Torna-te quem tu és.


“Cumpramos o que somos, nada mais nos é dado” — Ricardo Reis


A vida se desenrolava como o ar dentro de um sótão que há muito não era aberto: partículas de poeira em suspensão, aguardando no ambiente opressor o contato com alguma intrépida brisa que ousava penetrar pelas frestas que se abriam na madeira velha.

Os dias se seguiam em coorte. Todas as suas iscas estavam na água e tudo o que restava era a longa espera até que as forças que havia liberado no universo causassem qualquer evento cosmológico que induzisse o instante ao movimento e retornassem em forma de alguma mudança naquele marasmo todo.

A incerteza era paralisante. Sem o controle do seu futuro próximo, dependendo apenas de forças externas, como é que poderia tomar qualquer decisão importante no presente?

Eis que o universo, teatro que se diverte com seus atores, pressionado, devolveu algo que ela já não mais procurava ou sequer esperava encontrar. E não há quem consiga ignorar a grande comédia que há nisso tudo e a única e indesculpável antítese de que somente conseguimos encontrar aquilo que não estamos buscando ou ousamos imaginar que pode ser encontrado.

A vida humana é assim: de uma hora para outra um abismo se abre sob nossos pés e a única opção é cair, ignorando completamente o tamanho da queda. Ela, porém, diante do abismo, avaliava as opções com cautela, pensativa, como se cair no desconhecido nunca houvesse sido uma alternativa aceitável. Da borda da enorme escuridão que se alargava até onde sua limitada visão permitia, pensou que, talvez, seria melhor se agarrar à segurança daquilo que sempre conhecera.

E na incerteza em que os dias se converteram, por um momento, chegou a repelir a oportunidade que se desenrolava, até conseguir divisar um braço que se erguia das sombras e lhe estendia a mão.

A mão que lhe acenava aos poucos foi se aproximando e, ao passo que a distância diminuía, cada vez mais a silhueta de um garoto se tornava observável e o abismo se convertia em algo estranhamente familiar.

Era hora de se entregar às forças que compunham o seu ser. De olhos abertos, pulou.