Silêncio

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Eu estava ouvindo o silêncio já fazia um bom tempo, havia me perdido na quietude. Eu o ouvia, e ele retribuía me ouvindo.

Momentos como esse são difíceis de encontrar, momentos de profundo e absoluto silêncio, o silêncio é acanhado e se espanta com facilidade, por isso aprendi a aproveitar os momentos em que ele se instalava e por ali ficava. Mesmo que às vezes por um tempo muito curto. Ao contrario do que se possa imaginar, o silêncio não é tímido e se faz notar assim que chega, no começo, causa uma estranheza, apesar de discreto, é também espalhafatoso e ocupa todo o lugar.

Com o tempo aprendi a conviver e a procurar o silêncio quando precisava, com o passar dos anos nos tornamos amigo, conseguia encontra-lo quando quisesse e a hora que quisesse, o via e escutava nos mais inimagináveis lugares, o silêncio como você pode imaginar, gosta de intervalos e de espaços, sempre que eu o procurava ele estava lá pra mim, sempre calmo.

Mas com o passar do tempo comecei a me sentir egoísta, eu tinha o silêncio, e o silêncio tinha a mim, mas assim como outras coisas como a felicidade, a musica ou um bolo de cenoura com cobertura de chocolate numa tarde de domingo, o silêncio não era para se guardar como se guarda um tesouro, ele era feito para se compartilhar, ou pelo menos era assim que eu me sentia. Se era tão bom o silêncio enquanto eu estava sozinho, quão melhor seria na companhia de alguém que eu gostava?

Por um tempo eu busquei esse alguém, como quem busca um par de chinelo novo, correndo e torcendo para ser cada novo alguém que eu encontrava, mas nunca funcionava, o silêncio nunca parecia estar confortável ali. Depois disso meio que desisti, passei a procurar como quem espera ganhar um carro em um premio de supermercado em que não esta participando.

E quem diria, eu ganhei.

A primeira vez que a vi ela trajava uma rosa com faixas pretas nas bordas e um desenho branco no peito, algum tipo de triangulo, uma calça branca e um par de havaiana rosa, um crucifixo dourado caia acima do peito. Usava um óculos com armação preta, que só deixavam seus olhos cor de mel ainda mais bonitos, não usava batom, mas a sua boca também me lembrava mel.

Como eu tive a coragem, ou como fui falar com ela, não lembro. Lembro que ela comprava algo no mercado e eu fiz alguma piada inteligentíssima (não tão boa assim) sobre como era o pico mais gelado do mundo.

Mas de algum jeito deu certo. Eu ganhei o carro. E ele era uma Ferrari.

A primeira coisa que dividimos foi um beijo, e foi o melhor. Dividimos dias e horas de conversar e companhias, e foram as melhores horas da minha vida. E chegou a hora que dividimos o silêncio, foi estranho, eu havia esperado tanto tempo por aquele dia, e era ainda melhor do que eu imaginava, estávamos os dois ali sentados, e o silêncio junto, era como se naquela sala nenhum ruído nunca tivesse sido emitido. Como se o silêncio fosse parte física da sala, ele se encaixava perfeitamente ao nosso redor, aproveitando o momento tanto quanto nós.

Mas por mais que eu amasse o silêncio, eu amava ainda mais a voz dela, e por o mandei embora. Pelo menos por enquanto. Depois disso nós dividimos outra coisa, que a essa altura você já deve imaginar o que é.

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