes numa disputa pelo holofote, mas que existia um “eu” mais profundo que projetava, como se feixes de luz colorida a nascer do branco, aqueles “lados”. Afinal, fosse o lado sensível, introspectivo e receoso ou fosse o lado impulsivo, expansivo e inconsequente, eu ainda estava lá atrás comandando o jogo de fantoches. E, como se caricaturas, minhas personagens performáticas, minhas sedutoras personalidades extremadas, ainda tinham muito de seu próprio criador mais profundo.

Fosse de um lado ou de outro, em ambos eu era sozinho; em ambos eu era fechado; em ambos eu não tinha emoções, em ambos eu mantinha uma ilusão de independência e autossuficiência, de criatura invulnerável; em ambos eu não era afetuoso, frágil ou instável. Em ambos eu não era plenamente eu e me enganava em loucuras e certezas tortas de que não existia nada em mim além daquelas duas formas de agir. Num extremismo polarizado, eu garantia: não existe nada em mim além da oscilação e contraste entre esses meus dois jeitos de ser; este é meu padrão e não posso me libertar dele.

Mas eu já havia me libertado dele. Há muito tempo, no distante dezembro passado, eu quebrara aquilo tudo. Na verdade ainda estou, aos poucos, me libertando. Lentamente renascendo das cinzas de quem já fui.

Não que eu tenha me libertado por vontade própria, na verdade. Pelo contrário, relutei muito e muito insisti na tentativa de conseguir voltar ao quentinho e confortável lugar de minha deteriorada zona de conforto, fazer das cinzas um abrigo.

Mas ninguém nunca retrocede: após abandonar a cegueira era impossível esquecer o que vi. Como se uma vozinha incômoda, um pequeno pontinho de luz no fundinho da minha cabeça me gritava de longe, baixinho pela distância, as intensas descobertas que eu estava tentando ignorar. Pessoas e eventos de fora, muitas vezes, me inspiravam ou recordavam daquela mesma luzinha específica, tão chata, tão inoportuna e teimosa a nunca me deixar fingir que eu jamais a vira ou escutara; ao olhar o totem que a mim é o tomo de setecentas páginas do meu terceiro livro e absorver o peso daquelas folhas, sua significância, a magia da época (não consigo encontrar melhor termo para definir aqueles dias, seu clima, seu cheiro, suas coincidências, idas e voltas, do que “mágico”) e tudo que aquilo foi para minha vida, o quão intensos haviam sido aqueles momentos e eventos, eu simplesmente não conseguia voltar a ser como eu fora antes de minha epifania.

Sim, sim, eu tentei voltar atrás. Tentei dar um passo de volta. Fiz meu máximo para me esconder de novo nas minhas tradicionais maneiras.

Foi assim que caí, outra vez, na brincadeira de sair com três garotas mais ou menos ao mesmo tempo.

A mais nova delas, também a mais bonita, do alto de seus dezessete anos e com seus cabelos de mechas azuis, me parecia um espelho torto de minha própria imaturidade. Eu sempre sabia por onde nossas conversas andariam. Compreendia e explorara infinitas vezes antes as entonações mistas de sarcasmo e sedução que entrecortavam xingamentos acompanhados de sorrisinhos. Entendia o carinho com que ela me chamava de “ridículo” ou “decepcionante”, adjetivos que eu lhe devolvia com semelhante candura. E, principalmente, eu entendia nosso descaso partilhado um com o outro tanto quanto nosso descaso de citar de nossas outras relações. Um dia ela saiu comigo logo depois de sair com outro cara e eu, logo após sair com ela, fui para a casa de outra moça, nós dois plenamente cientes dessas alternâncias e dessas trocas. Apontávamos marcas nos pescoços um do outro que foram feitas por terceiros. Éramos ocasionais, desimportantes, amigos numa dança de indiferenças e superficialidades.

Era divertido e rotineiro, era conhecido e fácil. Eu sabia lidar com ela muito bem. Sabia o que ela queria ouvir e sabia o que precisava dizer para que ela falasse o que eu queria escutar. Eu percebia nossa semelhança mais gritante na negação extrema que ela fazia em aceitar que era humana e que sentia: admitia e falava de sua sensibilidade, mas com uma falta de sensibilidade asséptica, robótica e científica, distante, como se falasse de alguém que não ela mesma; ela não sentia a consciência de sentir.

Eram estes os pontos: era fácil, conhecido; ela era a mais jovem e divertida, dos assuntos mais bobos, da maior atração física; para o bem e para o mal, ela me refletia no extremo que éramos de parecidos: nenhum dos dois queria vínculos, nada intenso ou profundo, gostávamos da casca conveniente do superficial. Poderíamos seguir nos encontrando, nos mesmos moldes, como uma constante de amizade cínica e de beijos vazios, entrecortando fracassos com outras pessoas; seria sempre divertido, quando juntos estivéssemos, reclamarmos dos outros enquanto ignorássemos nossos próprios defeitos.

A segunda garota, de dezenove anos, não era a mais parecida comigo; não era a mais bonita.

Mas era a mais fácil.

E digo fácil em sentidos diversos. Ela tinha um apartamento só dela e já transamos no primeira vez em que saímos, mas não se limitava só a isso. Era muito fácil sairmos já que ela morava num bairro bastante bom, do ladinho da estação de metrô. Morando sozinha, tínhamos sempre como nos ver. Era fácil também para nós conversarmos. Apesar de não tão parecidos, nossa conversa sempre fluía, quase que sempre por coisas leves. Eu fazia o máximo possível para contá-la o mínimo possível de mim. Falei muito pouco e bem rapidamente para ela de meus amigos, de minha vida, de minha história, meus livros, minha família. No fechamento que queria conseguir, não existia espaço para contar daquilo tudo. Os amigos dela eram divertidos também e sempre tínhamos algo para fazer; ela tinha sempre algo para fumar e pagava o táxi, os almoços; era bonita também, divertida, interessante. Mas, por mais que possa parecer feio dizer isso, acima de tudo ela era conveniente; era prática; era simples.

Não só pelo apartamento, os amigos divertidos, as conversas leves, o sexo ou o almoço que bancava; não só pela facilidade com que podíamos nos ver com frequência. Tudo isso, sim, mas ainda não só isso. Ela era fácil porque não via meu joguete. Acreditava na minha máscara. Comprava minha performance, meu personagem manipulativo. Eu, “espírito livre”, podia ser banal, frio, dissociado e distante; como nunca me abri, ela acreditava que não existia o que abrir e que eu era apenas aquele sorridente vazio que a casca apresentava. Já ela, caindo nos meus conhecidos caminhos, se abriu cada vez mais. Percebi com um misto de agrado egocêntrico e temor preocupado que ela se afeiçoava cada vez mais a mim. Eu percebia sua abertura, o sentimento pouco recíproco que ela me ofertava.

Antigamente, no ápice do meu nojo enquanto ser humano, eu chamava esse estado específico de “estar por cima”, referente ao momento em que se gosta menos, ou nada, de alguém que gosta de você. O oposto, gostar de alguém que a ti é indiferente, eu chamava de “estar por baixo”. Obviamente, por consequência dessa visão, eu nunca queria estar por baixo. Sempre queria estar por cima e conquistar o “gostar” alheio era um objetivo de competição perversa para mim, na busca por descobrir quem cederia primeiro e, então, qual dos lados seria perdedor e se machucaria. Não eram pessoas, não eram envolvimentos. Eram disputas.

Nesses termos, com essa moça eu tive uma gloriosa vitória em poucas semanas. Ela sabia que eu não saía só com ela e, mesmo desgostosa com o fato, simplesmente permitia. Ambos sabíamos e falávamos abertamente que o quebrar de nosso vínculo a afetaria muito mais do que a mim. A mim afetaria muito pouco, talvez nada.

Como era conveniente! Como era fácil tudo aquilo. Poder total sem abertura; sem intensidade, fragilidade, impulsividade, sem oscilação, sem fraqueza, sem instabilidade. Tudo no meu controle. O superficial com uma menina bonita e parecida comigo em uma das mãos e a posse emocional de uma outra garota na outra. Eu, no meio, impenetrável, inalcançável, iludido no alto de minha mentirosa fortaleza emocional. Frio, independente, desapegado. Tudo tão fácil. As ferramentas perfeitas para retornar ao meu modo antigo de ser. Para criar meu novo espaço de falsa frieza, de ilusão de força. Tudo nos meus moldes. O retorno milimetricamente equilibrado de minha zona de conforto.

Mas não.

Quando tentei me enfurnar de volta na casca fácil da pessoa horrível que eu fora no passado; quando, tentado pela sedutora promessa do antigo jeito, pensei abandonar a difícil tarefa de quebrar minhas viciosas maneiras e retomar o caminho conhecido; quando tentei me cegar ao que descobri, quando tentei esquecer minha epifania, quando fiz de tudo para enterrar as inconvenientes verdades.

Eu via aquela incômoda e teimosa luz nos olhos dela.

A terceira das garotas com as quais saí não era a mais parecida comigo; não era a mais fácil de conversar, nem de ver; não era a mais bonita, nem a mais engraçada. Não era a mais nova, nem era a mais velha, não era conveniente. Tendo a conhecido na época em que fazia vestibulares, foi o pior momento possível para que saíssemos. E ela era tão, tão diferente. Tão atípica.

Ela me incomodava.

Ela não comprava minhas mentiras. Não se convencia com minhas máscaras. Não se impressionava e nem admirava do meu frenesi, das minhas tortas sequências de frases mentirosas entrecortadas por risadinhas rápidas e tolas. Não participava dos meus joguetes.

Os jeitos dela a mim eram mistério. Tudo dela era ao mesmo tempo fascinante, interessante, e bizarramente construído com uma autenticidade ímpar. Não sei se ela tem consciência de quem é, ainda, nem da energia que passa. Não sei se ela mesma já tem noção do mistério que ela mesma é (mistério que duvido que mesmo ela desvende plenamente durante sua vida). Não sei se sabe o calor da aura que ela própria possui.

Mais, ela me desafiava. Um ímpeto por manter contato com aquela garota tão diferente, tão autêntica, tão forte, quebrou até mesmo meu orgulho e teimosia. Distante de minha frequente indiferença, eu a garantia saudades e desejo de revê-la. Apesar de muitas vezes não fazer ideia do que falar, me esforçava continuamente em tentar conversar com ela.

Não consigo dizer o quanto é destoante de meu comportamento habitual o “esforço por conversar”. O buscar alguém. Eu nunca busco nada, ninguém. Nunca vou atrás de nada. Nunca admito me importar. Nunca admito não entender, não saber, não compreender plenamente, não ter minha preciosa ilusãozinha de controle.

Mas ela ria, autêntica, quando às vezes queria rir; séria ficava, em outros momentos, quando séria queria ficar. Admitia estar bem ou mal, sem um falso distanciamento de si mesma. Entrecortávamos conversas (leves e bobas ou mais profundas, nunca uma coisa só) com silêncios obscenos de significado, gritantes de mais coisas do que tudo que falávamos. Como me incomodava que ela me lesse e entendesse melhor do que as outras faziam. Que percebesse meus muros e defesas, justamente ela, a quem as defesas pareciam mais necessárias. Achei assustadora a forma como, tal se fosse óbvio fato, ela me mostrou o que havia de previsível em mim (e que normalmente escondo muito bem no começo).

Ela via meus pontos bambos e não parecia surpresa, ofendida ou decepcionada com a existência deles. Ela me mostrava os pontos bambos dela mesma, a troco de nada, a me relembrar que era exatamente tão humana quanto eu.

Era um contraste curioso. Não nos via como “quem está por cima ou por baixo”, mas como iguais; não a entendia plenamente, nem sabia tudo dela, nem jamais a controlei, mas entendia que existia algo nela que conversava com algo meu; uma quase subliminar e intuída percepção de vínculo, de amizade. Não disputávamos, conversávamos.

Ela não era a mais fácil de lidar. Mas uma motivação por interesse fazia ser ela aquela com quem eu mais queria vir a lidar, independente de ser fácil ou difícil. Não era, certamente, a que mais gostava de mim. Mas não precisava ser, e nem nunca quis que assim o fosse, pois não pretendia usar do afeto como arma a ameaçá-la ou vencê-la. Ela não era a mais bonita, mas seus olhos tinham aquele sutil brilho novo, sua boca me fascinava no seu ritmo próprio que jamais cedia plenamente ao meu hiperativismo exibicionista, seus braços e mãos eram terreno para que eu corresse com meus dedos a desvendá-la a textura da pele e, por tudo isso, a mim ela era a da beleza mais interessante e única. Ela não era a mais parecida comigo, mas as diferenças me agradavam, seus gostos musicais e talentos artísticos me impressionavam, eu via graça e beleza no seu jeito tranquilo ao contrastar com meu jeito acelerado. Sua voz ia calma, lenta e controlada, tão diferente do meu falar entusiasmado de palavras tropeçando umas pelas outras.

Vê-la, apesar de bem mais raro, me agradava mais do que ver as outras duas. Conversar com ela, apesar de não tão fácil, me parecia mais significativo. Era a única pela qual sentia saudades legítimas. E foi com paciência que vi nosso contato se afastar ou aproximar, dado o dia ou o período. Tentado fiquei mais de uma vez de afastá-la bruscamente, de ignorá-la, de esquecê-la e voltar ao fácil que tinha com as outras. Mas nosso contato era sempre um esforço conjunto e eu sentia ser importante tentar mantê-lo. Eu não tinha o papel fácil de simplesmente esperar o “olá” partir sempre do outro lado. Se nosso contato morresse, ainda mais se por meu orgulho e teimosia, isso me incomodaria. Incomodaria ainda mais do que incomodava deixar o orgulho e a teimosia de lado para ir conversar com ela e chamá-la para sair. Hoje, já um tanto mais distantes, não me incomodo por ver um desenvolvimento natural e orgânico dos tempos a justificar os fatos, nem pretendo também forçar uma cotidianidade desnecessária, nem exaltá-la, nem de qualquer forma quebrar o ritmo natural das coisas. Se afastados, apesar de saudoso e eventualmente um tanto entristecido, eu não faria disso grande drama. Entretanto, inegável é o fato de que, sim, eu me importo com ela.

Mas eventualmente eu me preocupo com algumas coisas. Tenho medo de, eu mesmo, ter sucesso em soterrar as luzes que vi na minha própria cabeça no ano passado. Tenho medo de jogar essas luzes tão no fundo que suas verdades, mesmo ditas aos gritos, estejam profundas e distantes demais para que ainda as escute. Tenho medo de conseguir o que vivo tentando conseguir: retomar minha zona de conforto. Voltar a estar rodeado de gente muito parecida comigo a brincar de atuar no meu teatrinho, como a primeira garota brincava, ou de gente que simplesmente compre e aceite minha mentira sem questionamentos, como a segunda delas comprava. Mas ao sair com essas moças nesses últimos meses relembrei a razão pela qual não existe retrocesso: por qual motivo não posso voltar a ser a detestável pessoa que antes fui, mesmo que fosse mais fácil ser daquele jeito. Lembro por que não posso voltar à zona de conforto.

Porque volta e meia eu vejo aquela luz no mundo a não me deixar esquecer. Vejo no céu, num reflexo contra um vidro de um prédio; vejo em um senhorzinho acompanhando seu neto numa biblioteca; vejo no meu livro, quando o encaro frente a frente; vejo no riso dos amigos, nos dias perdidos com quem gosto. Vejo essa luz nos olhos dela. Se algum dia perder essa luz do olhar dela, ou se deixar de vê-la no todo, tudo isso ainda terá servido como a lembrança importante que foi de que a luz ainda existe. Ainda toparei com o mesmo brilho em outros lugares. Em outros olhares.

E então eu me recordo por que, de princípio, quero que essa luz continue reaparecendo e me relembrando; por que quis quebrar tudo isso. Lembro da minha cabeça no estado de explosão de fogos de artifício. Lembro de uma epifania fortíssima que me fez chorar e gargalhar ao mesmo tempo, em um dia qualquer, num momento qualquer, sentado em um degrau qualquer da rua em uma tarde qualquer de um dezembro também qualquer e já perdido no passado. E daí lembro que não tenho escapatória. Poderia jamais ver qualquer uma dessas garotas de novo, nenhuma delas, nem mesmo a terceira, ou me afundar na facilidade superficial de lidar com as relações das primeiras duas. Poderia de novo tentar me controlar, me impedir, me esconder e fugir. Poderia voltar a tentar ser o que fui antes.

Mas a luz sempre vai aparecer de novo. Ela é insistente e teimosa. Topo com ela quando menos espero. E por mais que as vezes eu não queira, por mais que não saiba onde, quando, por que, em que ou em quem, sei que verei esse mesmo brilho ofuscante de novo no futuro, sempre a me lembrar que existe mais do que a ilusão e falsidade do meu padrão, dos meus joguetes, das minhas máscaras e meus personagens, que existe mais além das minhas manipulações e minha frieza. A me lembrar todas as verdades que representa: que a vida pode ser mais que essa vazia casca sem brilho, tão plástica e mentirosa; que a vida pode ser mais autêntica, honesta, intensa, bela e calorosa do que isso; a me lembrar que a vida pode ser diferente, pode ser mais. Pode ser algo.

A me lembrar, em refletidos brilhos de olhos, que a vida pode ser.