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"A Metamorfose" de Franz Kafka, e o mal estar na sociedade.

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos." (A Metamorfose — página 7)

Talvez com uns dos começos mais impactantes na literatura, Kafka nos traz em "A Metamorfose" um misto de emoções, análises e dúvidas. A narrativa, que beira o inverossímil, é uma imersão no mundo de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, que de um dia para outro se transforma em um grande inseto asqueroso e monstruoso. A partir daí, Gregor, que antes era o provedor da família, se vê incapacitado de fazer as atividades mais básicas como levantar da cama e abrir um porta.

O desenrolar da história nos mostra as dificuldades da família (pai, mãe e irmã) em lidar com a situação, muitas vezes ignorando o fato de que um dia aquele bicho era antes Gregor. A narrativa beira o real e ao mesmo tempo o imaginário e o absurdo, essa dualidade é apresentada durante toda a leitura. Antes Gregor era o provedor, agora o parasita, era uma pessoa, agora um bicho, era parte da família, e agora um intruso dentro de seu quarto.

Gregor não era mais o filho querido, era a vergonha e o medo representado simbolicamente pelo seu aspecto. Mesmo que ele tivesse as mais nobres intenções para interagir com seus familiares, era sempre visto como uma forma ameaçadora, mas ao mesmo tempo frágil, visto que muitas vezes Gregor era quem sofria os maiores danos.

Kafka traduz perfeitamente de forma simbólica, com textos simples de ler, porém altamente descritivos, o que era representado em sua época. O homem do século XX (o ano de sua publicação foi em 1915, mas foi finalizado quase três anos antes em 1912, poucos anos antes do início da primeira grande guerra) passava por diversas mudanças, o que Kafka traduz em sua literatura como uma força invisível, um sentimento de impotência, quando acasos das quais não temos ciência, mudam nossas vidas e tornam tudo diferente, no caso de "A metamorfose" é a sua própria transformação.

Talvez seja por isso que o livro se tornou tão atemporal, pois parece que sempre estamos sendo influenciados por essas forças, e esse sentimento de impotência é em grande parte real em nossas vidas. Kafka dialoga de forma brilhante com a sociedade, utilizando uma história que ao mesmo tempo é ficção, e realidade, mostrando para nós a nossa verdadeira natureza humana.

"A Metamorfose" é melancólico, é viceral, mas é necessário. O que nós resta a dizer por fim é: obrigado Kafka.

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Entrelivros é um blog de reviews literários e discussões sobre o mundo

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