Em uma tarde qualquer

Desenho: Bill Sienkiewicz

“Acho que vai chover” — pensei comigo mesmo, olhando as nuvens que vinham do sul. Acho que era sul. “Ficar mais um pouco deitado aqui”. A grama estava alta, parecia um tapete felpudo. O sol, agora entre nuvens, estava morno, nem parecia que estávamos no verão.

Escutava ao longe crianças brincando, um cachorro latindo, o vento assobiando uma melodia de chuva em meus ouvidos. “Todos os dias podiam ser assim”, pensei enquanto me espreguiçava como um gato.

- Acho que vai chover — disse uma voz suave do meu lado. Me virei e vi uma mulher sentada do meu lado com olhar perdido no céu. Tinha cabelos vermelhos como fogo, usava um vestido largo de tecido azul florido com flores brancas.

- Acho que sim — respondi voltando a olhar para o céu, agora quase todo branco e cinza.

- É tão bom poder curtir esses momentos no parque. Faz a vida ficar um pouco mais leve, né?

- É verdade. Pena que a chuva vai estragar meu momento de preguiça — respondi com uma certa tristeza. Me sentei para poder olhar melhor para ela. Tinha um rosto fino e lábios grossos. Seu rosto formava um conjunto harmonioso, clássico. Seu cabelo não era nem comprido nem curto e tinha uma ondulação que flutuava no vento que soprava anunciando a chuva eminente.

- Gosto de olhar a chuva caindo, apesar de não gostar muito dos trovões — olhando para mim com um sorriso sem jeito, mas lindo.

Ela tinha tatuagens pelo corpo, belas e coloridas. Um corpo esguio e muito bonito. Ainda sim carregava um olhar até certo ponto triste, distante.

- Vem sempre aqui — perguntei me sentindo um idiota, “Cantada criativa…” pensei ironicamente.

Ela riu docemente — Você consegue ser mais criativo — respondeu dando uma leve piscadela.

Rimos por alguns minutos, e enquanto a chuva não vinha, conversamos sobre tantas coisas que esqueci completamente do mundo por algum tempo. Logo a chuva começou a cair e corremos para debaixo de um quiosque velho.

- Estamos ilhados.

- Ilhados e molhados. Meu vestido está completamente ensopado.

Agora com o vestido molhado, puder olhar melhor para seu corpo. Era magro e muito bonito. Me peguei envergonhado ao fazer isso. A chuva começara a diminuir.

- Preciso ir, tirar esse vestido molhado e tomar um banho. Foi um prazer conhece-lo.

- Gostei muito da nossa conversa. Queria poder ver você de novo.

- Claro, mas de preferência em algum lugar mais coberto — e com um leve sorriso no rosto me deu o número do seu celular.

E antes que pudesse perceber, eu a estava beijando. Era como se mundo tivesse parado só para observar nosso beijo. Ela sorriu e com um leve aceno se despediu.

“Espero que isso seja mais que um sonho que uma tarde de verão” pensei rindo. Uma felicidade sincera preenchia meu peito de uma maneira que nem eu entendia, e sinceramente nem me preocupava em entender.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.