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Ana Morena frente à presidência da ABRAFIN — musicista e produtora do RN comenta sobre representatividade, ações e desafios

A Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN) elegeu neste ano uma nova diretoria para a entidade nacional que representa mais de 100 festivais filiados. Trocamos uma ideia com a nova presidente Ana Morena para entender melhor o caminho de desafios que se estende para o cenário da música ao vivo independente atual

Ana Morena é figurinha já conhecida de muita gente que está por dentro do cenário de música independente. Produtora cultural, curadora e musicista, também é sócia e idealizadora do Combo Cultural DoSol, que em 2021 completa 20 anos e envolve selo, estúdio, produtora de vídeo e festival. Entre seus principais projetos, estão o Festival DoSol, o Pôr do Som, o Natal Instrumental e a Incubadora DoSol. Também é fundadora do Camarones Orquestra Guitarrística e participa de outros projetos musicais como o Talma&Gadelha, Aiyra e Bandíssima.

Já a Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN) foi criada em 2005 com o objetivo de dialogar com o poder público ações em favor do segmento de música ao vivo.

À época de sua criação, o surgimento de novos festivais era impulsionado pela consolidação do diálogo entre poder público e a sociedade civil através das primeiras conferências culturais do país e um alinhamento junto ao Ministério da Cultura, gerido à época pelo ex-Ministro Gilberto Gil. Mais tarde, com uma retroação das políticas culturais no Brasil, o diálogo com o poder público retroage e a ABRAFIN vive um hiato. Mas, no dia 26 de janeiro de 2020, com a deflagração da pandemia da Covid-19 no Brasil e os impactos profundos ao setor de eventos, arte e cultura, a ABRAFIN retomou o trabalho pela necessidade de fortalecer uma das atividades culturais mais afetadas pela pandemia que são os festivais de música do país.

Festivais cancelados, contratos diversos com fornecedores, produtores, roadies, comunicadores, músicos e artistas são interrompidos e inúmeros trabalhadores diretos e indiretos passam a ficar sem renda. O grupo lança então o MANIFESTO DOS FESTIVAIS UNIDOS EM TEMPOS DE CRISE que consegue reunir a assinatura de mais de 100 Festivais e propõe um conjunto de propostas para mitigar os danos causados pela pandemia, além de uma articulação em torno da criação e aprovação da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc - que prevê um repasse de R$ 3 bilhões a estados, municípios e ao Distrito Federal para medidas de apoio e auxílio aos trabalhadores da cultura atingidos pela pandemia.

Em 2021, no entanto, a pandemia parece longe de acabar e atinge o seu pior pico, fazendo com que os festivais permaneçam impossibilitados de serem executados em sua totalidade. A manutenção da Lei Aldir Blanc e a construção de políticas públicas relacionadas a iniciativas que amparem de forma emergencial o setor seguem em pauta e com ainda mais urgência. Agora, a entidade trabalha na efetivação plena da Lei Aldir Blanc I, na articulação da Lei Paulo Gustavo e em uma nova remessa da Lei Aldir Blanc II.

E, então, em maio deste ano, a ABRAFIN elege uma nova diretoria para o biênio 2021–2023, que será capitaneada por duas mulheres, Ana Morena Tavares na presidência e Sara Loiola na vice-presidência. A chapa única foi referendada pelos associados e é composta por 26 diretores que representam 15 estados de todas as regiões do país.

Buscando enfrentar o desafio de “equilibrar representatividade e ação”, a musicista e produtora,do Rio Grande do Norte, Ana Morena considera essencial formar um grupo amplo, plural e capilarizado na diretoria de uma entidade que é composta por mais de 100 festivais de diferentes tamanhos, histórias e localidades.

A Entre LP, então, trocou uma ideia muito interessante com a nova presidente sobre representatividade, sua experiência à frente de festivais, a nova jornada que se inicia à frente da entidade neste período tão crítico e os desafios e propostas da ABRAFIN pela sobrevivência dos festivais que são, com toda certeza, grandes geradores de renda e valor ao produto cultural pulsante dos brasis.

Você confere a conversa completa logo abaixo ;)

Ana — Sou filha de professora, escritora, dramaturga e atriz e irmã de um músico e publicitário. Comecei no teatro aos 11 anos e aos 14 comecei a tocar baixo. Aos 18 tive minha primeira banda com meu irmão e em 98 começamos eu e meu sócio Anderson Foca a construir o que hoje é o DoSol. Natal era uma cidade que mal tinha estúdio pra gente ensaiar e gravar um disco era algo muito caro. Então começamos montando um estúdio, depois um selo, em seguida um espaço cultural, um festival, documentamos todas as nossas ações desde o inicio, temos um YouTube com quase 3mil vídeos autorais de todo tipo de registro de shows ao vivo, vídeos docs, sessions, etc. Em 2021 o DoSol completa 20 nos e estamos bem felizes com a trajetória até aqui e fortes para continuar. Temos vários projetos e uma incubadora que fortalece tanto os artistas produzindo como público consumidor dessa música.

Os desafios só aumentaram. Acho que a principal dificuldade dos festivais é a continuidade e a sustentabilidade e esse problema foi agravado pela pandemia. Vamos demorar alguns anos para retomar os projetos com a potência que tínhamos antes, Isso é fato. E nessa nova formatação dos projetos vamos ter que definir como os protocolos de segurança contra a Covid serão praticados, tem toda uma logística e uma tecnologia que vamos ter que desenvolver junto às entidades científicas e depois trabalhar com o público, equipes, etc.

Acho fundamental termos mulheres, pessoas pretas, LGBTQIAP+ e pessoas da periferia em cargos de liderança e de gestão. Só acredito na transformação real vinda de dentro. Só há equidade quando essa equidade for em todos os setores e em todos os níveis de trabalho na sociedade. Inclusive, essa é uma premissa da diretoria que montamos na Abrafin. Temos uma diretoria com 26 pessoas, 14 mulheres, gente de projetos gigantes e projetos menores, da capital, do interior, da periferia, gente de todos os cantos do Brasil, porque como podemos ter uma diversidade de pautas se a diretoria não tiver essa representatividade. Acho muito emblemático que a retomada das atividades da entidade seja com duas mulheres pretas e nordestinas na presidência (Eu sou de Natal/RN) e vice-presidência (Sara Loyola é da Bahia mas mora em Brasília). É uma abertura de caminhos que não vão mais ser fechados. A nossa gestão tem um compromisso com a ampliação da diversidade nos nossos festivais. A ideia é fazermos um mapeamento com os nossos filiados para a partir daí entendermos quais as dificuldades e como desenvolver ações para ajudar a ampliar esse olhar.

Participamos ativamente da aprovação da Lei Aldir Blanc, fizemos manifesto, promovemos conversa públicas onde trouxemos muitos agentes culturais e parlamentares para dialogarem, fizemos muito barulho e apoiamos intensamente essa construção das nossas redes e nas dos nossos festivais. Após aprovada, desenvolvemos um modelo de edital direcionado para os festivais e enviamos para os secretários de cultura dos municípios e estados para auxiliá-los, muitos usaram como base para aplicação da LAB em seus municípios e estados. Estamos mantendo a narrativa na Paulo Gustavo e estamos agora fazendo coro à proposta para que a LAB vire um fundo fixo.

A Abrafin é uma entidade de classe. Ela representa mais de 100 festivais independentes brasileiros filiados e trabalha pra fortalecer e fomentar a cadeia da economia da cultura onde eles estão inseridos. Estamos arrumando a casa burocraticamente e operacionalmente. Temos grupos de trabalho que estão focados em segmentos importantes pra essa diretoria como a ampliação da diversidade nos nossos festivais e fomento de políticas públicas para auxiliar setor a voltar a trabalhar.

Além disso, estamos mapeando e trazendo mais gente pra compor a entidade pq acreditamos muito que em bloco conseguimos falar mais alto e ter uma representatividade importante do setor e isso se reflete nas pautas que encabeçamos.

Também formamos um grupo de trabalho para desenvolvermos protocolos, junto com instituições científicas parceiras, e pensarmos a retomada dos festivais de forma segura e consciente. Estamos abrindo diálogos com o setor para conversarmos sobre uma retomada segura, com protocolos bem definidos aliados à ciência e que funcionem. Então temos muito trabalho pela frente.

Todo o trabalho que fazemos na Abrafin para os festivais abrange toda essa cadeia de trabalhadores da música que você falou, por isso é tão importante termos os festivais acontecendo e de forma sólida e sustentável. Porque a quantidade de pessoas envolvidas de todos os setores e níveis técnicos é imensa. Os Festivais são um dos principais vetores de aquecimento e geração de trabalho do setor da música localmente falando.

Eu enxergo a gente realizando porque é isso que a gente faz, a gente realiza. Vamos nos adaptar, vamos brigar muito por políticas e ações que fomentem o setor porque somos fundamentais para a cena cultural das nossas cidades por tudo que falei antes. E vamos nos apoiar e construir uma forma segura de realizarmos os nossos projetos para todo mundo: artistas, equipes e público. Vamos conseguir. Agora, precisamos nos vacinar, 1a e 2a dose, não há fim de pandemia sem que as pessoas se vacinem.

Mais informações sobre a ABRAFIN:

www.abrafin.mus.br

E, se você quiser, siga a Ana no Instagram. :)

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