Más traduções

Marco Neves
Aug 18, 2013 · 4 min read

DETESTO MÁS TRADUÇÕES. A própria má tradução: o erro, a ferida, cada palavra mal colocada, cada ponto em que se percebe que um texto é uma tradução, são tudo ódios de estimação. Poderá parecer óbvio o que digo, mas a maior parte das pessoas regozija-se com más traduções. São uma prova da sua superioridade de gente que até lê outras línguas e percebe o que os profissionais do ofício não conseguem; há também tradutores que gostam de más traduções, que coleccionam erros alheios como pérolas (“vejam o que eu não faço”). Pois eu (que confesso ser tradutor) não me regozijo. É bom ler um bom texto (tradução ou não). A produção de um texto traduzido tem uma tripla faceta: tem de ser um bom texto (escrito em bom português; mesmo quando o original é mau, pergunto-me?), tem de ser bem traduzido (fiel ao original) e não deve ter aspecto de tradução. A má tradução é uma falha nesses três aspectos: falha na qualidade do texto, falha na tradução, falha na transparência da mesma. Um erro de tradução é uma nódoa no que devia ser um vidro o mais transparente possível (ou, pelo menos, o mais homogéneo possível). É um prazer ver um trabalho bem feito, em que sabemos que se gastaram horas e horas para criar um bom texto, cujo trabalho de tradução se pretende que passe totalmente despercebido ao leitor. Esse é o objectivo do bom tradutor: ser discreto. O ofício funciona assim: quanto mais um tradutor trabalha num texto, menos o leitor reparará no seu trabalho.

É um prazer ver um trabalho bem feito, em que sabemos que se gastaram horas e horas para criar um bom texto, cujo trabalho de tradução se pretende que passe totalmente despercebido ao leitor.

É POR ISSO QUE É IMPORTANTE SABER como surgem as más traduções, para podermos evitá-las. Em primeiro lugar, são fruto da pura incompetência: das falhas de conhecimentos da língua de partida, dos erros de português, das ignorâncias culturais e técnicas, das distracções, daquilo que se pensa que sabe mas não sabe, da pouca familiaridade com os instrumentos de trabalho. Em segundo lugar, surgem das más condições de trabalho: prazos apertados, gestão de ficheiros mal feita, instruções mal dadas ou tardias, tradutores contratados para trabalhos fora da sua área de especialização, etc. Não estou, entenda-se, a desculpar o tradutor: este deve saber defender-se e trabalhar depressa e bem quando é preciso. Mas, em terceiro e último lugar, a grande maioria dos erros radica na preguiça. O tradutor até tem jeito, até tem tempo, mas não está para se chatear. Por isso é preciso caçá-las, às más traduções, sem descanso, para que a preguiça nunca seja recompensada. Pessoalmente, sei que, enquanto tradutor, nunca chego onde quero. Nunca atinjo a transparência ideal. Mas não posso deixar de tentar nem posso permitir que a culpa seja da preguiça. Isso nunca.

[…] a grande maioria dos erros radica na preguiça. O tradutor até tem jeito, até tem tempo, mas não está para se chatear.

POR ÚLTIMO, UMA NOTA FINAL. Imaginemos uma percentagem de erros de tradução. Digamos que os tradutores, no seu conjunto, erram cinco por cento das vezes (cada qual que entenda esta percentagem como quiser, para o caso vai dar ao mesmo). Pois o engraçado é que desses cinco por cento, uma boa metade varia conforme o leitor. Isto porque em questões linguísticas todos temos doutoramento e todos avaliamos o próximo sem perdão e ao primeiro deslize, seja ele qual for. Há quem julgue um crime lesa-língua dizer “terramoto” e não “terremoto”. Outros há que largam sermões a torto e a direito quando a utilização de “porque” ou “por que” está em desacordo com o seu critério pessoal. Todos temos uma colecção de pequenos pormenores ou caprichos infundados que adoramos atirar à cara dos outros. A língua é das áreas onde as certezas são maiores, as ignorâncias próprias passam mais despercebidas e a sensação de superioridade em relação a quem não sabe falar ou escrever é mais reconfortante. Em consequência, é absolutamente impossível agradar a gregos e a troianos: um dia talvez consigamos conciliar a teoria da relatividade com a mecânica quântica, mas haverá sempre quem discuta se se diz “pode-se dizer” ou “pode dizer-se”. Entendamo-nos, no entanto: nada disto implica que não haja critérios para avaliar as traduções e a produção escrita. Claro que há. Mas pior que uma má tradução é o riso escarninho por causa dum erro que não é erro, quando o leitor transporta para uma boa tradução um erro ilusório de invenção própria. Exemplo? Quando oiço alguém rir por encontrar a “couple of things” traduzido como “algumas coisas” (tradução correcta), insistindo depois por entre um trejeito de superioridade que o tradutor devia saber que “couple of things” é sempre “duas coisas”. Sinceramente…

Este artigo foi publicado originalmente no blog Ingleses Constipados, há alguns anos. A minha reflexão sobre a tradução já está noutro sítio, mas achei interessante partilhá-lo também aqui.

Entre Linguas

Revista sobre tradução e tecnologia

    Marco Neves

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