Lorde, Solar Power e a arte de ser leve

Muita gente se decepcionou com novo álbum da Lorde, mas o conceito por trás da leveza do disco pode ser o prenúncio de uma nova fase no pop

Damy Coelho
Aug 25, 2021 · 10 min read
Lorde e o sol como musa inspiradora (Reprodução)

Desde quando entrou para a indústria da música, Lorde mostrou que não era só mais uma cantora pop. Mesmo com pouco mais de 17 anos, já tinha claro o conceito que queria para a sua música: tendo os sintetizadores minimalistas como base, junto a um jeito de cantar que mal cabe na métrica, quase como um spoken word, ela conseguiu lançar hits de synth-pop que destoavam das baladas da época entoadas por Katy Perry ou Justin Bieber. As letras, desde sempre muito elogiadas, ajudariam a colocá-la como outsider de um status-quo, tal como ocorreu no seu primeiro hit, Royals, em que ela tira onda dos jovens de sua idade deslumbrados com a fama e o dinheiro. Uma série de elementos faziam com que Lorde se tornasse uma figura interessante demais para ser ignorada.

Em 2017, ela superaria a temida síndrome do primeiro álbum lançando um segundo disco igualmente aclamado. Não só: Melodrama foi tido como mais maduro pela crítica, já que Lorde agora abordava temáticas inerentes à sua vida de jovem adulta: as decepções amorosas, as festas, a bad que bate ao ficar sóbrio depois de uma viagem de doce e eteceteras. Outro ponto aclamado foram as referências ao próprio álbum de estreia, referências essas que muitas vezes contradiziam suas primeiras músicas: se no primeiro disco ela afirmava que não queria se misturar com populares (ou melhor, com a “realeza”), no segundo ela assumia que, sim, no fundo, ela também queria fazer parte da turma. Quem nunca? Afinal, a sua percepção de mundo aos 17 definitivamente não é a mesma quando se chega aos 20.

E agora, quatro anos depois, Lorde mostra que não tem medo de se contradizer, mais uma vez. E que não há nada de errado com isso, afinal, faz parte do processo de amadurecimento, inclusive artístico. Um exemplo: em contraste com a persona gótica que só usa cores escuras, em Solar Power, Lorde aparece reluzente, com direito à cropped amarelo-ouro e pouca maquiagem. Mas este é só o começo.

Hoje imersa em um mundo diferente daquele que conhecia durante sua juventude anônima; posta como genial por artistas a quem ela toma como referência e podendo “comprar tapetes caros e ganhar um bom dinheiro” (como ela mesma afirma), Lorde tem uma outra visão de mundo, um pouco mais pé no chão, o que se reflete em Solar Power.

Em suas composições, decide levar uma de suas maiores musas inspiradoras — a celebritização — a um outro patamar, com espaço inclusive para a sátira (ou seria mea-culpa?). É o que ocorre na faixa Mood Ring.

Inspirada por um artigo de Jia Tolentino que escancara o otimismo comum da mulher branca, gerando toda uma indústria lucrativa de self-care liderada por influenciadoras riquíssimas, Lorde parece mais uma vez olhar ao redor de si, mostrando que essa ~ positividade ~ é uma tendência forte, ainda que com contornos problemáticos, os quais ela também reconhece e aponta. Talvez seja um momento em que Lorde ainda esteja apegada a uma afirmação de que não quer pertencer àquele mundo, apesar de, no fundo, saber que já pertence. É como quem afirma ser impactada por esse otimismo mercadológico, mas não querer ser definida por ele. As demais faixas, porém, retratam uma visão de mundo menos ácida, mas ainda assim, positiva, mostrando que dá para ser otimista sem cair na superficialidade.

É o que acontece em canções tão positivas que soam quase inocentes, como Dominoes, que lembra uma roda de violão com amigos durante o por do sol na praia, uma cena recortada daquelas férias na juventude das quais não se esquece nunca, uma celebração das próprias memórias. Ou a deliciosa Secrets From a Girl, que parece saída da trilha sonora de Como se Fosse a Primeira Vez ou de algum filme de verão das irmãs Olsen. (Se você acha que isto é uma crítica, sinto muito por não saber apreciar um entretenimento leve e otimista. risos)

O otimismo, aliás, é elemento de estudo de Lorde, porque ela o explora tanto na fase hippie quanto no princípio dos anos 2000, dois momentos distintos que a artista usa como inspiração para seu novo trabalho. Nos anos 2000 de sua infância, o otimismo não era tão mal quisto simplesmente porque era menos ilusório e mais real (inspirado pela boa fase econômica, por governos de esquerda no poder e tudo mais).

Mas o ponto alto de Solar Power passa por faixas como California e Fallen Fruit, ou a própria faixa-título. A primeira é uma espécie de releitura da ode à California de Joni Mitchell, em uma versão repaginada para século XXI, menos emocionante e mais animada em relação à anterior, mas ainda inspirada pelo calor, pela música e pela gente.

Passion Fruit fala sobre as mudanças climáticas, tema recorrente do disco e muito inspirado por sua imersão quase antropológica na Antártica, em 2019.

A letra é uma espécie de carta à geração dos seus pais, talvez inspirada no famoso discurso de Greta Thunberg sobre preservação ambiental. Essa preocupação com a natureza, como se sabe, foi onipresente no movimento hippie dos anos 1960 e infelizmente segue atual, levando em conta que o mundo vem sendo governado por gente assassina, altamente desmatadora e antiprogressista. A história é cíclica, afinal de contas, e cabe também à música nos lembrar dessa realidade.

Lorde citou como inspiração para o conceito do seu álbum a declaração do ator Mark Rylance, de que "os artistas deveriam contar histórias que encorajem as pessoas a se apaixonarem pela natureza novamente".

Além de aparecer como temática nas composições, a crise ambiental também amarra a execução do novo trabalho como um todo. Por exemplo, Solar Power foi lançado apenas em versão digital e vinil para não incentivar o consumo excessivo de plástico advindo do lançamento em CD. A explicação dada por ela à Vogue foi, no mínimo, interessante: “se eu mesma não tenho essa mídia física em casa, não vejo por que incentivar uma indústria inteira a produzi-la”.

"O álbum é uma celebração do mundo natural, uma tentativa de imortalizar os sentimentos profundos e transcendentes advindos disso", disse Lorde em um comunicado à imprensa relatado pela Billboard."Em tempos de dor e tristeza, procuro respostas na natureza"

Outro ponto alto de Solar Power é a parceria com sua banda: Lorde resolveu deixar os sintetizadores um pouco de lado, investindo nos instrumentos orgânicos até então inéditos em sua discografia: os mais desavisados devem ter estranhado quando um violão à lá Luau MTV entra no meio de uma música. Mas, para quem ficava meio decepcionada com as apresentações minimalistas da cantora (spoiler: eu), que tinham no máximo um baterista escondido e um sintetizador mirradinho, as apresentações ao vivo agora soam até mesmo grandiosas, acompanhadas de uma banda completa e de alta qualidade, com guitarras, bateria, baixo, violão.

Se fosse lançado na década de 90, Solar Power se enquadraria no pop rock veraneio junto a nomes como Natalie Imbruglia ou a Nelly Furtado. Até à Sheryl Crow a Lorde foi comparada.

Eu não sei vocês, mas eu adoro tudo isso daí.

Porém, como pude perceber dando uma rápida olhada no Twitter ou lendo alguns reviews de jornalistas brancos decepcionados, Solar Power teria se mostrado “falsamente promissor” (?),“afetado” e, pior: “genérico”. Enquanto o mundo está acabando, Lorde está na praia. Ou algo do tipo.

A metamorfose de Lorde em Solar Power não se mostrou muito bem-vinda. Alguns talvez até preferissem sua persona melodramática — como se ela, enquanto artista, não tivesse mais nada a oferecer que não fosse o mais-do-mesmo, um mergulho em seu universo juvenil, atmosférico e levemente triste.

O Crítico — Kleber Mendonça Filho (Reprodução)

Até a sempre elogiada parceria com Jack Antonoff e os músicos de apoio parece ter decepcionado: como artistas tão talentosos estariam “desperdiçados” em um álbum tão “genérico”? Como se a música pop, por si só, não tivesse espaço para álbuns com leveza rítmica e um quê de easy listening. Às vezes eu acho que essas pessoas se esquecem que estão escrevendo sobre um álbum de música pop que facilmente tocaria nas rádios, para tentar deixar as pessoas um pouco felizes depois de um dia cheio, e ficam só esperando apenas pelo último masterpiece das belas artes. Vai entender.

Nesse momento, lembro que os grandes portais de música vêm fazendo uma espécie de revisionismo, exaltando tardiamente álbuns que foram ignorados ou que não passaram pelo crivo de qualidade na época de lançamento, como acontece com a Pitchfork ou a Rolling Stone. Talvez isso aconteça no futuro com Solar Power, ou talvez ele continue sendo apenas um ponto fora da curva na discografia de Lorde, assim como foi o Lionheart de Kate Bush. Vai saber. Para todos os efeitos, para uma crítica que cai na mesmice de classificar álbuns originais como “pretensiosos” e aqueles mais leves como “genéricos”, não surpreende que este revisionismo seja necessário. Solar Power pode ser qualquer coisa, menos mais um álbum genérico de música pop. Ele diz sobre dilemas e dos contrastes de uma vida levada na corda bamba entre o otimismo e o desespero, entre a autocrítica e a sensação de não pertencimento, e também sobre os desafios em relação à sustentabilidade, tema tão caro atualmente.

Mas é fácil entender o caminho argumentativo que a crítica adota. 2021 chegou com a promessa de vacina e de uma volta aos poucos à normalidade, mas vem se mostrando um 2020 parte II, uma sequência de péssimo gosto de uma série que já ia mal. Em um mundo que sofre com as consequências de uma pandemia que não parece ter fim, lançar um álbum *otimista* soa estranho demais, quase falso. Em 2020, jornalistas de música já tinham um nome para os conceitos em torno de certas obras que se tornaram hegemônicas, chamadas então de “discos pandêmicos”. Nada mais natural, afinal, à arte, como propulsora de sentimentos mas também de um tempo e de uma História, cabe a missão de extravasar todos os sentimentos advindos dessa realidade; neste caso, em forma de música.

Mas eu prefiro notar que Lorde, mesmo mantendo essa mesma intenção de falar sobre o mundo, escolheu um outro caminho para seguir, talvez uma rota de fuga ou, para os esperançosos, o desejo por dias mais leves. E, neste 2021, levando em conta todas as temáticas que permeiam o álbum, essa tentativa de ser mais positiva vai além do otimismo de boutique que ela própria denuncia.

Solar Power aponta para o futuro, ou pelo menos para uma esperança.

Não à toa, aposto que as temáticas que passeiam pelo álbum sejam uma tendência vindoura da música pop, inspirada pelo avanço da vacinação e pela retomada de atividades que antes eram tão rotineiras; inspiradas pelo romance, pelas festas, pela praia, pelo sentimento de sair extasiada e leve de um festival quando o sol começa a aparecer, enfim, por todas as sensações que pareciam banais mas que foram tão privadas de nosso convívio nos últimos anos que hoje soam quase como uma idealização.

Sensual world

Solar Power também é um disco sensual, inspirado no movimento hippie misturado à música easy listening de rádio FM dos anos 90. E ela não é a única a explorar essa temática: conversando com a amiga jornalista do Museu da Pessoa, Anna Bella — também autora desta newsletter — ela me disse que o novo single de Shawn Mendes, Summer of Love, vem na mesma tendência “paz, amor e sexo”. E isso não parece um acaso.

Só para trazer um pouco de ~ cor local ~ à discussão, logo me lembrei também do livro O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro. Ele nos conta como foi o carnaval de 1919, pós-gripe espanhola, momento marcaria para sempre a vida e o estilo literário de Nelson Rodrigues — uma quase epifania da temática sexual que permearia seus textos.

O carnaval que conhecemos, da música, da libertinagem e da bebedeira à luz do dia talvez tenha nascido naquele 1919 pós-pandêmico, assim como a liberdade sexual do movimento hippie nasceu como resposta de uma juventude que não aguentaria passar por mais uma guerra, que queria se livrar do conservadorismo sufocante em todos os sentidos. Nada disso é novidade, porque a História mostra o que acontece quando um grande período de recessão, aos poucos, se esvai: anseia-se por uma fase mais leve, ainda que isso soe contraditório. E agora, somos nós quem ansiamos por momentos de leveza.

Em tempo: Lorde obviamente nunca deve ter lido Nelson Rodrigues ou Ruy Castro, mas seus pensamentos parecem consoantes: em uma entrevista recente, ela só deseja uma coisa para seus fãs durante o verão: “transem”.

Em resumo, Solar Power diz sobre família, sobre suas raízes neozelandezas, sobre a sensualidade inerente ao verão, sobre as relações simples que devem ser valorizadas, e também, claro, é uma declaração de amor à natureza (e ao que resta dela).

Ou talvez não seja nada disso, talvez tudo o que a gente precise seja sentar no sofá e assistir a um clipe que mais parece uma pintura em tons veraneios, protagonizado por uma Lorde toda de amarelo, que nos pegue pela mão e nos leve para um outro espaço-tempo, tão belo quanto natural. Assim, Solar Power levanta uma questão necessária: em tempos tão complicados, não caberia à arte, também, nos conectar com uma vivência mais leve? Ainda que levemente nostálgica? Ainda que o mundo continue uma merda? Ainda que o otimismo esteja em crise?

Na faixa Passion Fruit, Lorde dá um grande suspiro no meio da música, como se desse um recado que poderia resumir todo o conceito do disco em si:

respire.

Solar Power, no fundo, é um respiro necessário.

Para todos os efeitos, como se já esperasse uma recepção não tão calorosa do seu novo álbum por parte da crítica, Lorde tratou de se explicar logo na primeira música: “se você espera por uma salvação, meu bem, ela não virá de mim. Vamos torcer para que o sol nos mostre o caminho”.

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Jornalista, Bacharel em Letras, pesquisadora em música sertaneja/feminejo. Ex Revista Ragga, Alto-Falante, Cifra Club e Palco MP3.

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