Por que por trás de um ídolo decadente do rock precisa existir uma mulher manipuladora? O que isso tem a ver com o vício e com o machismo?
E por que essa história parece velha, mas é mais atual do que muita gente pensa?
Lembro de um texto que fez certo sucesso já faz um tempo, questionando o porquê de amarmos o Nirvana e odiarmos o Hole, quando deveria ser o contrário (de acordo com a autora). Quando se refere ao Nirvana-Hole, ela fala sobre a idolatria excessiva em cima de Kurt Cobain e o repúdio absoluto à figura da Courtney Love. Na minha opinião, o texto beira ao exagero em alguns momentos, mas o ponto que ela levanta é muito interessante: o rock é machista quando insiste em depreciar o trabalho de uma mulher e ainda acusá-la pelas desgraças na vida de um rockstar. E isso não é novidade (sabe a síndrome de Yoko? Pois é).
Esse tipo de visão critica sobre o rock ganhou corpo nos últimos anos, com a força dos debates sobre o empoderamento da mulher, e coincidiu com o que a mídia vem chamando de “decadência” do estilo. No final do texto, vou tentar mostrar que esses pontos não são pura coincidência.
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Antes, voltemos no tempo, mais precisamente na Seattle do início dos anos 90. Muitas bandas estavam nascendo lá, com influências de várias vertentes diferentes do rock, chamando a atenção da Rolling Stone, MTV e outras mídias do ramo e — especialmente — dos selos de grandes gravadoras. E aí, muitos outros jovens artistas também foram para lá em busca de uma chance. Esse “borburinho” que começava a rolar explodiu no grunge, movimento que até hoje é comentado e que deu origem a vários ~ídolos do rock (o termo brega é pra chamar a atenção pra este ponto).
Mas por trás de toda essa efervescência cultural, Seattle (assim como outros pontos dos EUA) vivia nessa mesma época um boom do uso de heroína. O fenômeno era parecido com aquele que rolou no fim dos anos 60 (bem o cenário de Heroin, do Velvet Underground). Capas de revista chamavam a heroína de “a droga da moda”, como se fosse uma polaina, calça de cintura alta ou qualquer peça de roupa que volta à tona depois de anos de esquecimento. (Anos depois, alguém realmente teve a ~brilhante ideia de misturar moda com o vício, o tal heroin chic). Pois bem, este aspecto do uso da heroína não deixa de ser cultural, mas ganha ares de tragédia porque marcaria a vida de muita gente que buscou em Seattle a realização de um sonho: entre eles, Kurt Cobain, Courtney Love, Layne Staley e Demri Parrott.
Os quatro eram tinham pouco mais de 20 anos, eram jovens artistas e tinham uma vida inteira de glórias pela frente. A diferença entre eles? Basicamente, o gênero. Enquanto os homens foram postos a semi deuses pelos fãs, as mulheres foram crucificadas e responsabilizadas pelas atitudes negativas de seus namorados.
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A história de Kurt Cobain você deve conhecer, porque já foi contada em livros, filmes, documentários, teorias conspiratórias no Wikipedia e páginas e mais páginas de revistas ao longo de mais de vinte anos. Esses textos mostram que sua vida foi marcada por uma depressão profunda mal diagnosticada, pelo abandono familiar, por uma doença crônica (que lhe causava dores insuportáveis) e, sim, pelo vício em heroína. Aos 27 anos, cometeu suicídio. É o que aponta o laudo policial, as fotos do corpo, os indícios.
As tentativas de se justificar o injustificável (a eterna pergunta por trás do “por que alguém tira a própria vida?”) foram parar em teorias conspiratórias como aquela que já conhecemos: especulam que o suicídio, na verdade, foi assassinato: e a assassina de Kurt seria sua própria esposa, Courtney Love. Outras teorias vão menos longe, mas acusam Courtney de ter “estragado a vida de Cobain”, de ser problemática, encrenqueira, a viciada que levou o namorado para o buraco da heroína. Oh, o pobre homem sem personalidade que se deixa levar por uma mulher ~leviana e manipuladora.
O ponto é que, apesar de Courtney Love ter sido vocalista do Hole, de ter visto o primeiro álbum da sua banda hypar, sendo bem elogiado pela crítica (e isso antes de se relacionar com Kurt), ela nunca teve o mesmo reconhecimento que o seu parceiro. Digo isso porque, até hoje, mesmo passados mais de 20 anos da morte de seu marido, ela ainda é acusada de ser uma poser.
As teorias — olha elas de novo! — acusam o álbum mais relevante de sua banda, o Live Through This, de ter sido criação de Kurt. Para além de ser um desrespeito com os outros integrantes da banda — era o guitarrista Eric Erlandson o criador de grandes da banda, sem contar o baixão inesquecível da Kristen Pffaf — a teoria soa um escárnio, como se Courtney fosse incapaz de ser uma artista criativa por si só. Como se precisasse de um homem genial para que ela também fosse um gênio. As pessoas que acreditam na sua “incapacidade” debocham com memes sobre ela (todo mundo já viu o vídeo dela tocando guitarra bêbada em um show, legal, próximo argumento) e usam isso como para tentar colocá-la à sombra de seu marido. Novamente, tentam apagar o talento de uma mulher por causa de sua personalidade. Louca, histérica, chata, manipuladora, sem talento — esses são alguns adjetivos que os haters adoram usar contra ela.

Mas Courtney não foi a única mulher a ser acusada de estragar a vida de um músico. Sob Demri Parrott, pairou a mesma acusação, tão estúpida e ridícula quanto a de Courtney: Demri teria sido uma “influência negativa” na vida de seu namorado, o vocalista do Alice In Chains, Layne Staley. Um biógrafo da banda chegou a supor que o vocalista foi influenciado a usar heroína por Demri. Como se a culpa do vício e da morte do ex fossem dela.

Aqui, vale destacar um ponto: Layne também foi um ídolo grunge, também um artista dedicado, mas que, por conta de sua depressão e do abandono do pai (que era viciado), acabou se entregando ao abuso da heroína. Veja bem, ele já passou por um drama familiar de ter um pai viciado, que ele conheceria só anos depois. Seus amigos próximos também injetavam. Mas isso não deve contar, né? Afinal de contas, uma hora ou outra a culpa é da mulher.
Assim como Kurt, Layne não conseguiu viver o auge de seu sucesso com sua banda, o Alice In Chains. Alguns shows foram cancelados porque o vocalista não estava em condições de seguir em turnês. Em 96, ele abandonou a banda e viveu em reclusão, nunca abandonando a heroína. Morreu de overdose em 2002, e alguns amigos alegam que ele estava pesando menos de 40 quilos.
Mas, assim como Kurt, Layne também tinha uma namorada, artista, encantadora e de personalidade marcante. Outra mulher forte que seria ofuscada da pior maneira possível. Apesar de ser descrita como multi-talentosa, Demri sempre será lembrada como a namorada do Layne ou a culpada pelo seu vício.

Demri e Layney se conheceram ainda adolescentes. Ele, músico, ela, atriz. Logo se apaixonaram e começaram a namorar. Assim como Courtney e Kurt, o casal usava heroína juntos — e todo mundo sabe que um casal dependente dificilmente se ajuda, a não ser que as duas partes estejam dispostas a largar o vício. Courtney tentou, e viu Kurt desistir depois de se internar na mesma clínica que havia dado bons resultados para ela. Já sobre Demri e Layne, o que se sabe é que os dois acabaram afundando juntos. Então, por que a culpa da decadência do namorado caiu sobre ela? A grande questão é que Kurt, Courtney, Layne e Demri já usavam a droga antes mesmo de se conhecerem. Estamos falando daquela Seattle do início dos anos 90, afinal de contas.
Courtney ainda pode se defender desse tipo de acusação (ou ignorá-las, como bem vem fazendo atualmente), mas Demri não teve a mesma “sorte”. Ela morreu em 1996, em decorrência de uma bactéria que afetou o seu coração. Como ela fazia uso constante de heroína, a principal hipótese de sua morte é que ela tenha se infectado quando usava agulhas contaminadas. Demri tinha 26 anos e já não estava mais com Layne, mas amigos próximos afirmam que a depressão dele se agravou ainda mais com a morte da ex. Uma história triste por si só, mas que ganha ares mais trágicos quando tentam tirar dela teorias oportunistas sobre “quem afundou quem no vício”.
Aqui, a história de Courtney se cruza com a de Demri: De novo, uma mulher descrita como “irreverente”, “extrovertida”, “sedutora” é colocada como ameaça a um homem tímido, problemático, (ofuscado?) — como se ela também não tivesse seus problemas. Mais um sinal do machismo ali, na nossa cara. Por que as mulheres mais fortes são vistas como perigosas?
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Pode parecer que estou alimentando teorias velhas, mas é bizarro entrar nas redes sociais da Courtney Love em 2017 e ainda ver comentários a acusando de assassina, mais de 20 anos após a morte de seu marido. A gente não tem dimensão da dor que essa mulher passou — só ela tem.

No meio disso tudo, o que intriga é que o rock, esse gênero que já viveu muitas fases de auge, já está há muito tempo perdendo espaço — já não é o gênero mais vendido nos Estados Unidos, de acordo com uma pesquisa bem recente.
O que isso tem a ver? Bom, parece que as velhas concepções de sexo, drogas e rock’n’roll já não combinam mais com os tempos atuais. Os ídolos que compunham letras mais questionadoras e consistentes vêm morrendo pouco a pouco, lamentavelmente (é o caso do grunge, que pouco ostentava essa tal essência glamurosa do rock). Por outro lado, alguns dos artistas que se mantêm nos palcos nos fazem sentir vergonha alheia por suas opiniões caducas, esdrúxulas e preconceituosas (vide os roqueirões brasileiros). Os punks de ontem se mostraram posers, garotos mimados que nunca de fato questionaram o sistema porque nunca precisaram. Os fãs, mesmo os mais jovens, reproduzem xingamentos sexistas e até antiquados, sem nem questionarem. Chegam ao nível de atacar uma mulher gratuitamente, não deixando com que ela siga com sua vida sem que a sombra de um trauma vire contra ela em forma de acusação. Ainda hoje, são esses fãs e essas bandas com pensamento pré-histórico que seguem alimentando parte da indústria do rock.
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O rock é machista quando não reconhece que a esposa de um grande músico não precisa ser uma groupie. Quando reduz a presença da mulher no rock a um fetichismo (a mina é baterista e ainda é gostosa!) ou quando a julga incapaz de tocar bem. É machista quando precisa acusar uma mulher pelo fato de um ídolo não querer mais viver. É machista quando lê este artigo e pensa que essa discussão é “ultrapassada”. E, por ser machista, o rock caduca. Logo este gênero, que venderam pra gente como sendo questionador, irreverente e inteligente. Que nasceu da periferia , como forma de contestação, e que tem uma história tão bonita de origem.
No século XXI, o que fez o rock se inovar são as bandas formadas por mulheres. Muitas delas, independentes. Já tivemos a própria Courtney Love, Janis Joplin, Stevie Nicks, Kathleen Hannah (e muitos, MUITOS outros exemplos de mulheres que questionaram o machismo pegando suas guitarras) que abriram o caminho, mas nunca foram maioria — e por não serem maioria nos bastidores e nos palcos é que esse tipo de teoria bizarra que tratei aqui ainda existe.
Enquanto isso, o rock segue sendo engolido pelos novos mecanismos de streaming e pela modernização da música (só ele não se moderniza, em se tratando do mainstream). Os ídolos saem de cena ou dificilmente se reinventam. Não à toa, a maior rockstar que nós temos hoje é a Beyoncé.
Se um dia vamos voltar a nos identificar com o rock, não dá pra saber. Enquanto alimentar discursos sexistas como estes e muitos outros, possivelmente, não. O que eu sei é que rock nasceu das minorias — e é só a partir delas que ele pode se reinventar.


