Um Camaleão que serpenteia entre meus dedos.

[Isso é eu tentando encontrar um narrador personagem, mas no fim acabo encontrando a mim mesmo].

Pixabay.

É meio difícil encontrar palavra com sentido entre uma virgula e um ponto. E é entre isso que eu me escondo as vezes para morder o lápis ou a unha e fingir que rumino alguma coisa que quando vomitada tomará a forma que será colocada em vitrines recicladas marrons, ou em simples tecidos mortos de mães-de-ar.

Tenho tendências a me olhar no espelho e não me ver. Apenas vejo a música que ouço, as pinturas que vejo, as palavras que leio, e o beijo que desejo. Vejo olhos que julgam, olhares sujos de vinho, vindas de entradas e saídas inacabadas. Eu vejo algo que morre, e isso da um pouco de sentido, mas só um pouco.

Estou cansado de ser aquilo que leio, e ser aquilo que sou: um não ser cansado de ser, preso nesta eterna antítese mortal que me come por dentro e que de certa forma me causa ânsia e fome de mais alimento, alimento de mim, um auto-flagelo perpetuado por tudo aquilo que um dia havia lutado para ser, e que agora é apenas uma marca de sopa em uma prateleira que alguém com um roteiro segura e prova com um dedo mais gorduroso que a gordura e vem me guiar por seus fios linguísticos destinados sempre a um fim. Eu não tenho fim! Eu sou Ouroboros.

Não quero ter que estar preso ao galho e me tornar ele. Estou cansado de me adaptar. O camaleão sempre muda, mas saiba que ele nunca deixa de ser camaleão, não importa que cor seja, ou aonde esteja. E isso me torna mais medíocre que ele.

Eu tenho esse cuspe que rumino, e vou cuspi-lo no papel que apresentarei amanhã.

Não tente fugir da sua sombra. Ela é a primeira a cuspir na sua cara.