O Necromante — parte 2

Faz 2 dias que caminhávamos para o norte. O frio se tornava mais intenso e as noites mais longas. Alana e Elanor conversavam sobre os campos de magia e sobre as chances dos outros elementaristas estarem vivos. Marath e Niara, sempre que podiam, treinavam seus estilos de combate. 
- Pai, quem era Diagos? Lady Alana disse que você mais do que ninguém poderia me responder essa pergunta. 
- Diagos foi o último dos deuses antigos que habitaram Valios, Elanor. Era um deus poderoso e orgulhoso que se recusou a ceder seu trono para os novos deuses. Mas, por mais poderoso que fosse, Diagos não podia enfrentar todos os novos deuses sozinho, por isso, ele criou uma arte para formar seu exército. Assim nasceu a necromancia. Diferente das outras artes, qualquer raça ou pessoa poderia aprender a manipular os campos mágicos da morte, desde que abrissem mão de sua vida normal e prendessem sua alma nos restos que sobravam. Assim nasceram os Lichs, os senhores da morte.
- Que horror. Mas pai, como você se tornou um necromante sem ter virado um lich??
- Quando as forças de Diagos ficaram gigantescas, com um número enorme de lichs, zumbis e vampiros, ele começou sua marcha de conquista. O norte inteiro caiu e foi quando Ayakos e seu avô, Lorde Moros, criaram a cordilheira dos dragões. Nesse mesmo ano, Lady Miara, mãe de Lady Niara, profetizou que nasceria uma criança que manipularia os campos mágicos da morte com a mesma facilidade de Diagos. 2 meses depois eu nasci.
- Você é o escolhido que os registros de guerra falam?
- Odeio esse título. Eu era apenas filho de humildes mercadores das Ilhas de Ferro. Com 2 anos seu avô me achou, disse aos meus pais que eu era especial e que eu seria treinado para ser um dos magos da ordem imperial. Não lembro do rosto de seus avôs paternos. Quando voltei as Ilhas de Ferro, Diagos tinha destruído e matados todos do arquipélago. 
Quando percebi estava chorando e minha pequena estava me abraçando. Lembrei toda a dor que senti quando voltei e ali vi a destruição da casa de meus pais. Lembrei da alegria da Elanor não ser uma necromante e sim uma evocadora. 
- O vovô foi seu mestre, né? 
- O melhor. Era difícil para um elementarista ensinar algo para um necromante. Mas seu avô fez o melhor que pode. E foi mais que um mestre, foi um pai. Um pai que morreu me protegendo dos generais de Diagos. Terminei meu treinamento com Lady Miara que também morreu me protegendo. Tudo por causa desse título idiota de Escolhido.
- Foi por isso que você se afastou da mamãe e de mim e depois se afastou de Lady Alana? Medo de perder a gente? 
- Ser um necromante tem um outro problema e não é o medo de perder alguém. Manipular os campos da morte, atrai para você as criaturas de Diagos que ficaram vivas depois a queda dele. Passei os últimos 6 anos caçando e destruindo os servos dele. Não podia envolver vocês nisso.
- Nós podíamos ajudar. Já pensou nisso?
A pergunta me lembrou Alana em nossa despedida: “EU SOU A MAIS PODEROSA CRONOMAGA QUE EXISTE. VOCÊ ACHA QUE NÃO POSSO ME CUIDAR??” Mas, eu preferia fazer isso sozinho. Pessoas demais já haviam morrido por minha causa.
- Você fala que odeia o título, mas, age como se fosse o mais poderoso de nós. Eu sou a única evocadora que existe nesta era, mamãe é tão forte quanto lorde Ayakos, tia Alana pode aniquilar dragões estalando os dedos, e ainda assim você age como se só você pudesse acabar com as hordas desse tal de Diagos. Para mim isso é desculpa de quem quer ficar sozinho, papai — e com a fúria estampada no rosto, ela se afasta de mim.
 Continuamos andando por mais um tempo até achar um local para podermos montar acampamento. Elanor permaneceu calada, assim como todos os demais ao perceberem o clima tenso entre nós dois. 
- Eu faço o primeiro turno de vigia — disse me afastando do acampamento. Precisava ficar um pouco só.
Cerca de uma hora depois, Alana se aproximou de mim com um cumbuca de sopa e um pedaço de pão. Me entregou e sentou-se do meu lado e por um momento ficamos olhando calados um para o outro. 
- Tem certeza que não quer que eu comece a guarda? Você parece cansado.
- Não precisa se preocupar, Alana. Gosto de ficar no início da noite, aliás, eu preciso espairecer as ideias longe do grupo por um tempo. 
- Vi que Elanor está brava com você. Lembrou bastante a reação que eu tive quando você partiu.
 — Ela tem razão de estar brava. Sou um pai ausente e agora a mãe dela pode estar morta — disse com a boca cheia de sopa e pão — Soube que ela sozinha parou um exército de goblins. Seu poder deve ser assustador.
- Não tanto quanto o poder do pai dela. Tente entende-la, Devos. Ela cresceu com pouco contato com o pai, e descobre agora que ele é o herói da guerra contra Diagos, além da pressão de ser a evocadora desta era. Você esquece, que da mesma maneira que só existe um necromante vivo em Valios, só existe uma evocadora viva, que é sua filha. Pense nisso. 
Enquanto Alana se afastava, além de lidar com a sensação ruim de ir até Sorania, agora tinha que lidar com a culpa das minhas escolhas e a preocupação se Lumina estava bem. “Se ela estiver morta, Elanor não vai me perdoar nunca” — o pensamento me perseguiu por todo meu turno de vigia.
- Vá descansar, meu amigo. Agora eu assumo — disse Marath trazendo uma garrafa de algo que eu não consegui reconhecer. Apenas acenei com a cabeça e fui dormir. 
Novamente os pesadelos foram meus acompanhantes da noite, como um aviso sinistro, que ir ao trono de ossos era uma péssima ideia.

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