Quem diz “lol” devia ser castigado?

Há uns tempos, vi-me envolvido numa discussão algo azeda com uma amiga de um amigo — é o que dá comentar posts no Facebook…

A razão? Atrevi-me a dizer que as pessoas que dizem da boca para fora a novíssima palavra “lol” não estão a dar cabo da nossa pobre língua.

A amiga do meu amigo ficou indignadíssima com a minha falta de indignação e abandonou a conversa a meio, pedindo desculpa ao meu amigo (a mim não valia a pena pedir desculpa: quem defende a palavra “lol” não merece consideração).

Qual era, segundo a minha interlocutora, o grande perigo do “lol”? Pelos vistos, essa palavra substitui o riso e isso não pode mesmo ser permitido. Segundo ela, estas coisas não são passíveis de discussão serena porque a língua é instrumento de raciocínio — o que me leva a concluir que usar “lol” na oralidade dá cabo do pensamento e nem sequer podemos, enfim, raciocinar sobre o tema.

Respiremos fundo.

Dizer que “lol” é uma interjeição informal criada pelo mesmo mecanismo que nos deu a palavra “laser” devia chegar para pensar no caso de forma mais calma. “Laser” é uma abreviatura duma expressão inglesa que usamos como se fosse uma palavra — exactamente o que acontece com “lol”.

Também devia ajudar a acalmar as hostes dizer que “lol” não substitui o riso, tal como “ai” não substitui o choro. Aliás, na boca de algumas pessoas, “lol” parece ser uma curiosa interjeição irónica (“lol… tens muita graça, tens…”).

Na escrita, esta abreviatura duma expressão inglesa serve para expressar o riso. Na oralidade, é apenas mais uma interjeição, que pode ser usada em contextos familiares ou informais. Pode sobreviver mais uns anos, pode desaparecer, pode vir a fazer parte da língua… Todas as gerações têm estas palavras usadas entre amigos (a minha geração tinha o “bué”, que tanto irritava pais e professores) — até hoje, o português não desapareceu.

Querer proibir estes laivos de criatividade informal é o mesmo que exigir roupa formal em todas as ocasiões. Sim, há ocasiões em que dizer “lol” é um grande erro (tal como dizer “bué”). Mas, em casa ou entre amigos, qual é o problema? A linguagem humana não cabe nos nossos apertados moralismos…

(Perguntam-me algumas pessoas: mas não temos direito a achar irritante uma determinada expressão? Claro que sim! Também tenho as minhas manias e irritações. Só não as mascaro de moralismo linguístico e defesa da capacidade de raciocinar: como se dizer “lol” nos tornasse burros…)


Originally published at www.certaspalavras.net.

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