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Psicopolítica e a crise da liberdade

Byung-Chul Han é um filósofo contemporâneo sul-coreano (residente na Alemanha) que se dedica a retratar como a sociedade se comporta perante as relações entre a última fase do capitalismo¹ e a tecnologia, para entender como isso interfere no psicológico das pessoas. Partindo da psicanálise, da sociologia e da filosofia existencialista², Han estabelece um paralelo para encontrar uma justificativa para as doenças psicológicas que nos atormentam e se tornam o "mal do século".

Em sua obra de 2014, "Psicopolítica. O neoliberalismo e as novas técnicas de poder", Han nos esclarece as novas concepções de poder que são invisíveis, fazendo diversos paralelos entre o estilo de sociedade passada,"sociedade de controle", e a nossa sociedade, "sociedade digital".

Para esclarecer melhor esse artigo, irei dividir ele em três e as partes serão lançadas no decorrer do tempo.

  • A crise da liberdade
  • Psicopolítica vs Biopolítica
  • Big data e o "Grande Irmão"

A crise da liberdade

Hoje, em um sistema democrático, temos a certeza de sermos livres, somos indivíduos providos de liberdade de opinião e desejo aberto de compartilhar sentimentos. A coerção é deixada de lado, o indivíduo não se submete mais a nenhum tipo de ação delimitadora, o "eu" assume o protagonismo. Entretanto esse mesmo "eu", que acreditava ter se libertado das coerções externas, assume uma posição restritiva, mas agora de forma interna, na forma de obrigações e desempenho.

Vivemos um momento histórico particular no qual a própria liberdade provoca coerções. A liberdade de poder (Können) produz até mais coações do que o dever (Sollen), que expressa regras e interditos.³

Vamos a um exemplo prático, no início do século XX as relações de trabalho eram baseadas exclusivamente na relação direta entre patrão e funcionário, a coerção existia entre essa dicotomia externa, o patrão que determina a hora que o funcionário começa e termina de trabalhar, e seu nível de produtividade. Atualmente esse contrato se modificou, somos patrões de nós mesmos, o empreendedorismo e a uberização das relações de trabalho⁴ fazem com que o próprio “eu” se torne a própria força de coerção, a falsa liberdade de achar que você controla sua própria rotina de trabalho, e com isso trabalhará menos, é falsa, muitas vezes é o oposto que se sobressai. A cultura workaholic é fruto dessa falsa impressão de liberdade, maquiada por uma força de desempenho de máxima produtividade que causa mais crises de estresse, depressão e síndromes de ansiedade.

O sujeito neoliberal como empreendedor de si mesmo é incapaz de se relacionar livre de qualquer propósito. Entre empreendedores não surge amizade desinteressada.⁵

Han também cita como o neoliberalismo é muito eficiente em explorar a liberdade. Para ele, o neoliberalismo explora todo o tipo de formas da expressão da liberdade (como a emoção, o jogo e a comunicação). O neoliberalismo é a transmutação do capitalismo, sendo assim o modo capitalista financeiro que explora a relação material das coisas, se transforma em métodos de exploração do imaterial e o pós-industrial, ou seja, o desejo pelas coisas físicas é superado pelas coisas não físicas como os sentimentos, as relações e a comunicação, por exemplo. Para Han, o neoliberalismo não se divide em classes, como burguesia x proletariado, não se constitui por estratos antagônicos da sociedade. Na produção imaterial, cada um possui seu próprio meio de produção. Por isso a divisão entre proletariado e burguesia já não se sustenta.

Literalmente, o proletariado é aquele que tem como única propriedade a própria prole. A sua autoprodução se restringe à reprodução biológica. Hoje, no entanto, é disseminada a ilusão de que qualquer um, enquanto projeto se esboça livremente, é capaz de uma autoprodução ilimitada.

Han também contradiz a teoria marxista da “ditadura do proletariado”, onde ele afirma que não seria possível nos dias atuais, já que estamos dominados por uma ditadura do capital.

O regime neoliberal transforma a exploração imposta por outros em uma autoexploração que atinge todas as classes. Essa autoexploração sem classes é completamente estranha a Marx e torna a revolução social impossível.⁷

O neoliberalismo transforma o cidadão em consumidor, e a passividade do consumidor cede a liberdade do cidadão. Até mesmo nós como eleitores, somos vistos como consumidores, as eleições correm como grandes disputas mercantilistas onde tentam conquistar o público com ações de marketing, fornecendo “mercadorias” maquiadas de promessas e não de fato com ações reais para o bem comum, com isso, essa passividade do eleitor perante o consumidor, gera um desinteresse real pela política.

A transparência que hoje se exige dos políticos é tudo menos uma demanda política. Não se reivindica a transparência para os processos políticos de decisão, nos quais nenhum consumidor está interessado.⁸

Essa demanda por transparência pressupõe uma relação de espectador, e não de um cidadão engajado. A participação política ocorre em forma de reclamações e lamentações, como a relação entre a indústria do entretenimento e seus espectadores. Zygmunt Bauman e Leonidas Donskins no livro “Cegueira Moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida”, também fazem um comparativo entre política e a indústria do entretenimento, para Donskins:

Só duas coisas tem valor no mundo da sociedade tecnológica e consumista, como mostrou Houllebecq: o entretenimento da política e a política do entretenimento.⁹

Com isso, a sociedade da transparência que Han explica, é uma sociedade que funda a “democracia de espectadores”.

Na sociedade da transparência, cada dispositivo, cada técnica de dominação, produz uma relação de devoção, que vira uma relação de submissão. “Devoto significa submisso”.¹⁰ O melhor exemplo pra exemplificar essa relação são os smartphones. Os aparelhos são objetos de devoção, à medida que se formam filas para se comprar novos modelos lançados, essa devoção se torna submissão quando não conseguimos nos desgrudar 3 horas seguidas do celular. A relação de poder é psíquica e invisível, não é o poder clássico, delimitador, coercitivo, mas sim um poder com base no desejo, ele não tira de você, ele se adiciona à você, ele não proíbe, seduz. O poder inteligente se funde à psique, ao invés de disciplina-lá e submetê-la, não é imposto nenhum silêncio, pelo contrário é intensamente estimulado compartilhar, participar, dar opinião, abrir suas necessidades, desejos e preferências. O poder afável e inteligente, lê e avalia nossos pensamentos, o nosso inconsciente. Assim ele não precisa de nenhuma resistência, ele simplesmente acontece, sendo o “curtir” sua simbologia máxima.

Referências Bibliográficas

1- www.brasilescola.uol.com.br/geografia/fases-do-capitalismo

2- www.brasilescola.uol.com.br/filosofia/existencialismo-sartre

3- HAN, Byung-Chul . Piscopolítica- O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. São Paulo: Âyiné, 2018, p.9.

4- www.cartacapital.com.br/justica/a-uberizacao-das-relacoes-de-trabalho/

5- Ibid., p. 11

6- Ibid., p. 15

7- Ibid., p. 16

8- Ibid., p. 21

9- Bauman, Zygmund; Donskins, Leonidas. Cegueira Moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p.89.

10- Ibid., p. 24

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